ERIKA TAMURA: Brasilidades no Japão

No dicionário a definição para a palavra brasilidade é: característica ou particularidade do que ou de quem é brasileiro; natureza do que ou daquilo que é brasileiro. Pois é isso que sinto todas as vezes que visito a Embaixada do Brasil em Tóquio, e converso com o Embaixador André Corrêa do Lago, sinto um banho de brasilidade.

Para mim, assim como, para muitos brasileiros que vivem muito tempo no Japão, as principais características brasileiras passam por nós sob um olhar estereotipado e estigmatizado, pois temos a terrível tendência de acharmos que a grama do vizinho sempre é mais verdade que a nossa. E nas inúmeras conversas com o Embaixador, percebo o quanto estou sendo precipitada em observar tudo apenas por um ponto de vista, sendo que posso apurar a minha opinião, mudando apenas o ponto de percepção condizente ao assunto.

Um exemplo que cito sempre é as olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016, enquanto o mundo todo torcia o nariz (inclusive eu), para a realização dos jogos olímpicos no Brasil, com vários motivos para explicar a atmosférica negativa que envolvia toda a realização do evento, o Embaixador André era só flores em seus discursos, ele sempre falou que o Brasil iria surpreender positivamente na realização das olimpíadas. E não é que ele tinha razão? Confesso que tive que tirar o chapéu e me redimir em ter pensado que algo de muito ruim iria acontecer, e consequentemente a vergonha iria tomar conta de mim. Mas felizmente aconteceu o contrário, e exatamente como disse o Embaixador! Os comentaristas japoneses ficaram impressionados com a mensagem subliminar que o Rio de Janeiro passou para o mundo, pois foi a festa olímpica com o menor orçamento das últimas olimpíadas, o Japão entendeu que a pira olímpica, por ser pequena, tinha uma mensagem ecológica. E o mundo entendeu que o povo brasileiro é o mais caloroso.

André, como gosta de ser chamado, desempenha muito bem o seu papel de embaixador do Brasil, e nunca senti o país tão bem representado como agora. Parece que ele nasceu para exercer esse cargo, ele vai além do cargo de embaixador, e faz muito mais do que lhe convém. Vejo o André preocupado com os problemas da comunidade brasileira, engajado nos princípios que ele acredita e dedicado em carregar a bandeira do Brasil a frente do governo japonês, defendendo os interesses do seu povo e lutando para um bem estar comum.

Uma vez participei de um seminário promovido por um banco japonês, onde o público presente eram empresários com interesse de investimentos no Brasil, nas mais variadas áreas. O cenário político e económico do Brasil era totalmente desfavorável para qualquer tipo de investimento, e eu ali no meio do público, esperando o discurso do embaixador, ficava pensando como o embaixador iria apresentar o Brasil para possíveis investidores, sendo que eu não via uma luz no fim do túnel, pois eu no lugar dos japoneses não investiria no Brasil naquele momento. Foi quando o embaixador André, como num passe de mágica, tirou o coelho da cartola, e ressaltou que o momento político atualmente no Brasil não é nem um pouco favorável, mas o potencial humano dos brasileiros superam qualquer tendência política negativa, afinal o Brasil é um país tão rico, que mesmo com tantos problemas administrativos, ainda é possível acreditar em um futuro próspero no Brasil, pois o que o país tem para oferecer é superior a tudo.

Surpreendente! Essa é a palavra que define o ponto de vista do embaixador, e como eu não pensei nisso antes? Claro, se o país deixa a desejar em ponto, existe outros “N” fatores que se sobrepõem a isso.

Em outra oportunidade, onde eu me redimi as brasilidades do embaixador, foi quando, no meio de uma conversa, André disse: “Chame qualquer presidente europeu para presidir o Brasil por um ano, e vejam o que eles conseguem fazer”. Continuando o pensamento do embaixador, ele explicou que desde o fim da segunda guerra mundial, o Brasil cresceu explosivamente, mais que o dobro, aproximadamente, sendo que se pegarmos um país europeu como a Finlândia que cresceu apenas 10%, fica fácil dar uma maior qualidade de vida para a população. Dentro desse contexto, se o chefe de estado da Finlândia não garantir o acesso escolar a 100% da sua população, seria um exemplo de incompetência. Agora no Brasil, falta escola, hospital, creche, etc? Falta! Mas também com um crescimento populacional desordenado, o governo brasileiro faz mais do que o governo europeu. Não estamos falando em demanda, e sim um comparativo bem ilustrado para que os brasileiros aprendam a dar mais valor ao próprio país.

Eu precisei sair do Brasil, atravessar o mundo, morar no Japão, para entender que o Brasil é um excelente país, apesar de tudo!

Não conheço nenhum japonês que foi ao Brasil e não gostou. Todos falam que o Brasil superou a expectativa, e fico feliz em ouvir isso.

Só quero deixar registrado aqui a minha opinião, eu parei de falar mal do Brasil, é um país com problemas administrativos sim, mas que tem pontos tão positivos que superam os problemas, hoje dou muito valor ao Brasil, e mesmo de longe, aqui do outro lado do mundo, mantenho viva as brasilidades dentro de mim.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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