ERIKA TAMURA: 25 anos do movimento dekassegui

Este ano de 2015, comemoramos os 25 anos do movimento dekassegui. Mas será que temos muito a comemorar?

Na minha opinião, já se passaram muitos anos e poucas conquistas foram agregadas a esse movimento. Por exemplo, quando os nossos avós foram para o Brasil, uniram forças e consolidaram-se formando uma colônia economicamente forte, e hoje muitos fazem parte de uma elite intelectual dentro da sociedade brasileira, isso aliado ao respeito, é uma grande conquista. Mas e a comunidade brasileira o Japão? Possui esse mesmo respeito perante a sociedade japonesa? Os brasileiros no Japão, na sua maioria é formada por operários, trabalhadores de fábricas ou prestadores de serviços, ou seja uma classe que ainda luta para se fazer presente dentro do Japão.

O movimento dekassegui começou do jeito que todos já sabem, e já conhecem, o Brasil em crise financeira e a inflação exorbitante afunilou as oportunidades profissionais e com dificuldade econômica, o nikkey viu no Japão a chance de ganhar  dinheiro rápido. Mas as dificuldades foram muitas e hoje depois de 25 anos, vejo que alguns problemas não estão nem perto de soluções para serem sanadas.

Um exemplo é a educação das crianças, muitas delas já se tornaram adultas e hierarquicamente continuam trabalhando em fábricas. Penso se essas pessoas não têm sonhos, e se tem, o que aconteceu com eles?

Brasileiros que moram há mais de 10, 15 anos no Japão e nem ao menos sabem o idioma local. Ou ainda, jovens brasileiros que sempre frequentaram a escola japonesa, não entendem o português. Acho um desperdício, pois é a chance real de formarmos uma comunidade bilingue, trilingue ou mais, quem souber aproveitar a oportunidade se sobressairá sempre.

A verdade é que vejo muito a realidade atrelada a uma lenda japonesa, que apesar de ser milenar é tão atual e se encaixa de uma forma tão perfeita para descrever o movimento dekassegui, é a fábula de Urashima Tarô. As pessoas vivem no Japão e não conseguem felicidade plena pois vive com a mente saudosista no Brasil, e depois que retorna ao Brasil, percebe que o tempo passou, todos evoluíram, e a realidade já não é mais como se esperava e aí volta o saudosismo, mas agora do Japão. E assim vai, isso faz com que não haja uma dedicação, nem um comprometimento com o lugar onde se vive, e a felicidade plena torna-se utópica. Difícil de ser alcançada. Felicidade que eu digo, inclui sucesso e realização profissional também, pois se trabalhamos com a ideia de que é por um tempo provisório, não há um vínculo de dedicação profissional, e nem mesmo cultural. Já vi muitos brasileiros falando que preferem não se integrarem com os japoneses pois estão aqui apenas de passagem.

Acho que o momento não é de comemoração e sim de conscientização, afinal já se passaram 25 anos e qual o legado que deixaremos?

Atualmente estou vivendo um pouco no Brasil e um pouco no Japão, e as pessoas me perguntam onde eu prefiro morar, no qual eu respondo que sou totalmente flexível, se estou no Brasil aproveito o máximo o que o Brasil tem de melhor, e quando volto ao Japão, também aproveito tudo o que o Japão me oferece, não gosto de viver na lamentação, a comparação existe com certeza, e é inevitável. E tem alguns pontos que na minha cabeça é uma incógnita, como por exemplo, o preço da gasolina. Convertendo tudo em dólar, o preço da gasolina no Japão é mais barato que no Brasil, como? Se o Brasil é produtor de 100% do seu combustível e o Japão importa tudo?!

É esse tipo de indagação que me vem a cabeça, num comparativo alucinado pelo cotidiano, e isso é inevitável.

Já está na hora do movimento dekassegui tomar alguns rumos mais enérgicos ou mais contundentes, já faz um tempo que escrevo sobre a importância dos brasileiros aprenderem o japonês para se fazerem ouvir perante a todos, pois sem isso não dá para reinvindicar nada.

No meu ponto de vista, a hora não é de comemoração e sim de evolução, com muito trabalho para os brasileiros para quem sabe em breve comemorarmos os direitos adquiridos dentro do Japão.

E é nesse clima de preparativos de comemorações, terrorismo com japoneses, Ministro Abe falando mais do que devia, brasileiro causando no you tube alegando racismo, é que retorno ao Brasil. Japão movimentado e Brasil mais ainda…

 

 

 

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Erika-Tamura

Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

 

 

 

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One Comment

  1. Esse movimento mais prejudicou que beneficiou à família nikkey. Desagregou muitas famílias. Nesta semana na tevê a triste história de um pai, não nikkey, que estuprava suas filhas, a mãe sabia e calava. O homem voltou e trouxe consigo a filha mais nova. Continuava abusando da filha, até que foi denunciado pela vizinha e preso. Outro dia, intermediei a volta de uma japonesa: ela viera com um dakességui ao Brasil já com um filho e descobre que ele é casado e tem família. Brigas se sucedem. Ainda bem que ela concordou em regressar, mediante pagamento da passagem e de uma compensação. Histórias assim há muitas. Nunca houve tanta separação entre os nikkeys como agora.

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