ERIKA TAMURA: A inflexibilidade do povo japonês

Várias vezes pensei em escrever sobre esse tema, mas sempre acabava protelando. Agora acho que chegou a hora de discutir o assunto.

O Japão é um país incontestavelmente funcional e  prático, eu diria que eficiente. Mas falta flexibilidade, jogo de cintura, falta uma atitude mais arrojada para ser um país globalizado. As vezes penso que, o Japão não quer ser globalizado, afinal é uma ilha e carrega todas as características de isolamento. Mas o mundo hoje é mais que isso, exige-se um aprimoramento nas relações humanas e isso significa flexibilidade em tudo.

Quem já morou no Japão, entende o que eu falo, pois tudo funciona excelentemente bem, até surgir um imprevisto. A maioria dos japoneses não possuem o poder de decisão como uma das suas principais características, e isso fica bem claro quando há alguma catástrofe, todos agem de maneira coletiva, o que é bom nesses casos. Eu disse nesses casos apenas, pois no mundo dos negócios, não é bem assim.

Eu não sou a maior especialista em negócios, mas sou observadora. Quando eu vejo empresas automobilísticas coreanas dominando o mercado no Brasil, eu me pergunto: “Cadê as montadoras japonesas?”.  Percorro os aeroportos, e o comércio em geral no Brasil, e vejo que em todo lugar há aparelhos televisores de marca coreana, chinesa, e onde estão as empresas japonesas? Não são elas que possuem a maior tecnologia do mundo?

Pois é, a realidade é que os coreanos e chineses são mais agressivos e ousados no mundo business, coisa que o japonês ainda vai levar anos para desenvolver.

Para entender o que eu falo, não precisa ir muito além nos exemplos, basta entrar em um restaurante no Japão, o atendente irá perguntar: “Quantas pessoas? Fumante ou não fumante?”, sempre nessa ordem, se alguém chegar e precipitadamente se antever as respostas e fizer na ordem invertida, o funcionário já não saberá mais responder e irá ficar todo atrapalhado.

Isso mostra bem o treinamento no ambiente de trabalho, todos designam somente o que lhe fora proposto, e sempre aquilo, como um soldadinho. Não pergunte, não conteste, não tente ser ousado e muito menos tenha ideias brilhantes, os superiores não aceitarão.

Quando trabalhei em fábrica, eu falei para o meu chefe que eu sabia de um jeito para desenvolver trabalho de forma mais rápida e mais eficiente, ele ficou muito zangado e me respondeu que eu estava sendo paga para trabalhar na linha de produção e não para pensar, pois para pensar, eles pagavam engenheiros. Então tá né…

Na ONG onde eu trabalho também enfrento dificuldades com a diretoria japonesa, as decisões são muito burocráticas, e eles acham que precisam fazer uma pré reunião da reunião, seguida de uma pós reunião, para dar andamento no que foi decidido, sem antes discutirem muito cada assunto minuciosamente por e-mail. Chega a ser cansativo, para não dizer desanimador.

Assim, perdemos vários projetos, várias oportunidades, devido aos pensamentos letárgicos dentro da diretoria. Imagino que dentro das empresas japonesas seja um pouco pior.

Aliás tenho contato com empresários e executivos que vêm ao Japão para tentar fechar negócio, e voltam para o Brasil com a cabeça confusa e o sentimento de perda de tempo. Pois nenhuma decisão é tomada de imediato, tudo é pensado, repensado, passado por toda a hierarquia japonesa e tudo o mais.

Me admira muito uma cervejaria japonesa que foi ao Brasil e não deu certo, afinal são tão cuidadosos com todos os trâmites e mesmo assim não perceberam o óbvio que todo brasileiro já sabia…

No dia a dia, todos os dias, me deparo com essa inflexibilidade habitual do japonês, e sempre escuto a palavra que mais abomino no meu dicionário, que é o “dekinai”, que significa “não dá para fazer”, odeio essa palavra. Como não dá se nem tentou? E se eu pagar, dá? E se eu der uma ideia, dá? São esses pequenos detalhes que me entristece e me faz pensar, o quanto tempo o Japão está perdendo com esse tipo de visão, ou a falta de visão.

Eu amo o Japão, e nunca ousaria falar mal desse país, mas preciso relatar o que eu vejo. Acho totalmente inadmissível o Japão perder mercado para a Coréia e a China, sendo que possui uma melhor estrutura e tecnologia. Devido a esse pensamento japonês, que acho arcaico e machista, o Japão está ficando para trás. Hoje, Seul é considerado o novo Vale do Silício, despontando com os seus centros de pesquisa, avanços tecnológicos e mão de obra competente. O Japão tem tudo isso, mas por que não avança? A estagnação é uma realidade no Japão, e isso é triste. Eu como uma nipo brasileira, torço para que o Japão dê uma alavancada na sua economia, pois sei do seu potencial.

O Brasil, se fosse mais organizado, seria o parceiro ideal do Japão. E se existe mundo perfeito, esse mundo seria a união do Japão com o Brasil, pois tudo é complementar, o que tem de mais em um lugar falta em outro.

Japão, Brasil, cada um com seus problemas, países distantes, mas se soubessem o quanto esses dois países podem ganhar um com o outro, unindo forças e potenciais, aí sim não teria nenhum outro no mundo capaz de bater de frente. Seria uma potência econômica, esse é o meu mundo utópico, posso sonhar assim, por que não?

Uma dose de utopia é necessário para que, quem sabe, um dia o mundo perceba que realmente a união faz a força. Enquanto isso vou vivendo aqui no Japão, onde a inflexibilidade japonesa reina absoluta.

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 20 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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