ERIKA TAMURA: A conquista da Melissa

No meu artigo passado, eu disse que essa semana escreveria sobre a palestra do professor Daisuke Onuki. Peço a compreensão de todos, mas aconteceu um fato que me fez mudar de ideia, e adiar o artigo sobre a palestra.

O fato que aconteceu, fez de mim a pessoa mais feliz desse mundo, e sem exageros. Vou falar sobre a conquista da minha filha, Melissa.  Confesso que fiquei com receio de escrever um artigo meramente matriarcal, carregado de exageros afetuosos, mas resolvi encarar isso.

Melissa é uma menina de 12 anos, até os 10 anos viveu no Japão. Estudou em escola japonesa e brasileira. Portanto é uma criança bilingue. Retornando ao Brasil, começou a estudar em escola brasileira, e não têve maiores dificuldades. Talvez uma palavra incompreendida aqui e outra ali, mas nada que comprometesse o seu rendimento. E paralelamente deu continuidade às aulas de japonês.

Foi assim que no mês de dezembro, Melissa fez a prova Noryoku Shiken, ou seja, a prova de proficiência da língua japonesa. Uma prova com vários níveis de dificuldade, desde o N5, N4…até chegar ao N1, que é o mais difícil.

Para se ter uma ideia do grau de dificuldade, as grandes empresas japonesas no Brasil, quando contratam os seus tradutores, exigem pelo menos o N2 de proficiência para o exercício do cargo.

Melissa escolheu prestar o N1. E estudou muito para isso, no início ela falava que estava muito difícil, pois são linguagens muito técnicas com os ideogramas de uso mais formal. Totalmente compreensível esse nível de dificuldade, afinal, quem passa pelo N1, poderá ser considerado professor de língua japonesa em qualquer lugar do mundo, pois o certificado é reconhecido mundialmente.

E a minha filha com uma segurança e uma auto confiança inabalável.  Tanto é que eu ficava preocupada, se por acaso ela não conseguisse passar, como reagiria à uma decepção? Conversei, mas ela sempre muito segura, falou que está tudo bem, pois estava estudando para passar.

E essa semana saiu o resultado, e ela passou! Eu estava dentro do trem, quando recebi a notícia,  a primeira reação foi chorar, chorar muito. Eu sei o quão difícil é essa prova, e sei também os critérios rigorosos para o cumprimento do exame.

E não é de hoje que a Melissa vem me ensinando coisas da vida. Esse exame é um exemplo, ela acreditou, buscou meios para chegar lá, correu atrás, se preparou e conseguiu. Orgulho é pouco para descrever o que eu sinto hoje.

Mas na verdade, o que eu quero passar, e isso sim é a real intenção desse artigo, é que vale a pena criar filhos bilingues. Quando a Melissa estava no Japão, frequentava cargas  horárias puxadas de estudos, ia na escola japonesa e depois ia para as aulas de português. Fácil não é. Ela mesmo não queria ir, achava desnecessário saber português. E tem o fator econômico, porque sai caro, é cansativo, é trabalhoso, mas vale muito a pena. O próprio professor Daisuke Onuki, disse que é importante a criança saber a língua materna, pois já foi comprovado que, quando essas crianças crescem acabam perdendo a referência e podem desenvolver vários problemas, como crise de identidade e o pior que pode acontecer é a falta de comunicação dentro de casa.

Aliás a saúde mental de jovens e crianças no Japão tem sido alvo de grandes estudos e eternas discussões. Isso fica ainda mais evidente dentro da comunidade brasileira no Japão.

Os pais têm que pensar no futuro dos filhos, como uma geração melhor do que fomos ou somos, e parar de passar a mão na cabeça pois isso é ser conivente com uma situação que não agrega nada para os filhos.

Eu tinha dó quando a minha filha voltava da escola japonesa e dormia no sofá de cansaço, mas eu a acordava e dizia para ir para a aula de português porque era importante. Se eu tivesse afrrouxado e deixasse ela dormir, não haveria evolução. Às vezes os pais agem com piedade, achando que estão protegendo os filhos, mas nem sempre, pois a vida bate mais forte, e cabe aos pais prepararem os filhos para enfrentarem a vida e os seus percalços.

Agora mesmo, eu agi com dor no coração em deixar meus filhos no Brasil e vir para o Japão, mas isso fortalece mais o nosso vínculo e tornam-os mais fortes. Resiliência é isso.

A base educacional tem que partir dos pais, senão a criança não evolui, se acomoda naquilo que o sistema oferece. E acho que educação é o mínimo que os pais podem fazer pelos filhos. Fui muito criticada em criar meus filhos bilingues, todos que me criticavam falavam que eu poderia estar forçando muito e que futuramente isso poderia me trazer problemas. Sinceramente não vi nenhum tipo de desvantagem até agora.

Preciso dizer que participar de cada etapa evolutiva dos filhos dá uma sensação maravilhosa, é como se cada dificuldade fosse dissipada assim, neste exato momento de vitória.

A conquista da Melissa é mérito dela, mas mexeu com a família toda. Meus pais estão orgulhosos e felizes com o desempenho da neta.

E hoje, mais do que nunca tenho certeza que acertei nas minhas decisões como mãe. Levar a Melissa para o Brasil não foi um retrocesso como muitos acham, serviu como uma mola propulsora, onde se dá aquela recuada mas é só para pegar impulso, porque depois ela sobe, sobe e brilha. Portanto eu digo que não me arrependo de nada, e enfatizo que não quero nada para mim, estou satisfeita com tudo o que tenho, só peço saúde para ver meus filhos voarem alto. Muito alto.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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