ERIKA TAMURA: Criação dos filhos no exterior

Semana passada li um artigo, onde uma mãe relata toda a sua dificuldade em criar os filhos fora do Brasil. E se tem um assunto onde eu posso falar com propriedade é esse.

Uma das dificuldades na qual a mãe do tal artigo se refere, é sobre o aprendizado da língua portuguesa. Eu também passei por essa dificuldade, meus filhos tinham uma certa resistência em aprender português, se dependesse da vontade deles, eles só falariam japonês.

E é esse aspecto que se vê muito no Japão, dentro da comunidade brasileira temos 3 tipos de jovens: os que falam apenas português, os que falam apenas japonês e os que falam os dois (muito difícil de se encontrar).

Quando eu digo que o melhor é a educação bilingue, eu quero enfatizar que é educação bilingue mesmo, nos dois idiomas fluentemente, de modo que, a criança consiga falar, ler e escrever nos dois idiomas. Conheci muitas mães que se orgulhavam dos filhos “bilingues”, mas na verdade a criança sabia somente o básico do cotidiano, o que para mim não significa fluência.

Quem me acompanha no jornal ou nas páginas sociais sabe que tenho filhos fluentes nos dois idiomas, e que estão indo para o terceiro, e olha, não foi nada fácil, nem para mim e muito menos para eles. Foram dias e dias cansativos, eles querendo faltar na aula de português e eu totalmente inflexível no aprendizado deles. Mãe sempre vai fazer o melhor para o filho, eu tinha a real noção de que essa rigidez nos estudos, seria um ótimo diferencial na vida dos meus filhos, e tenho que confessar, as vezes dava vontade de fraquejar…

Quando eu os via cansados, com sono, me cortava o coração, pois passavam o dia todo na escola japonesa e a noite iam para a escola brasileira, tempos difíceis esses…

Mas conseguiram, minha filha fez o exame de proficiência na língua japonesa e passou, no nível mais alto, o N1. E agora no Brasil, tem se dedicado com afinco ao aperfeiçoamento da língua portuguesa, e para a minha surpresa, tem se saído muito bem.

Lendo uma reportagem sobre a educação dos brasileiros no Japão, me deparei com um assunto que é um dilema, onde referia-se a língua portuguesa como a língua materna para todos. Mas calma, o português é a minha língua materna, é onde eu me sinto totalmente confortável e sei que domino bem, mas para a minha filha, a língua materna é o japonês. Minha filha se sente totalmente confortável quando pensa em japonês, tanto é que, mesmo morando no Brasil, o computador e o celular dela estão em japonês.

Por isso acho esse assunto delicado, envolve vários pontos de vista, onde acho que nenhum está errado, somente temos que entender que são várias formas de se olhar para o mesmo prisma.

Fora o lado linguístico da coisa, ainda deparamos, pelo menos no meu caso, com uma dificuldade que enfrentei, a solidão. As vezes o que eu mais queria era o colo dos meus pais, mas eu precisava ser forte porque tinha que cuidar dos meus filhos. E a vida aqui no Japão, parece que passa muito mais rápido, como um sopro, por isso eu não podia parar para pensar em solidão, mas eu me sentia só. E não somente isso, meus filhos também não sabiam o que era chegar o fim de semana e reunir os primos, correr para a casa dos avós, ter tios por perto e o pior de todos, não sabiam a magia do Natal.

Sem contar os outros perrengues que mãe passa, se já é difícil ser mãe, imagina ser mãe do outro lado do mundo, sem saber o idioma, sem saber a cultura, com filho com febre, sem saber ler a bula do remédio… Meu Deus, quantas coisas que passamos, mas quer saber? Não reclamo não, pois foi muito bom viver tudo isso e olhar pros meus filhos já moços e educados, e falar: Consegui! Mesmo não tendo certeza, acertei nas decisões que tomei.

E é essa experiência que vale a pena, olhar para trás e ver que cada obstáculo te fortaleceu, que cada noite mal dormida não foi em vão.

E hoje, quero compartilhar com todos a minha volta, o quanto é importante valorizar a educação na vida dos filhos, incentivar os estudos não é nenhum transtorno, é um dos poucos benefícios que podemos deixar para os filhos, é saber que deixaremos um legado, independentemente do que acontecer, estrutura educacional eu proporcionei.

E um conselho que dou sempre, criem filhos bilingues, é o mínimo! Pois moram no Japão, é mais do que oportuno que aprendam o japonês, mas como são brasileiros é importantíssimo que saibam o português fluentemente. Não se arrependerão, jamais.

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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