ERIKA TAMURA: Cônjuges japoneses

Atualmente, vivendo aqui no Japão, tenho me deparado com um problema que está acontecendo frequentemente entre os brasileiros.

Sempre defendi com unhas e dentes a importância da integração dos brasileiros com a sociedade japonesa, e cada vez mais brasileiros têm casado com cônjuges japoneses. Isso é muito bom! Realmente eu deveria estar satisfeita com essa estatística, não é mesmo? Mas na realidade não estou.
O que acontece é que tenho presenciado muitos casos onde brasileiros e japoneses casam, constituem família, isto é, têm filhos e devido a uma série de problemas acabam se separando, até aí dá para contornar a situação, e ninguém precisa de ajuda para intervir em nada, mas acontece que a maioria dos brasileiros, por comodismo, ou por ingenuidade, acabam não registrando os filhos no Consulado brasileiro. Isso significa que são filhos de brasileiros, eles têm o direito de serem considerados brasileiros, mas não são. E na hora do divórcio, o cônjuge japonês some com os filhos, impedem que a outra parte brasileira veja e muito menos tenha contato.
Pode parecer absurdo, ou coisa irreal, mas tem acontecido muito! A incidência é muito alta, e depois disso ligam nos Consulados, Embaixadas e ONGs para pedirem ajuda, mas sem o registro brasileiro, sem passaporte, enfim, sem nenhum documento brasileiro, fica quase impossível ajudar.
Depois já ouvi muita gente falando que o governo brasileiro não faz nada para reverter a situação, os Consulados e a Embaixada não se moveram em nada. Mas calma lá, até agora, que eu saiba, essas pessoas nem se lembraram do governo brasileiro, não é mesmo? Acharam que pelo simples fato de estarem casados com japoneses, poderia simplesmente deixar a cidadania brasileira de lado.
Um conselho que costumo dar: O Brasil pode estar uma droga, afundando em mares fétidos de roubos em todos os setores e todas as camadas sociais, mas nada impede de que um filho seu seja brasileiro. É um direito adquirido, filhos de brasileiros são brasileiros, crianças nascidas no Brasil são brasileiros, estrangeiros que querem um passaporte brasileiro são considerados brasileiros, isso não existe em nenhum lugar do mundo, não com essa facilidade. Ainda mais aqui no Japão onde tudo é muito rigoroso, e eu diria que frio demais. Por exemplo, no caso da separação dos pais, a criança ficará com quem tiver mais poder aquisitivo, e geralmente é o pai. E se ficar com a mãe, a criança também poderá ser obrigada a mudar de nome, e ter que retirar o sobrenome do pai.
Às vezes aqui no Japão, vejo cada absurdo, e penso que se a justiça existe, aqui no Japão, ela existe, pode até ser cega, mas é completamente desprovida de coração e sentimento. Nós brasileiros viemos de um país que tem uma cultura cristã, onde o aborto é proibido, onde a palavra ajudar tem um sentido fraternal, e não apenas socialmente obrigatório.
Admiro muito o Japão, respeito a cultura japonesa demais, amo morar aqui, mas presencio certas atitudes que me faz sentir uma certa decepção com o mundo nipônico. E isso não é nenhuma crítica, de jeito nenhum, estamos no país deles, as regras são deles e milenarmente isso vem funcionando, a única ressalva que gostaria de fazer é para que, os brasileiros casados com japoneses se atentassem à esses trâmites, que eu sei o quão chato e burocrático isso é, mas que futuramente pode salvaguardar os direitos dos pais em serem presentes na vida dos filhos, mesmo que haja um rompimento de relação.
A verdade é que o Japão, se formos analisar bem, vive momentos de instabilidade constantes, por isso, nunca sabemos o que pode acontecer amanhã. Alguém imaginou passar por um grande terremoto seguido de tsunami? Pois é, e confesso que aquele foi o meu maior momento de insegurança no Japão. Medo de terremoto eu não tinha, mas temia por um acidente nuclear, e nem era por mim, mas pelos meus filhos. A radiação só fará efeito no corpo, depois de 30 anos, então,  não me preocupava comigo, e sim com meus filhos, e se depois eles tiverem filhos com problemas de saúde por uma negligência minha? Não iria me perdoar por isso.
E o Japão vive em momentos iminentes de perigo, chega até ser antagônico, um país que eu me sinto segura e protegida, mas que não sabemos o que pode acontecer. E nem falo isso por causa dos japoneses, mas a Coréia do Norte e a China vivem provocando o Japão com seus ataques  e testes de míssil.
Não quero ficar falando mal de japoneses, mas os brasileiros precisam aprender a se protegerem,para depois não ficarem chorando e achando que o mundo é injusto. E vale a pena lembrar que sempre que o Japão passa por alguma crise ou catástrofe, a primeira coisa que passa pela cabeça dos brasileiros é voltar para o Brasil. Portanto resguardem esse mesmo direito aos seus filhos também.
Um pouco de cuidado não faz mal à ninguém.

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

Últimos posts por ERIKA TAMURA (exibir todos)

    Related Post

    SILVIO SANO: TIRO PELA CULATRA   Depois de junho do ano passado, quando começaram as manifestações por todo o país, com finalizações sempre de modo violento devido ao us...
    BEM ESTAR: RETRIBUIÇÃO Ato de devolver tudo em dobro, aquilo que de forma direta ou indiretamente recebemos. É uma demonstração de gratidão pela ajuda recebida. Sentem...
    SILVIO SANO: NIPONICA: Bonenkai, blitz, alegria e ...   Bom, caro leitor, aproxima-se o final do ano e por todos os lados o clima já é evidente. Os shoppings estão enfeitados e com papais-noéis em q...
    SILVIO SANO > NIPÔNICA: MAIORIDADE PENAL? A votação da madrugada do dia 02 de julho deu 323 votos favoráveis, 155 contrários e 2 abstenções. Como eram necessários ao menos 308 votos a favor pa...

    Faça seu comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *