ERIKA TAMURA: A importância da qualificação do trabalhador brasileiro no Japão

 

No artigo dessa semana vou ressaltar um assunto que venho falando insistentemente, e que infelizmente, a comunidade brasileira que vive no Japão não tem muita consciência disso e nem dá a devida importância, que é a qualificação da mão de obra.

Vivemos num mundo globalizado, onde a migração de trabalhadores têm sido uma constante no cenário econômico de muitos países, e com tanta oferta de mão de obra, sobressai-se quem está melhor preparado.

Sempre achei que eu estava sendo exaustiva quando tocava nesse assunto, pois em quase todos os meus artigos relacionado à economia, política e educação, sempre acabo caindo no tema: profissionalização. Mas essa semana percebi, que minha linha de pensamento não está tão errada assim, e até mesmo a liderança da comunidade brasileira no Japão, começou a ver isso, e mais do que isso, começou-se a discutir sobre o assunto. Digo isso porque participei da reunião do Conselho de Cidadãos de Tóquio, e no tema trabalho, o ponto mais discutido foi sobre a importância da qualificação da mão de obra e a busca para que isso se torne realidade.

De todas as discussões sobre todos os parâmetros, o que todos concordam é que somente os estudos e sua certificação é que poderá dar ao trabalhador brasileiro uma certa estabilidade empregatícia e com isso uma maior qualidade de vida.

Posso citar como exemplo a minha própria trajetória, que cheguei no Japão para trabalhar em fábrica, e trabalhei, mas logo de início decidi que não queria essa vida para mim, mas o problema maior, eu não sabia nada do idioma japonês, então fui estudar, por conta, mas estudei. Passei várias madrugadas acordada, depois que colocava meu filho para dormir, eu ia lá nos meus livros que ganhei do meu pai e me dedicava ao aprendizado do idioma, e usava tudo ao meu favor, o contato com os japoneses dentro da fábrica, os programas de televisão, até mesmo observando cada palavra pronunciada quando eu saía para fazer compras, e assim fui aprendendo o básico. Percebi que precisaria tirar a carta de habilitação japonesa para ter mais liberdade, pois de nada adiantaria saber o idioma se não pudesse me locomover por conta própria.

Busquei todas as etapas, e finalmente consegui entrar no centro de pesquisa, depois de passar por vários testes, escrito e falado, do idioma e a utilização de informática. Dentro do centro de pesquisa me qualifiquei, estudei e consegui o cargo de pesquisadora. Não foi nada fácil, mas me qualifiquei. E percebi a importância da qualificação durante a crise econômica no Japão em 2008, enquanto a maioria dos brasileiros estavam sendo demitidos, eu estava sendo promovida, e mais, recebendo um aumento salarial.

Alguém ainda tem dúvidas sobre o quão é importante a qualificação?

Exatamente por esse motivo, abracei a causa de um novo projeto, que juntamente com alguns amigos, estamos viabilizando a implementação de um novo conceito de profissionalização especificamente para a comunidade brasileira. Volto a falar sobre o curso em outro artigo, quando tudo já estiver caminhando.

Por ora, acho importante termos projetos com o incentivo e a conscientização em massa. A iniciativa do Conselho de Cidadãos em priorizar o assunto é muito válida, assim como a mobilização de líderes comunitários para que todos tenham acesso a algum tipo de certificação profissional, não importa onde trabalhem, pode ser em fábricas, frigoríficos, mecânicos, soldadores, caminhoneiros… O que importa é que todos estejam qualificados, para que se jaça uma concorrência justa pela melhor mão de obra, e que a entrada de mão de obra de outros países não seja visto como uma ameaça para o trabalhador brasileiro no Japão.

Não podemos depender exclusivamente de leis trabalhistas protecionistas, pois na hora da crise, tudo isso cai por terra e o que prevalece é a capacidade e o histórico de cada um, e o trabalhador qualificado sempre levará vantagem sobre os outros.

 

 

 

Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

Redação

Redação

nippak@nippak.com.br
Redação

Últimos posts por Redação (exibir todos)

Related Post

LINS-SP: Homenagem à Comunidade Japonesa em Lins   Celebrando o Dia da Árvore, a SABESP fez plantar quatro mudas de sakurá na Praça Urbano Junqueira de Andrade. A solenidade ocorreu no dia 26...
CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O Silêncio inqu... Existe a sensação de dúvida em se tratando de uma temática que gira em torno da fé católica em terras do Oriente. Que motivos teriam levado o jesuíta ...
AKIRA SAITO: CITANDO EXEMPLOS “A melhor forma de ensinar é através de seus próprios exemplos”   Se analisarmos hoje a situação do mundo de forma geral, veremos que em muit...
CANTO DO BACURI – Francisco Handa: Negócios ...   Chegaram àquela cidade, após inúmeras passagens pelo interior de São Paulo, primeiramente numa fazenda de café, que no primeiro ano entr...

2 Comments

  1. Erika,muito bom seu texto. Esoero poder contribuir de alguma forma e também me qualificar. bjo

  2. O texto é muito lindo mas, infelizmente a realidade é outra! Eu tenho uma empresa que ensina a criar aplicativos para iPhone entre outros. Depois de anos brigando para ensinar as pessoas de graça e/ou pago. Vejo que quem quer crescer são a minoria! Tenho um projeto em conjunto com o consulado do Brasil em Tokyo que ensina de graça curso para criar sites para vendas online! E tem mês que não tem nenhuma inscrição! Tanto no meu curso como em outros! A idéia é linda e se precisar eu e minha empresa estamos prontos para lhe ajudar mas, a realidade é triste até para quem quer estender a mão.

Faça seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *