ERIKA TAMURA: 5 ANOS PÓS TSUNAMI

Se a vida é dividida em fatos marcantes, a minha com certeza tem um marco fundamental há 5 anos.

Em 11 de março de 2011, o Japão passou por um forte terremoto seguido de tsunami, quem não se lembra? Até mesmo quem não tem ligação com o Japão lembra desse dia, e sabe exatamente o que estava fazendo no momento em que a tragédia foi noticiada.

Tentei escrever vários textos aqui nessa página, iniciei algumas frases, apaguei todas, achei que não fazia muito sentido, pois não quero escrever uma reportagem, nem tão pouco tenho a pretensão em se fazer um furo jornalístico com manchetes exclusivas sobre a atual situação das áreas atingidas pelo tsunami, não. Quero apenas abrir meu coração e compartilhar o meu sentimento real de quando falo desse dia.

Para mim, foi um marco, digo até que a minha vida se divide em antes e depois do tsunami. Vivi fatos muito importantes na minha vida sim, tive momentos de extrema felicidade, tive conquistas imensuráveis, tenho saúde, meus filhos são saudáveis e inteligentes, mas tudo isso só começou a ter um sentido especial para mim, depois que trabalhei voluntariamente em Miyagi, um dos lugares devastados pelo tsunami.

Logo após o forte terremoto, decidi instintivamente em ir para Miyagi levar doações. Me preparei, fui empenhada a ajudar e estava psicologicamente estruturada para enfrentar qualquer adversidade. Mas para a minha surpresa, quando cheguei lá,  as cenas locais eram tão chocantes que  a cabeça girava e as pernas amoleceram. Aquela destruição toda, era consequência de uma violência catastrófica inenarrável. Mas o mais incrível, e isso eu faço questão de falar para todos, é o que eu aprendi ali com os desabrigados.

Eu sempre falo que mesmo que eu vivesse 100 anos no Brasil, eu não aprenderia o que aprendi naqueles poucos dias em Tohoku. É incrível como o povo japonês me ensinou, mesmo que inconscientemente, o significado de várias palavras, com atitudes.

Aprendi o significado real de trabalho voluntário, aquele que você se entrega de coração sem esperar nada em troca, mas é surpreendido com palavras e atitudes que agregam valores a sua vida.

Foi isso que aconteceu comigo 5 anos atrás. Fui para levar um pouco de comida, roupas, cobertores e produtos de necessidades básicas, e o que eu recebi em troca foi uma lição de vida! Aprendi o que é respeito ao próximo, tive uma lição do que é viver em coletivo e pensar no bem comum antes de mais nada. Entendi que nessas horas o choro não resolve nada, e que o pensamento prioritário é levantar e recomeçar.

Tudo o que tenho até hoje na minha vida, não digo de bens materiais, mas de conhecimentos e experiências de vida, foi o Japão que me deu, por isso no momento difícil do Japão, eu queria retribuir. Mas quando decidi retribuir, o Japão me vem com mais ensinamentos e mais exemplos que vou carregar sempre comigo.

O prefeito da cidade de Minami Sanriku, a cidade onde levei as doações, veio me agradecer pois não esperava que um grupo de brasileiros fosse até o local para ajudar, eu disse que sou eu quem tenho que agradecer, o que eles me ensinaram naquele momento, eu nunca iria aprender se não estivesse ali.

O grande diferencial na minha vida, depois de ter ido para Tohoku é que descobri que eu não tenho problemas. Depois de ver tudo o que eu vi, presenciar, conhecer pessoas que perderam toda a família, ver crianças que todos os dias esperavam pelos pais que nunca mais voltarão e ainda assim nunca desistirem de viver, sinceramente, todos os meus problemas se dissiparam ali! Não tenho do que reclamar, aliás não me dou o direito de reclamar de nada na minha vida, perdi esse direito quando fui para Tohoku e conheci essas pessoas.

Um país onde uma criança de 8 anos, que perdeu os pais, estava no abrigo, com fome, se preocupa em comer um pão em que eu ofereci, perguntando se tenho pães para todos, pois ele não achava justo comer sozinho, realmente é um país único em respeito ao próximo, e isso explica o porquê do Japão se reerguer rapidamente e com uma força exemplar. O seu povo é ímpar.

Se hoje eu sou o que sou, devo muito ao Japão. Por isso não hesito em dizer que faz 5 anos que a minha vida tem um sentido especial.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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    4 Comments

    1. Que coisa mais linda esse seu depoimento…acabei de ler com lágrimas nos olhos…não tenho nenhuma descendência japonesa, infelizmente…mas tenho mta, mta admiração e respeito por vcs…o povo japonês é ímpar em todos os sentidos. Que Deus abençoe vcs.
      Bjs

    2. Obrigado por compartilhar sua experiencia e minha admiracao tambem pela sua atitude de ser voluntaria e nos fazer refletir sobre nossa vida. ありがとう ございました.

    3. Admirei muita sua atitude de voluntaria,tenho muita admiraçao pelos japoneses,um pais unico mesmo em respeito ao proximo…e lamento e meu coraçao sangra qdo vejo noticiarios k muitos brasileiros matam e aproveitam dos velhinhos indefesos…tudo por causa de um misero dinheiro!!K e isso brasileiros…acordem!!!!!!

    4. Herbert Saavedra says:

      Fantástico depoimento, Érika.
      Eu estava procurando um texto que li há algum tempo, sobre um policial que deu seu lanche a uma criança japonesa, desabrigada por conta desse mesmo terremoto, e a criança entregou o lanche para a fila de necessitados. Não localizei esse texto, mas achei o seu, que é da mesma forma comovente.
      Se tiver conhecimento desse caso, peço por favor que me diga.
      Felicidades

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