ENTREVISTA: Kurimori quer intensificar fiscalização contra ‘caneteiros’

Reeleito para o segundo mandato como presidente do Crea-SP com quase 80% dos votos, o engenheiro Francisco Kurimori já assumiu administrativamente. Entre as prioridades está o combate aos “caneteiros” e aos maus profissionais e a modernização da entidade. Para ele, ser o primeiro nikkei a assumir a presidência do Crea-SP, o maior conselho profissional da América Latina com cerca de 350 mil profissionais das áreas de Engenharia, Agronomia, Geologia, Geografia e Meteorologia, além de Tecnólogos e profissionais Técnicos Industriais de nível médio, em 80 anos de história, é “um grande orgulho”. “E  também uma grande responsabilidade porque temos que preservar nossas origens, nossos valores e combater a corrupção e a falta ética”. Natural de Igarapava (SP) – onde moriu até os 17 anos de idade – Kurimori, de 64 anos, divide seu tempo entre a Capital e Lins, onde mora. Aliás, foi em Lins que ele conheceu sua esposa, a também engenheira Keiko Obara Kurimori, que preside a Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos da Região de Lins e ex-vice-prefeita do município. “Já estou acostumado, como engenheiro rodei o Estado de São Paulo todo”, diz o pai de Kauê (arquiteto), Ceci (médica) e Iara (Bacharel em Lazer e Indústria de Entretenimento e proprietária do Dhaigo Japanese Restaurant, no bairro de Santana ) e Cidadão Linense, Itapecericano, São Joanense (São João da Boa Vista) e Taquaritinguense.

 

O engenheiro Francisco Kurimori e o mais novo cidadão linense (foto: divulgação)

O engenheiro Francisco Kurimori e o mais novo cidadão linense (foto: divulgação)

 

Confira a entrevista concedida ao jornalista Aldo Shiguti

 

 

 

Kurimori (foto: divulgação)

Kurimori (foto: divulgação)

 

Jornal Nippak: Qual o balanço que faz de sua primeira gestão e quais as principais conquistas?

Francisco Kurimori: Assumi a presidência do Crea-SP para promover mudanças e fazê-lo funcionar. Construir uma gestão séria, íntegra, honesta, austera, comprometida com o presente e o futuro, para fortalecer a nossa categoria. Desde o nosso primeiro dia de gestão, conversamos sobre um projeto para combater os “caneteiros”. Isso continua sendo um compromisso nosso, uma dívida que temos. A fiscalização é um dos itens mais importantes da valorização profissional. Se não funcionar, daremos margem para que a sociedade possa achar mais interessante contratar um “caneteiro” do que um profissional ético. O projeto da Casa da Engenharia nasceu para estabelecer um padrão de identidade para as unidades do Crea-SP e, dessa forma, inserir a marca da área tecnológica na paisagem urbana, permitindo a sua identificação visual, a exemplo do que acontece com outras instituições de respeito amplamente conhecidas pela população brasileira. Em 2014, o Crea-SP deu início à construção das Unidades sob este novo conceito, que está inserido num projeto maior: o compromisso público de modernização do Conselho em todos os seus pontos de atendimento no Estado, tornando-o disponível, à distância, a toda a sociedade. Contribuímos para a formação da Frente Parlamentar em Defesa da Engenharia e Agronomia do Brasil na Câmara dos Deputados. Incentivamos e indicamos inúmeras representações institucionais do Crea-SP nos Conselhos Municipais e Estaduais, graças à colaboração dos inspetores e das entidades de classe. Já chegamos ao smartphone dos profissionais. O registro no Crea-SP já está sendo feito on-line e, em breve, o registro de empresas e o acervo técnico/ART também poderão ser solicitados dessa forma. Na sequência, todos os serviços financeiros também estarão disponíveis.

 

 

JN: Ser reeleito com quase 80% dos votos é sinal que o Crea-SP está no caminho certo?

