ERIKA TAMURA: Atitudes surpreendentes

Esse ano faz 19 anos que vivo no Japão. Um país que eu amo, que me acolheu e me deu tudo que tenho hoje (e não estou falando de bens materiais). Os meus pensamentos, pontos de vista, cultura, experiência, bagagem de vida, tudo isso aprendi vivendo aqui no Japão.

Um dos maiores atrativos em se viver no Japão, diz respeito a segurança. Sei que se eu esquecer algo em algum lugar, posso voltar lá que vou encontrar.

Uma vez, um amigo humorista, o Gus Fernandes, em uma de suas passagens pelo Japão fez até uma piada, falando que esqueceu o celular no restaurante e, quando voltou para buscar, ele já estava até atualizado. E é assim que vivemos por aqui, e confesso que sempre surge um assunto comparativo relacionado a tudo isso. Afinal é automático acabarmos soltando uma frase: Se fosse no Brasil…

Mas semana passada, minha família no Brasil vivenciou um fato que me surpreendeu. Meus filhos vivem no Brasil atualmente, e a minha filha é fã de K Pop, ou seja, música coreana. Pois bem, meus dois filhos viajaram de Araçatuba para São Paulo, para irem assistir a um show de uma banda coreana que estava em turnê pelo Brasil, e eu estava apreensiva com a viagem, pois os meus filhos foram criados no Japão e são acostumados com a segurança nipônica. Passei todas as instruções da viagem “N” vezes, e eis que acordo com uma mensagem da minha filha falando que perdeu o celular no ônibus, enlouqueci, juro… O que me aliviou e acalmou é que não aconteceu nada além disso, apenas o fato de que ela iria ficar sem telefone.

A primeira coisa que todos aqui no Japão falaram foi: “esquece”, “alguém pegou”, “nunca mais vai ver”… Esses são os primeiros (e talvez os únicos) pensamentos sobre esse fato.

Passou-se um dia, quando minha mãe me manda mensagem falando que o motorista do ônibus achou o celular, ligou para minha mãe, e ela foi na rodoviária buscar. Eu que estava meio dormindo, não tinha entendido direito essa mensagem, quando me dei conta do que estava acontecendo, parei para pensar e fiquei muito constrangida por ter pensado negativamente sobre a imagem do Brasil. Me emocionei…

Não é porque os noticiários enfatizam as notícias ruins, é que devemos levar para um contexto geral. Não! O brasileiro é o melhor do Brasil, e ainda que haja um parâmetro com a realidade política atual, não pode haver uma generalização.

Minha mãe só sabe o primeiro nome do motorista que achou o celular, Sr. Manoel, da empresa Reunidas. Uma pessoa que eu não conheci, mas que quando eu for ao Brasil, farei questão de conhecer. Posso dizer convictamente que, minha opinião a respeito do Brasil mudou, e tem mudado a cada dia. Isso é maravilhoso!

Eu que achava que as escolas públicas brasileiras estavam falidas, tenho a minha filha estudando em uma! Também mudei meu ponto de vista a respeito disso, pois ela estuda numa escola exemplar, estadual, integral, estadual, com excelentes professores, estadual, disciplinas didáticas ótimas e pasmem é estadual! Bem assim, com necessidade de se enfatizar a palavra “estadual”, ensino público, meus leitores!

Outro ponto de vista em que não cabe mais a generalização para mim, é no que diz respeito a saúde pública no Brasil, não sei em grandes capitais, mas em Araçatuba o SUS é muito bom. Tem suas limitações é claro, mas é muito bom! Não existe no mundo um sistema como o SUS, ele é mal administrado, mas teoricamente é excelente. E em Araçatuba me surpreendeu!

E agora, quando eu achava que no Brasil, ninguém, jamais, sob hipótese nenhuma, devolveria um celular perdido por aí, eis que me deparo com essa história, onde o protagonista é, sem dúvida, o sr. Manuel. É incrível como a nossa vida dá voltas, e os fatos acontecem para nos ensinar algo. Nesse caso, aprendi que não devo generalizar, e que um ato me fez repensar nos valores e princípios que carregamos ao longo da vida. Não estamos nesse mundo para acumular bens materiais, estamos para por em prática aquilo que acreditamos e que carregamos como princípios. Aquela história de ter e sentir tudo o que o dinheiro não compra.

Dinheiro não compra caráter, não compra dignidade, não compra honestidade, não compra atitudes de quem é correto consigo mesmo. E é isso que tento passar para os meus filhos, sempre escrevo aqui na importância em deixar um legado, é isso! Quero deixar um legado que não se corrompe por dinheiro, nem por leviandade e ilicitudes.

A empresa Reunidas está de parabéns em ter no seu quadro de funcionários, pessoas como o sr. Manuel, que com um simples gesto deu uma lição de vida.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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