ERIKA TAMURA: Crianças autistas no Japão

Durante o desenvolvimento do meu trabalho em uma ONG, aqui no Japão, me deparei com uma realidade um pouco assustadora: alto número de crianças autistas dentro da comunidade brasileira.
Existem até associações próprias para o assunto, assim como a dedicação de psicólogos e professores para poder entender e sanar essa realidade.

Participei de um seminário sobre educação, com palestrantes da Editora Positivo, vindas do Brasil, especialmente para dar um curso para educadores, ensinando a lidar com o atual momento no Japão.

A palestrante Elka Padilha de Curitiba, adaptou todo o seu conhecimento de forma com que os mesmos fossem passados aos educadores, para que possam ter uma didática apropriada para crianças autistas.

Eu mesma fiquei surpresa com o alto índice, e ao mesmo tempo preocupada. Afinal o meu questionamento é: Essas crianças estão sendo diagnosticadas por quem? E esse diagnóstico está mesmo correto?

Conversei com vários psicólogos, e todos me confirmaram que o diagnóstico de autismo é muito, mas muito difícil. E leva tempo. Sem contar que para se diagnosticar o autismo, é necessário consultar um psicólogo, um psiquiatra e um fonoaudiólogo. Coisa que não acontece por aqui.

Na minha opinião, muitos casos diagnosticados pela escola japonesa como autismo, se trata na verdade de uma não adaptação ao ambiente. Porque pensem bem, se para nós adultos, já é complicado mudar de país, chegar num lugar totalmente diferente ao que estamos acostumados, imaginem para uma criança! E muitas vezes elas vêm ao Japão por uma imposição dos pais, e não pela vontade.

A fase de adaptação é complicada, sofrida, leva tempo. Tem quem consiga se adaptar rápido, tem quem fique acuado com isso, pois é uma realidade que assusta. Agora, vamos nos colocar no lugar de uma criança, que não sabe nada do idioma japonês, muito menos da cultura japonesa. A comida totalmente diferente, os costumes, as disciplinas, as regras, a falta de amigos, a insegurança… Tudo isso pode criar uma criança forte, ou pode criar uma total insegurança dentro de cada um. E depois, quando as crianças voltam para casa, querendo conversar, encontram pais cansados e estressados, devido a carga horária puxada dentro das fábricas, isso quando encontra os pais, pois pode ser que não encontre, porque os pais voltam tarde e saem cedo para trabalhar, e então isso acaba se tornando um martírio na vida de qualquer pessoa.

O diagnóstico precipitado, pode ser um alívio para a escola japonesa, afinal, taxa-se a criança como autista e pronto, essa escola e esse professor não precisará fazer esforço algum para entender e compreender o que está se passando com essa criança. E os pais, acabam por fim, aceitando esse diagnóstico pois recebem uma ajuda monetária do governo. Mas e no futuro?

E existem as crianças que realmente são autistas, e me coloco no lugar das mães, que missão! Ter que trabalhar duro e ainda saber como lidar com um filho autista. É por isso que foi criada uma associação de mães de crianças autistas na província de Aichi. Para que elas se reúnam e juntem informações, dicas e forças para poder lidar da melhor forma possível com a situação.

Vamos deixar bem claro aqui que, ter filho autista não significa uma perda, ou uma deficiência, significa que ele é especial.  E a melhor forma de educa-lo é se adaptar ao tempo da criança. Não significa que uma criança autista não vá aprender a lição, ela vai, mas no tempo dela.

E percebi que com a grande ocorrência de autismo no Japão, os professores brasileiros estão correndo, tentando buscar conhecimento para que haja uma melhor didática e uma melhor maneira de lidar com essas crianças, inclusive trabalhando na inclusão social delas.

Eu não sou especialista na área, nem tenho filhos autistas, mas quero ajudar. E me sinto muito emocionada em ver o esforço de pais e professores brasileiros unidos nessa causa.

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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    2 Comments

    1. Erika, fiquei muito feliz ao ler seu artigo por várias razões. Em primeiro lugar, não posso negar, por saber que você é da minha querida Araçatuba, cidade onde meus pais viveram a maior parte da vida e onde descansaram em 2013. A maior parte da minha família paterna é de Araçatuba. A segunda razão é que além de trabalhar com educação trabalho no meu consultório de psicologia com a abordagem Winnicottiana – e fiquei muito aliviada em perceber que você e alguns pais e educadores do Japão já perceberam que pode haver erros sérios de diagnóstico exatamente para não se ter o trabalho de tratar de forma individualizada o aluno em sala de aula. Pais, educadores e equipe multidisciplinar ( médico, fisio, fono, psicólogo e psiquiatra) precisam trabalhar em conjunto para que a criança possa realmente ampliar seu potencial de desenvolvimento. E em terceiro lugar, o Japão é meu pais do coração. Por uma década passei várias temporadas no Japão realizando um estudo longitudinal com os emigrantes brasileiros no Japão – estudo este financiado por bancos brasileiros e estrangeiros e pude então observar de perto as grandes dificuldades da comunidade brasileira no Japão. Fiquei surpresa ao me deparar com seu artigo. Parabéns pela sensibilidade!

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