F.K.: Os profissionais da área tecnológica nos deram seu voto de confiança e, com isso, nos possibilitaram, para os próximos três anos, a continuidade do trabalho de valorização e defesa das nossas profissões que vimos desenvolvendo com tanto empenho e transparência. Para honrar esse compromisso, seguimos firmes com o objetivo de defender a ética e combater o exercício ilegal das nossas profissões.

 

 

JN: Uma de suas preocupações tem sido a valorização da classe dos profissionais da área tecnológica…

F.K.: Resgatamos a autoestima da Engenharia e da Agronomia, com estímulo à participação nas atividades associativistas. Apregoamos o aperfeiçoamento dos profissionais em eventos de interesse da classe, o que significa novo fôlego para a atualização do conhecimento. Precisamos trabalhar para que o mercado de trabalho seja dos profissionais da engenharia, que tenham ética, que cumpram o seu papel. Se o Crea-SP fizer bem o seu papel de fiscalização, a sociedade ganhará muito, com produtos e serviços de qualidade. Para que tudo isso possa acontecer, é importante existir união entre os profissionais de diferentes modalidades da área tecnológica. Formamos um exército muito grande para trabalhar em prol das nossas categorias, pela valorização profissional, em benefício da sociedade. Em São Paulo, estamos construindo um sistema muito forte, que vai aproximar profissionais, empresas, instituições de ensino e entidades de classe.

 

 

Kurimori (foto: divulgação)

Kurimori (foto: divulgação)

 

 

JN: Durante a campanha, o senhor também apresentou como proposta a modernização do Crea-SP. Como espera cumprir essa meta? Hoje, como a entidade está estruturada?

F.K.: Ao investirmos na implantação de modernas ferramentas tecnológicas, alcançamos importantes avanços no relacionamento com as empresas e profissionais registrados. Substituindo um sistema obsoleto de informação por um novo sistema denominado CREANet, iniciamos o processo de evolução partindo de um atendimento totalmente presencial para a prestação de serviços on-line, com o objetivo de se transformar num grande balcão eletrônico. Além dos altos investimentos em tecnologia, a iniciativa exigiu intenso trabalho de várias equipes do Conselho e a reformulação de algumas práticas. Para oferecer o melhor serviço possível aos profissionais, a mudança incluiu o treinamento de funcionários e o início da digitalização de todo o acervo de documentos antigos para a formação de um banco de dados eletrônico, permitindo o cruzamento de informações. Agora a nova tecnologia oferece maior velocidade e precisão de dados em diferentes procedimentos do Crea-SP, como o Registro de Profissionais. Anteriormente, para solicitar seu registro, o profissional precisava dirigir-se várias vezes a uma unidade do Conselho levando cópias autenticadas dos seus documentos e, em seguida, pagar a taxa de serviço no banco, num processo que levava cerca de 30 dias para obtenção de seu número de registro. Com o Web Atendimento, o processo ficou mais fácil e rápido. De seu próprio local de trabalho ou de sua residência, o profissional pode preencher on-line o novo formulário de solicitação de registro, fazer o upload das cópias escaneadas dos seus documentos pessoais e pagar a taxa também pela Internet, no banco de sua preferência. Desde a implantação do novo sistema, mais de dois mil registros reais já foram feitos por profissionais. Em breve, os serviços de registro de empresa e acervo técnico também serão incluídos no Web Atendimento, ampliando a gama de facilidades para os registrados no Conselho.

 

 

JN: Como espera combater os “caneteiros” e os maus profissionais?

