ERIKA TAMURA: Bullying ou Iijime

 

O assunto dessa semana é delicado, e preza pela gravidade e o tabu que envolve o tema: bullying ou como se diz aqui no Japão, iijime.

Quando digo que é grave, é porque o iijime é uma prática “comum” nas escolas japonesas. E as consequências envolvem distúrbios psicológicos às vítimas podendo levar até ao suicídio.

Recentemente vi na internet um vídeo onde a vítima, uma menina, apanhava e era agredida por outras meninas e a vítima estava totalmente sem reação. Para mim que sou mãe e tenho uma filha que estuda em escola japonesa, ver esse vídeo foi motivo para pânico e desconfiança da educação japonesa. Conversei com a minha filha e ela, apesar da pouca idade me pareceu muito madura em relação ao que diz respeito ao iijime.

Na escola da minha filha existe todo um trabalho para exterminar de vez as práticas do bullying, todos os meses os pais respondem um questionário sobre o comportamento das crianças ou uma eventual mudança de comportamento. Os professores também foram orientados a acompanhar de perto todos os passos dos alunos, até mesmo algum tipo de alteração no desempenho escolar e no rendimento do aluno, incluindo atividades físicas. Acredito que com isso houve uma aproximação maior entre pais e filhos, alunos e professores, pais e professores, todos unidos por uma causa importante.

Mas essas providências só foram tomadas em consequência de alguns fatos ocorridos em escolas japonesas com vítimas fatais. E geralmente, nesses casos a família nem percebeu o que estava acontecendo, devido a um certo distanciamento comum entre as famílias japonesas. Digo isso porque percebo que os pais japoneses não mantém um diálogo com seus filhos, gerando com isso o surgimento de sentimentos negativos e a brecha para pensamentos violentos para com os outros, como uma revolta para chamar a atenção.

Me pergunto, como é a família desses jovens que praticam o bullying, que tipo de valores e princípios são passados, que tipo de amor esses jovens têm recebido? Afinal, nós, brasileiros somos muito mais sentimentais, mais calorosos e tenho a certeza de que criamos nossos filhos com tanto amor e cercamos as crianças com carinho e dedicação, que uma situação de iijime, torna-se inaceitável.

O diálogo é o segredo da solução para tudo isso. Na minha opinião, o grande passo para que haja uma erradicação do iijime nas escolas baseia-se em diálogo e atenção.

O Japão é um dos países com maior índice de suicídio no mundo, e uma parcela contabiliza-se os estudantes, jovens vítimas de bullying. No mínimo preocupante, pois quem pratica o bullying não tem a noção do mal que está praticando, pois quando os pais das vítimas descobrem, isso abala toda a estrutura de uma família, as sequelas prolongam-se a todos que amam e querem o bem da vítima. É no mínimo inadmissível um praticante de bullying dentro da sociedade, convivendo de forma camuflada em frustrações pessoais que dizem respeito subjetivamente a ele, sendo descontados em outros jovens por motivos banais. Admiro o Japão, mas nas relações humanas o Japão ainda tem muito o que aprender, valores sentimentais são praticamente banidos da sociedade japonesa, que acha que a demonstração de sentimentos é sinal de fraqueza. Isso tem mudado de uns tempos para cá, mas não extinguiu o problema do iijime.

Me coloco no lugar da mãe da vítima e confesso que a minha primeira reação seria reagir violentamente, tornando isso um círculo violento, mas no papel de mãe, não sei se agiria de outra forma.

Um assunto polêmico, onde todos têm uma opinião formada, uma história própria ou alheia para contar, mas poucos sabem realmente como resolver o problema, ou a melhor forma de solucionar.

As leis japonesas, até agora superficiais demais nesse quesito, já passam por uma propensão à mudar e até mesmo passar por uma atualização em sua rigorosidade para que haja uma perspectiva de um futuro menos violento. Acredito no diálogo e no estreitamento dos laços familiares, como uma maior estruturação dos jovens, pois acho que quando a lei entra para tentar conter uma situação, é porque a conscientização para o problema está mais difícil do que se imagina, pois se fosse moralmente passado valores que abominam tal prática, a necessidade de uma lei seria praticamente nula.

 

 

 

*Erika Tamura nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

 

 

 

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One Comment

  1. Querida Erika Tamura san, não sabia que tinha filhinha estudando no Japão. Consciente de existir iijime nas escolas, imagino sua preocupação. Mas, com certeza, sua filhinha não terá problemas porque deve ter as qualidades maternas de sociabilidade e simpatia. Abraço carinhoso, desejando tudo de bom para todo o meio estudantil!!

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