ERIKA TAMURA: A QUEDA DAS MINISTRAS NO JAPÃO

Essa semana, no Japão, duas ministras pediram afastamento do cargo por serem suspeitas de corrupção e algumas outras ilicitudes a mais.

A ministra da indústria, Yuko Obuchi e a ministra da justiça, Midori Matsushima, foram nomeadas para o cargo no início de setembro, dando ênfase a política de promoção das mulheres ao cargo de ministras do primeiro ministro japonês Shinzo Abe. Obuchi e Matsushima, tomaram posse junto a outras três mulheres, na primeira reforma ministerial do governo Abe, e parece que este foi o mais duro golpe levado por Abe nessa gestão.

Na minha opinião, eu imagino como o Premiê japonês esteja se sentindo decepcionado com a situação, pois uma das características de Abe é tentar introduzir o papel feminino em cargos de altos escalões. Tanto é que quando Shinzo Abe visitou o Brasil no mês de agosto, ficou impressionado com o poder feminino no mercado de trabalho brasileiro, e em setembro, logo que retornou ao Japão, nomeou 5 ministras para cargos importantíssimos, contrariando os mais conservadores (e machistas) do governo japonês.

E agora, essa bomba cai no Congresso japonês, Midori é suspeita de ter violado a lei eleitoral com a distribuição de leques com a sua foto e nome aos eleitores de sua circunscrição e Yuko é acusada de irregularidades no uso de recursos públicos, onde segundo a imprensa, os seus simpatizantes receberam presentes que custaram um total de 26 milhões de yenes (576 mil reais), o que pode ser caracterizado uma tentativa de compra de votos.

Entendo perfeitamente o discurso de decepção do ministro Abe, pois ele tinha a intenção de transformar Yuko Obuchi como símbolo de sua política para atrair mulheres no mercado de trabalho, não é a toa que ele deu para Obuchi o cargo de ministra das indústrias.

Já deu para perceber que no Japão, existe a corrupção si, mas quando vem a tona, as consequências são implacáveis e detonadoras. Pois é o fim da vida política dessas duas ex-ministras, e o povo passa a discriminar e repudiar toda a família das envolvidas, gerando nelas um sentimento de vergonha e arrependimento. Nada ficará impune.

E para os japoneses tão pouco importa o valor da quantia envolvida na corrupção, pois o que conta mesmo é o ato em si. O fato de se corromper nos valores que os japoneses tanto pregam, como a honra e o caráter ético, fazem com que os acusados respondam por seus atos independente da quantia.

Uma frase que sempre ouvi, desde que cheguei no Japão: Não importa se o ladrão roubou 1 yen ou 1 milhão de yenes, a pena será a mesma, pois o que se está em cheque é o ato de roubar.

É impossível ler uma matéria dessa e não traçar um comparativo com a realidade política brasileira. Sou muito criticada por fazer tal comparação, mas isso é inevitável, nem vamos citar a questão cultural, mas sim a questão da ética. Não é possível que o que é errado para o Japão, seja certo para o Brasil…

Mas parece ser assim.

A ministra violou a lei eleitoral, distribuindo leques? E por causa disso disse adeus ao seu cargo de ministra. No Brasil tem candidato político sendo eleito, mesmo respondendo a inúmeros processos que envolvem muito mais que leques.

São mundos diferentes sim, mas poderia servir de exemplo para o Brasil. No Brasil, as pessoas se surpreendem com uma notícia dessas, o que não deveriam, pois o normal é o que o Japão faz para combater o que está errado e assim evitar a criação de raízes para não haver uma proliferação do mal. O que acontece no Brasil, e que não deveria acontecer de jeito nenhum, é a perda do poder de indignação, quando deixamos de nos indignar com certos abusos, perdemos também a chance de mudar isso. Parece que o povo brasileiro vive anestesiado, porque já sofreu tanto, já passou por tantas dores e não mais se indignam com nada. O que é errado.

Não é o Japão que é diferente por agir assim, nem o seu povo que é mais rigoroso. O Japão age, como o Brasil deveria agir nos casos de corrupção, mas parece que há uma inversão de valores tão latentes que ser corrupto é ser esperto. Não concordo com esse pensamento e nunca irei concordar, podem me chamar de puxa saco de japonês, mas não dá para ser conivente com esse tipo de atitude.

 

 

 

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Erika-Tamura

Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

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