F.K.: Dentre as novas frentes de fiscalização hoje instaladas na autarquia, o combate à prática do empréstimo de nome é uma prioridade, implicando procedimentos mais corretivos que punitivos. Estamos colocando em prática uma força-tarefa, unindo agentes fiscais, inspetores e conselheiros, para combater o mau exercício profissional e dar fim ao empréstimo de nome por parte de profissionais que são contratados apenas para assinar como responsáveis técnicos, sem ser o seu verdadeiro autor ou oferecer o devido acompanhamento do serviço. O projeto que estabeleceu metodologia de trabalho no levantamento de provas de empréstimo de  nome e para o processamento dos elementos levantados durante operação fiscal valeu-se de novo instrumento de solução pacífica que induz o profissional a corrigir situações de irregularidade sem a necessidade de aplicação de penalidades que resultam processos desgastantes, morosos e onerosos. Tal instrumento, de uso inédito nas ações fiscalizatórias dos Creas, denominado “Termo de Ajustamento de Conduta – TAC”, está fundamentado no §6º do artigo 5º da Lei nº 7.347/85, a saber: “Os órgãos públicos legitimados poderão tomar dos interessados compromisso de ajustamento de sua conduta às exigências legais, mediante cominações, que terá eficácia de título executivo extrajudicial.”. Embasado no Termo de Mútua Cooperação celebrado entre o Crea-SP e o Ministério Público Federal – MPF, este, no intuito de fortalecer o combate ao mau exercício profissional promovido pelo Conselho, prontificou-se a adotar, no âmbito de sua competência, medidas legais sempre que houver recusa na celebração do TAC ou em caso do profissional compromissário descumprir o acordo celebrado. Também estamos desenvolvendo um importante trabalho de verificação da autenticidade de diploma no processo de registro profissional, por meio de ferramentas administrativas inéditas. Uma delas é o POP 33 – Procedimento Operacional Padrão nº 33, que visa a “aumentar a segurança na concessão de registros profissionais no Crea-SP”.  Em pouco mais de dois anos, o Conselho detectou mais de 70 diplomas falsos, implicando duas providências imediatas: o indeferimento de dezenas dessas solicitações irregulares, com o encaminhamento dos casos ao Ministério Público Federal, e o cancelamento de alguns outros registros já efetuados. O campo de aplicação do POP 33 – documento interno com cerca de duzentas linhas, que orienta os funcionários de maneira minuciosa acerca dos cuidados que devem ser tomados durante os procedimentos para registro profissional – abrange todas as Unidades Operacionais da Superintendência de Fiscalização. Graças à recente implantação do projeto Web Atendimento, com a prestação de serviços ao profissional totalmente informatizada, essa irregularidade será minimizada ao máximo. Também estamos providenciando uma apuração de registros retroativa, em sincronia com os trabalhos de rotina hoje executados na área. A expectativa é de que outros casos ainda sejam apurados, envolvendo sempre a intervenção do MPF quando necessário.

 

 

JN: Que outros projetos pretende colocar em prática?

F.K.: Vamos intensificar o programa de construção, reforma, adequação e ampliação de nossas Unidades, levando padronização visual, acessibilidade e sustentabilidade aos nossos pontos de representação em todo o Estado. A modernização tecnológica das nossas atividades continua sendo uma das prioridades da equipe. Todos os processos oriundos da atividade de fiscalização, bem como os de gestão administrativa, chegarão aos nossos profissionais via ambiente web. A implementação do marketplace da Engenharia vai levar à população a oferta de produtos e serviços, criando um canal de comercialização pela Internet para profissionais e empresas da área tecnológica. Nossas parceiras de longa data, as entidades de classe já têm lugar garantido nas unidades da Casa da Engenharia e, além disso, continuarão a receber incentivos que garantam o seu crescimento. O fortalecimento das nossas regiões administrativas é fundamental para que possamos descentralizar as nossas atividades. Sua reorganização é uma meta para os próximos meses. Outro desafio é colocar em prática a gestão participativa, envolvendo a todos no processo de modernização do Conselho, enfatizando as decisões coletivas. Cidadania e meio ambiente não podem ser esquecidos. O Crea-SP tem consciência do seu importante papel como promotor das decisões que afetam o dia-a-dia da nossa população. Começa a tomar corpo o projeto da Universidade Crea-SP, valendo-se de toda infraestrutura criada nos três últimos anos para promover o aperfeiçoamento profissional de nossos parceiros.

(Aldo Shiguti)

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