ENTREVISTA: KIHATIRO KITA: ‘Da forma como está, a tendência é o desaparecimento da comunidade nipo-brasileira’

Em meio aos preparativos para a cerimônia de apresentação das obras de modernização das instalações do edifício-sede e à especulação sobre seu sucessor, o presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Kihatiro Kita recebeu a reportagem do Jornal Nippak e fez um balanço de final de ano e do terceiro mandato frente à presidência da entidade. Nesta entrevista, Kita fala sobre realizações, desafios, a instalação do “Japan House” em São Paulo e os planos para o futuro.

 

Comemorações dos 60 anos do Pavilhão Japonês com o grão-mestre Daisoho Sen Genshitsu (foto: Jiro Mochizuki)

Comemorações dos 60 anos do Pavilhão Japonês com o grão-mestre Daisoho Sen Genshitsu (foto: Jiro Mochizuki)

 

Confira:

Jornal Nippak: Qual a sensação ao deixar a presidência da principal entidade da comunidade nipo-brasileira após três mandatos? É de alívio ou de tristeza?

Kihatiro Kita: Nem uma nem outra. Só espero ter servido à comunidade dentro de minhas possibilidades. Sinto que esses seis anos na presidência passaram rápido. Para mim, foi uma alegria ter servido a entidade durante esses anos. Posso dizer que foi sacrificado, mas não estou reclamando, afinal, aceitei o cargo porque quis, não por imposição. Tentei, de acordo com a minha capacidade, me esforçar ao máximo para garantir uma boa administração. Certamente, depois de todo esse tempo de intensos contatos com pessoas dos mais diferentes locais, visitantes, colaboradores; vou sentir saudade desse cotidiano de numerosos compromissos.

JN: Particularmente, o que o marcou fortemente durante esse tempo em que esteve frente ao Bunkyo?

K.K.: Foi o esforço, não só meu, mas de todos, para resolver algumas pendências da entidade. Por exemplo, lutamos e conseguimos solucionar o problema do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) que, quando assumi a presidência, vinha se arrastando há vários anos. Esta questão estava atrelada à administração condominial e, portanto, mesmo que quisesse, não conseguiria pagar o imposto devido. Ao final, não só resolvemos essa questão, como também conquistamos a isenção desse imposto municipal, não só para o Bunkyo, mas também de algumas das entidades que fazem parte deste condomínio.

Em nível federal, desde há várias gestões, vem se arrastando o problema do INSS, autuação que ocorreu quando eu ocupava o cargo de tesoureiro geral. Nos últimos anos, conseguimos importantes conquistas que nos levam a acreditar numa solução positiva desse processo. Ao longo desta gestão, foi possível “administrar” essa questão e conseguimos impedir que alguns bens da entidade, incluindo o Centro Esportivo Kokushikan, acabassem leiloados por conta dessas autuações para compensar supostas dívidas.

Nesse aspecto, foram marcantes as críticas dirigidas à nossa gestão por determinados membros conselheiros declarando ser “vergonhoso ficar lutando contra o INSS, uma instituição que tem garantido a nossa aposentadoria”. Na realidade, existe um pequeno grupo que não consegue entender que estamos buscando os direitos estabelecidos por lei à entidades como o Bunkyo. Fico feliz por ter conseguido “segurar” juridicamente esse processo do INSS, e muito agradecido pela firme atuação de nossos advogados.

Não podemos deixar de destacar a doação do empresário japonês Minoru Otsuka que deverá marcar fortemente este momento da história do Bunkyo que, em 2015, completa 60 anos. Considero esta doação como uma providência, uma obra de Deus, que veio para atender aos anseios da diretoria e dos associados e possibilitar as melhorias nas instalações do edifício-sede.

Assim, com o valor da doação (cerca de 2 milhões de reais) realizamos as obras possíveis que, somando às melhorias conquistadas por meio das Campanhas Associado Master e Associado Benemérito, conseguimos dar passos vigorosos para a modernização de nosso edifício-sede.

JN: Entre os grandes projetos, está a construção do Centro de Cultura Nipo-Brasileira projetado para o Centro Esportivo Kokushikan, em São Roque. Não se sente frustrado por não ter conseguido colocá-lo em prática?

K.K.: O Kokushikan continua sendo nosso grande desafio, mas não o considero como uma grande frustração. É importante considerar a necessidade de se criar um projeto global para esse local e a partir disso planejar estratégias para sua viabilização. Jamais prometi que iria concretizá-lo durante esta gestão, mas alguém tinha de começar esse processo.

Para as obras, serão necessários recursos de grande monta e que, certamente, deverão ser captados por meio das leis de incentivo fiscais e, para tanto, era essencial estabelecer um projeto, e esse foi o passo que demos. Continuo acreditando na viabilidade desse Centro de Cultura para o Kokushikan e espero que as futuras gestões possam garantir a efetiva ocupação deste local.

 

"O Kokushikan continua sendo nosso grande desafio" (foto: Jiro Mochizuki)

“O Kokushikan continua sendo nosso grande desafio” (foto: Jiro Mochizuki)

 

JN: Se tivesse de definir seu estilo de administrar, como o definiria? Conseguiu fazer com que sua equipe, sua diretoria, assimilasse o seu estilo.

