ERIKA TAMURA: A fragilidade da vida.

 

Eu estava trabalhando, no meio de uma reunião estressante, quando recebo a notícia pelo meu irmão, de que o time do chapecoense tinha sofrido um acidente aéreo. Todos sabem sobre o que aconteceu, afinal a mídia vem dando ênfase ao fato, eu relutei em escrever qualquer artigo ligado ao assunto que apesar de triste, é maçante, é emocionante, é triste. O que falar sobre um assunto que já foi tão falado? Parece que é um prolongar de tristeza, sem a intenção de se fazer um sensacionalismo de um assunto, que por si só já é dramático.

Mas sinto que preciso escrever o que estou sentindo. E aqueles que não gostam de futebol, só peço que respeitem a nossa dor. Algumas pessoas, talvez amarguradas, dizem não entender o por quê de um alarde tão grande devido a mais um acidente aéreo, envolvendo um time de futebol, trágico, mas fatal. Para essas pessoas eu quero pedir respeito, acima de tudo. Ali não morreram jogadores de futebol, e sim seres humanos. É isso que me deixou reflexiva, triste e abalada.

A minha introspecção hoje, diz respeito a essa linha tênue que separa a vida e a morte. Ela é tão tênue, mas tão fininha que pode acontecer a qualquer hora, inusitadamente.

Eu fiquei pensando, se eu morresse hoje, será que teria cumprido tudo a que me propus? Será que eu estaria satisfeita com o que conquistei? E o meu legado? Vou deixar um legado legal? São tantas indagações que fica claro que ninguém está pronto para morrer, e muito menos perder um ente querido.

Me lembrei da época em que fiquei internada, devido a uma crise asmática, aqui no Japão. Tive uma parada respiratória, entrei em coma,  não me lembro por quanto tempo. Não me lembro de quase nada, parece um sonho, que de repente acordei, desesperada, com falta de ar, com medo não sei do que, mas tinha medo… Talvez seria o medo de morrer. Passei duas semanas na UTI em observação, os médicos queria saber se a parada respiratória deixou sequelas. Nesse tempo todo no hospital, fiquei pensando, refletindo, afinal era só isso que eu tinha para fazer ali, pensar, pensar, pensar. E vi que eu não poderia morrer ali, com filhos pequenos, sem realizar nada do que eu queria fazer. Isso foi a minha mola propulsora para correr atrás do que eu realmente queria, foi aí que tracei uma meta, um objetivo para poder sair da inércia, senti como se fosse mais uma chance para ir em busca do meu foco. Era como se Deus falasse pra mim: “Erika, vou te dar mais uma chance, e vê se não desperdiça, porque pode ser que não tenha mais próxima vez.”

Decidi viver todos os dias, dia após dia, cada um como se fosse o último da minha vida. Por isso tenho pressa em resolver as coisas, sou impaciente e tenho um ritmo acelerado. Isso se chama sede de viver, porque eu já estive ali, naquela linha que falei no começo, estava naquela, atravesso ou não atravesso?

E quando as notícias trágicas chegam, ainda mais notícias como essas, onde a repercussão é mundial, mexe comigo. Tenho crises de choro, porque sinto necessidade de viver intensamente e confesso que sou apegada as pessoas que eu amo e me fazem bem.

Já falei em textos anteriores, mas vou repetir, porque é necessário que todos saibam: a minha vida tem um marco inicial, e não é o dia que nasci e nem o dia que voltei do coma no hospital, e sim depois que fui ajudar em Tohoku, depois do tsunami. A minha vida se divide em antes do tsunami e depois do tsunami.

O dia que nasci, foi o dia que vim ao mundo, quando acordei do coma, eu escolhi continuar a viver tendo alguns objetivos como meta, mas depois que fui para Tohoku eu tive a certeza que estou nesse mundo para aprender… A lição de vida que tive com o povo japonês, nas áreas atingidas pelo tsunami, é uma lição tão importante que eu acredito que mesmo vivendo 100 anos em outro país, eu não aprenderia o que aprendi no Japão. Foi ali que decidi que, enquanto eu tiver saúde e forças, vou ajudar quem quiser ajuda.

Vejo na internet tantas pessoas destilando veneno, proliferando e alimentando um ódio visceral. Por que isso? Por que não usar as forças e energia para fazer algo de bom? É a história do legado, o que eu quero deixar pro mundo. Tem pessoas que gastam o tempo para me criticar em qualquer coisa que faço, mas e essa pessoa, o que tem feito para o seu legado?

É incrível como o tema “morte” mexe com as pessoas, e até comigo, afinal todos irão morrer um dia, mas ninguém se prepara para isso. A morte trágica causada por acidente aéreo é uma das mais cruéis, pois em um avião não se transporta apenas vidas, transporta-se também sonhos, esperanças, ansiedades, objetivos, profissionalismo, resiliências… e quando isso termina assim de uma hora para outra, em números quantitativos e tragicamente, é cruel demais, como já disse. Não consigo achar outra palavra para definir o sentimento de quem fica.

Não queria escrever o óbvio, mas as vezes o óbvio é somente o que realmente interessa, então vamos para os pensamentos clichês: aquela história de que temos que amar hoje, ser felizes hoje, fazer tudo hoje e não deixar nada para amanhã, essas coisas que todos estão cansados de ouvir, então… é tudo verdade! Essa é a minha filosofia de vida atualmente.

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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