ERIKA TAMURA: Caio Lucas e o racismo no Japão

O jogador de futebol do Kashima Antlers no Japão, Caio Lucas, foi xingado por um torcedor do Urawa Reds após a vitória do Kashima sobre o Urawa.

O caso foi caracterizado pela mídia como mais um caso de racismo envolvendo a torcia do Urawa, visto que não é a primeira vez que isso acontece.

 

O jogador de futebol do Kashima Antlers no Japão, Caio Lucas

O jogador de futebol do Kashima Antlers no Japão, Caio Lucas

 

Após a vitória do Kashima, um torcedor do Urawa, postou uma mensagem preconceituosa e em tom ameaçador para o brasileiro Caio. O perfil @urawatsubasa escreveu: “Morra homem preto”.

É uma situação triste em qualquer circunstância, mas no caso de Caio, é triste pois o próprio jogador se disse abalado, pois jamais imaginou que isso aconteceria com ele, pois sempre achou o povo japonês muito cordial e considera o Japão como a sua segunda casa.

A minha opinião? Lamentável, triste e ao mesmo tempo revoltada. Sou totalmente contra qualquer tipo de preconceito ou pré conceito de pessoas que não sabem o que falam. Sempre tive um certo medo de ser discriminada no Japão, pois apesar da cara oriental, sou brasileira. E tenho orgulho de ser brasileira!

Uma vez, quando a minha filha começou a frequentar a escola japonesa (famosa pelos casos de bullying), um menininho foi tirar o sarro dela, ofendendo-a pelo simples fato de ser estrangeira. Foi quando mais uma vez, Melissa deu uma lição de vida, ela virou para o garoto e disse que ela era estrangeira sim, e tinha orgulho de ser brasileira, e não apenas isso, ela tinha a chance de saber falar duas línguas, enquanto que ele só sabia o japonês. Ela conhecia duas culturas, e ele, apenas a cultura japonesa. A grande lição que aprendi com a Melissa foi a de que não podemos baixar a cabeça para as pessoas preconceituosas, e não deixar jamais que ninguém faça com que se sinta diminuída.

O fato de ser estrangeira no Japão não te faz melhor e muito menos menor do que ninguém, te faz diferente. Com características únicas e não há pecado nenhum em ser diferente, isso pode até ser um diferencial. Por que não?

O mundo caminha para uma intolerância caótica, o que é preocupante. A consequência dessa intolerância? Estamos vendo tudo isso agora, com ataques em forma de violência física e verbal em todos os sentidos, independente de país, povo, cultura, grau de instrução, etc.

O que aconteceu com o jogador Caio, pode acontecer com qualquer brasileiro que vive no Japão, apenas pelo fato de ser o melhor naquilo que faz. A perfeição incomoda, e hoje sei que existe um lado bom para tudo isso. Se o Caio é alvo de racismo é porque ele está incomodando alguém, ou seja, está desempenhando o seu papel profissionalmente muito bem.

Meu pai sempre falava que a unanimidade é burra, portanto se ainda existe outros pontos de vista é porque o objetivo está sendo alcançado, e não está sendo feito de uma forma idiota.

Mas que um fato desse entristece, entristece! E muito. Principalmente quando nos sentimos decepcionados com a situação.

Meu filho já sofreu bullying na escola japonesa, e eu sei como dói quando isso acontece. Eu como mãe me perguntava o motivo que leva a outra pessoa agir com tamanho ódio sem ao menos conhecer o verdadeiro caráter da outra pessoa. Caio disse que o seu pai estava muito abalado com essa história, e não é para menos, me coloquei no lugar desse pai, e a história do meu filho foi a primeira coisa que me veio em mente. Eu só perguntava, o por quê de tanta raiva, queria saber quais os valores passados pelos pais do agressor do meu filho. É uma situação que tira o chão e abala realmente.

Imaginem um pai, orgulhoso por ter um filho jogando futebol no Japão, com um talento reconhecido e recebendo muito carinho do povo japonês e de repente uma mensagem como essa, abala mesmo.

Mas não podemos generalizar, e temos que entender que o fervor da situação altera o lado emocional das pessoas fracas. Sei que isso não justifica nenhum tipo de violência, mas a lição que tiro de tudo isso é a frase que o Caio falou: “Tenho orgulho de ser brasileiro, e isso não vai mudar”.

Caio Lucas, eu, meus filhos… Temos algo em comum, além da experiência no Japão, somos araçatubenses, e carregamos o orgulho de sermos brasileiros.

 

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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