K.K.: Não sei se podemos chamar de estilo, mas posso dizer que não me considero um teórico, meu estilo é ser prático, vou fazendo as coisas no dia-a-dia, vou executando e, às vezes, não tem jeito, acabo batendo a cabeça na parede.

Recebi o apoio dos companheiros da diretoria e dos colaboradores, caso contrário não teria concretizado nossas atividades.

É claro que sempre estará faltando muita coisa para ser executada, e isso estará a cargo do próximo “kaicho” (presidente) que deverá ter visões mais arrojadas que tivemos nesta gestão e firme disposição para colocá-las em prática. Ao assumir a presidência de uma entidade tão abrangente como o Bunkyo, recebemos sugestões e reivindicações de todos os lados e, nesse ponto, é fundamental a tomada de posição, mesmo que isso possa gerar críticas de determinados grupos.

JN: Em sua opinião, qual foi a grande realização que ficará como “marca” de sua gestão?

K.K.: Acredito que só o tempo dirá, mas posso afirmar que foi a preocupação com a modernização, com a atualização da entidade. Nesse sentido, falo não somente quanto à instalação do edifício-sede, como também em relação às pendências jurídico-administrativas que vinham se arrastando ao longo dos anos. Nesse sentido, a entidade está preparada para que o próximo “kaicho”  possa cumprir uma gestão tranquila, afinal, 2015 será um ano repleto de eventos comemorativos.

Desde os últimos anos, tenho observado certa decadência ou acomodação das atividades no âmbito da comunidade. Felizmente, nos últimos meses, a notícia de que o governo japonês pretende instalar em São Paulo o “Japan House” parece ter despertado o ânimo do pessoal.

Em especial, temos batalhado para que o “Japan House” seja instalado em nossa entidade, fato que poderá representar não somente a revitalização deste edifício-sede como também de todo o bairro, de toda a região. Não há uma decisão final ainda, mas colocamos à disposição as instalações de nossa entidade como uma das possibilidades.

JN: Em 2015, comemoram-se os 120 anos do Tratado de Amizade Brasil-Japão e os 60 anos de fundação do Bunkyo. Não dá certa vontade de continuar na presidência por mais um ano pelo menos?

K.K.: Até abril do próximo ano ainda participo da comissão organizadora na qualidade de presidente do Bunkyo, mas depois estarei somente acompanhando e colaborando com os trabalhos na qualidade de associado.

Diria que sempre estarei à disposição para ajudar em todos os sentidos, independente do cargo. Estas comemorações são momentos únicos e precisamos da colaboração e esforços de todos.

 

Kita durante a recepção ao primeiro-ministro japonês Shinzo Abe no Bunkyo (foto: Jiro Mochizuki)

Kita durante a recepção ao primeiro-ministro japonês Shinzo Abe no Bunkyo (foto: Jiro Mochizuki)

 

JN: Falando em próxima gestão, o seu sucessor já está definido?

K.K: Na prática, de fato, não sou eu quem define o sucessor. Posso ter as minhas preferências, mas a escolha se dá a partir de um processo democrático, por meio de eleições.

Minha expectativa é a de que meu sucessor tenha exemplar densidade cultural tanto em Brasil como Japão, tenha em seu perfil o compromisso de melhorar e de integrar cada vez mais as comunidades dos dois países. Isso, voltado não somente aos descendentes de japoneses como também aos não descendentes. Pessoalmente, ando muito preocupado com a falta de motivação dos jovens nikkeis em participar das entidades. Às vezes, tenho a impressão que eles têm vergonha da própria cara de descendente de japoneses.

JN: Já pensou o que fará depois de deixar a presidência?

K.K.: Livre dos compromissos diários, incluindo os finais de semana, agora quero cuidar da minha vida, afinal, já tenho certa idade e preciso cuidar da minha saúde. Fazer companhia para os meus netinhos, enfim, ter mais espaço para o lazer com a família.

 

O presidente durante as comemorações dos 106 anos na CMSP (foto: Jiro Mochizuki)

O presidente durante as comemorações dos 106 anos na CMSP (foto: Jiro Mochizuki)

 

JN: Qual a mensagem que gostaria de deixar para a comunidade nikkei?

K.K.: Que todos se conscientizem da necessidade de promover uma integração cada vez maior na comunidade nikkei. Que as novas gerações se envolvam mais, participem mais de nossos eventos e tomem iniciativa de promover outros de seus interesses.

Da forma como está, a tendência é de desaparecimento da comunidade nikkei e isso não pode acontecer. Gostaria que o Bunkyo tivesse um papel cada vez mais destacado como agregador dessas pessoas e das atividades relacionadas à cultura japonesa.

Neste final de ano, gostaria de agradecer às inúmeras pessoas, entidades, empresas que acreditaram e colaboraram com as nossas atividades. Queria pedir desculpas diante dos transtornos causados pelas obras impedindo que muitos de nossos tradicionais parceiros pudessem realizar seus eventos em nossos espaços. Na realidade, neste final de ano e começo de 2015, ainda estaremos em obras, buscando encerrar esta etapa de obras. Desejamos que, a partir do próximo ano, todos possam usufruir plenamente dos benefícios deste amplo e renovado espaço de nossa entidade.

Ao finalizar, junto com os agradecimentos, gostaria de reforçar a mensagem que adotamos para este ano: “que em 2015 nossos ideais se fortaleçam e nossas ações se mantenham firmes para que nossas esperanças se transformem em realidade”.

(Aldo Shiguti)

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