ERIKA TAMURA: Copa do Mundo

 

 

Relutei em escrever sobre esse assunto que já sofre um desgaste natural, mas diante das atitudes da torcida japonesa no Brasil, não tem como me calar.

Eu já imaginava o quão diferente é  a cultura japonesa da brasileira, não apenas imaginava como vivenciei toda essa diferença.

As notícias sobre o comportamento dos japoneses no estádio, onde se destacava a coleta do lixo, e a limpeza pelos próprios torcedores na arquibancada, soou como algo surpreendente. Mas para quem mora no Japão, ou já morou, sabe que essa é uma atitude normal. Em qualquer lugar que se vá, cada um é responsável pelo seu próprio lixo, questão de civilidade. E isso é ensinado desde que os japoneses nascem.

Nas gincanas escolares, os famosos “undoukai”, cada família leva um saco de lixo, e todos são responsáveis em manter o local limpo, e entregá-lo da mesma forma que o encontrou, limpo!

Comentaram comigo sobre essa atitude dos japoneses, eu expliquei que para os japoneses, é difícil entender o por quê do espanto dos brasileiros em relação a isso, pois para eles é algo tão natural. E ainda fiz uma ressalva: No Japão não existe garis, e as ruas são impecavelmente limpas, como? Conscientização!

Quando o cantor Michel Teló foi ao Japão para fazer show, eu dei essa dica para ele, eu disse que por ele ter um grande poder de influência de massas, poderia trabalhar nessa parte de conscientização do povo, com pequenas atitudes que poderiam fazer a grande diferença! Um exemplo: Show do Michel Teló, o lixo deverá ser jogado no lixo! Mas, como ele não me ouviu, perdeu a chance de ser o grande precursor dessa surpreendente atitude que os japoneses demonstraram durante a Copa.

Essa foi uma das atitudes, a outra tem a ver com o sentimento de gratidão.

Vi uma foto onde dois torcedores japoneses escreveram na bandeira do Japão, uma frase de agradecimento aos brasileiros, por terem ajudado no pós tsunami. Vendo aquilo, não teve como não me emocionar, afinal, eu estive lá nas áreas atingidas pelo tsunami, para levar doação. E sinceramente, esse é um capítulo a parte na minha vida. Ter vivenciado todos os momentos de terremoto-tsunami-medo-recuperação de um país, fez de mim uma outra pessoa!

E voltei de Tohoku, renovada! Hoje mudei a forma de ver o mundo, graças ao meu trabalho voluntário com os desabrigados. Onde um menino de apenas 8 anos me deu uma lição de vida, com algumas palavras. Ofereci a minha comida para esse menino, pois ele disse estar com fome, quando eu perguntei. E eis que a resposta me desabou: “Mas tem pra todo mundo do abrigo? Porque se tiver só pra mim eu não quero, todos que estão aqui estão com a mesma fome que a minha!”. Pois então pensei, um país que tem um menino de 8 anos com essa visão de respeito ao próximo, é um país preparado para qualquer adversidade! E agora eu digo, para que jogar futebol, não é mesmo? Futebol é só um detalhe, mas que está servindo de desculpa, para que o mundo possa aprender cada vez mais com o povo japonês. Assim como eu aprendi e continuo aprendendo.

 

 

 

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Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

 

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