ERIKA TAMURA: 4 ANOS DO TSUNAMI NO JAPÃO

Há 4 anos atrás, o Japão passava por um fatídico terremoto seguido de tsunami, um tsunami devastador para o norte do país. E eu estava lá.

Onde eu morava, na província de Ibaraki, o tsunami não chegou, mas o terremoto sim. Tive que me mudar de casa, pois a casa em que eu morava, ficou danificada com rachaduras, impossibilitando que continuássemos ali por motivo de segurança. Até aí tranquilo, afinal, eu estava bem, meus filhos e meus amigos também. Foi então que juntamente com um grupo de amigos, decidimos ir para Tohoku (região atingida pelo tsunami), fomos levar doações para os desabrigados, e ainda juntou-se a nós Paula Poletto e André François da ONG Imagemagica do Brasil.

 

Tohoku (foto: Erika Tamura)

Tohoku (foto: Erika Tamura)

 

Foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida, apesar de todos em minha volta serem contra, eu fui!

E durante todo o trajeto, conversávamos muito, imaginávamos o que iríamos encontrar, mas quando chegamos ali e vimos as cenas que todos viram pela TV, o silêncio foi geral, não tínhamos palavras e não conseguíamos falar nada, era uma mistura de dor e tristeza, com algo que na TV parece ser de  um jeito, mas vendo tudo ali, pessoalmente… Triste demais!

 

Tohoku (foto: Erika Tamura)

Tohoku (foto: Erika Tamura)

 

Eu disse que foi a melhor decisão que tomei na minha vida em ir pra Tohoku porque esse povo japonês me deu uma lição de vida! O que eu aprendi ali nos abrigos, eu nunca aprenderia em lugar nenhum desse mundo.

A humildade, o respeito ao próximo e a força de vontade em recomeçar, foram algumas virtudes que entendi o significado real na prática. Mas a melhor palavra que aprendi e sei a essência de seu conceito é DOAÇÃO. Hoje eu sei que doação significa você dar a alguém o que ele necessita, sem esperar nada em troca, mas eis que ele te retribui com o melhor que carrega dentro de si, surpreendendo a todos. Foi assim que aconteceu, eu e meus amigos levamos alimentos, fraldas, roupas e o que recebemos em troca foi uma lição de vida que nos surpreendeu. Uma aula de organização, de respeito, pois todos estavam famintos no abrigo, mas ninguém avançou nas comidas que levamos, todos enfileirados esperando a vez para comer. O menino que conheci, dizia que só iria comer se tivesse comida para todos, pois se fosse somente pra ele, ele não queria, porque seria injusto com os demais.

 

Tohoku (foto: Erika Tamura)

Tohoku (foto: Erika Tamura)

 

Tantos outros exemplos que vi e vivi, cada palavra, cada olhar, cada atitude das vítimas do tsunami me fazia acreditar que eu precisava estar ali, não para levar doação, mas sim para aprender e dar valor em tudo que tenho. Nem falo em bens materiais, mas em bagagem de vida, em maturidade, em educação. Confesso que estando ali, eu percebi que não tenho problemas. Tenho obstáculos que são superáveis, mas problemas não tenho nenhum.

 

Tohoku (foto: Erika Tamura)

Tohoku (foto: Erika Tamura)

 

Se eu fosse escrever tudo o que vi e aprendi em Tohoku, com certeza iria faltar jornal, mas quero deixar registrado aqui, a conversa que tive com o prefeito de Minami Sanriki cho, a cidade que foi 90% devastada e onde eu e meus amigos deixamos as doações. O prefeito estava dando entrevista para uma TV local, e eu preenchendo os papéis burocráticos do centro de distribuição de alimentos, quando ele parou a entrevista para ler o que escrevi, e muito surpreso perguntou-me se eu sou brasileira, e diante da minha afirmativa, ele baixou a cabeça em um gesto de agradecimento, e com lágrimas nos olhos dizia o seu muito obrigado, e que não esperava ajuda de um grupo de brasileiros, afinal a cidade não contabilizava nenhum brasileiro como desabrigado. Eu vi que ele permaneceu com a cabeça baixa, e respondi para ele que não tem o que agradecer, e independente da cidade ter brasileiros ou não, estávamos ali de coração e por vontade própria, e no final, foi minha vez de agradecer, pois fui para ajudar e acabei sendo ajudada, porque o que aprendi com o povo japonês, não existe dinheiro que compre, e aquilo tudo serviu para que eu saísse de lá uma outra pessoa, com outros valores e dando importância ao que realmente vale a pena. E ainda disse que mesmo que eu vivesse 100 anos no Brasil, não aprenderia o que aprendi naqueles poucos dias em Tohoku. Fui embora, mas vi que o prefeito ainda chorava, meio incrédulo com as minhas palavras, mas extremamente agradecido com tudo.

 

Tohoku (foto: Erika Tamura)

Tohoku (foto: Erika Tamura)

 

Essa foi a minha experiência em Tohoku. Como eu e meus amigos, existem muitos outros brasileiros que fizeram muito mais para poder ajudar.

Eu costumo falar que fui para Tohoku não para ser solidária, mas sim para agradecer, pois o Japão me deu tudo o que tenho hoje, e não tem nada a ver com dinheiro ou bens materiais, mas sim com meus conhecimentos, princípios, cultura, tudo proveniente do Japão, então nada mais justo que na hora em que o Japão precisasse, eu entrasse com uma pequena parcela de ajuda, em forma de agradecimento, gratidão!

 

Tohoku (foto: Erika Tamura)

Tohoku (foto: Erika Tamura)

 

E é com esse sentimento que selo as comemorações dos 120 anos do Tratado de Amizade entre Brasil e Japão. Não existe forma melhor de simbolizar as comemorações.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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