ERIKA TAMURA: De onde você é?

Uma das perguntas que mais escuto aqui no Japão é: de onde você é?

Esse onde, pode ter várias respostas, afinal, sou brasileira, de Araçatuba, do estado de São Paulo, mas atualmente moro no Japão, em Kanagawa, só que já morei muitos anos em Ibaraki… Estão vendo como a resposta é longa? E muitas vezes não é objetiva. E olha que eu sempre morei em Araçatuba, somente. Nasci, cresci, fiz faculdade, casei, tudo em Araçatuba, agora imaginem quem nasceu em uma cidade, cresceu em outra, fez faculdade em outra cidade, casou e foi morar em outro lugar e agora está no Japão.

Conheço várias pessoas que são assim, moraram em diversos lugares. E no Japão, já mudaram diversas vezes de cidade em busca do melhor emprego.

Tenho a impressão de que atualmente as pessoas não criam raízes, existem outros vínculos que se tornam prioridades na escolha do melhor lugar para se viver e criar os filhos.

Eu mesma, costumo falar que estou no Japão, mas não sei até quando. Não sei exatamente se crio raízes aqui. Estou curtindo o momento atual, morando no Japão. Toda essa mobilidade, e a facilidade em se transpor fronteiras, fez com que a globalização fosse efetivada no cotidiano das pessoas.

Minhas raízes são brasileiras, com certeza, e por que então não moro no Brasil? Porque atualmente, o Japão me oferece oportunidades no qual tenho interesse. Mas isso é hoje, amanhã pode ser que isso mude, e eu tenha outros interesses, e outras oportunidades poderão surgir, não é mesmo?

Exatamente por esse motivo, optei em criar filhos bilingues. Quis que meus filhos aprendessem fluentemente o japonês e o português. Eles como brasileiros, têm obrigatoriamente que dominar o português, e em contrapartida, como viveram no Japão, têm a obrigação de saberem o idioma japonês. Por isso foquei no aprendizado bilingue. No caso deles, eu fico um pouco em dúvida quando falam sobre a língua materna, eu sei que a língua materna no caso seria o português, mas na cabeça deles não é bem assim que funciona. Para os meus filhos, e acredito que para a maioria dos jovens brasileiros que frequentam escola japonesa, a facilidade maior é se expressar no idioma japonês, e o português não vem automaticamente na mente, é preciso pensar, e esse pensamento vem em japonês e depois é que se passa para o português. E então, a língua materna continua sendo o português?

É um assunto extremamente complicado e que acarreta várias discussões em sua volta. O que eu sei é que as dificuldades foram superadas e hoje, meus filhos falam os dois idiomas e estão indo para o terceiro, no caso, inglês.

Quis criar meus filhos assim, para eles poderem escolher onde querem viver, apesar de qualquer tipo de dificuldade, pelo menos no fator comunicação, eles não terão problemas.

Mas a pergunta: de onde você é? Para os meus filhos, fica com uma resposta mais extensa. O que não é de todo ruim, afinal, eles carregam uma bagagem cultural muito rica para a resposta à essa pergunta.

Estou longe de Araçatuba, e há muito tempo, quase 20 anos. Mas sempre que vou ao Brasil, é lá o meu porto seguro. É em Araçatuba que me sinto bem, gosto da cidade e não escondo de ninguém as minhas raízes interioranas. Tenho histórias para contar, pois eu conheço bem o lugar de onde eu vim. O que me entristece é ver as crianças brasileiras que vivem aqui no Japão, muitas nasceram aqui e não conhecem o Brasil, apesar de serem brasileiras, não têm nenhuma noção do que é o Brasil, e o pouco que sabem, refere-se ao que os pais contam.

Visitei uma escola brasileira aqui no Japão, onde uma menina de uns 5 anos perguntou como é o Brasil. Fiquei com o coração apertado, pois ela, mesmo sendo brasileira, não conhece nada do Brasil, e me entristece mais ainda, ela não conhecer nada do Japão. O que está acontecendo com as nossas crianças no Japão? Fomos montar um improviso de uma peça teatral, onde pedimos para que os alunos pensassem num cenário, e todos falavam somente em shopping! Isso demonstra a realidade aqui no Japão, a falta de parâmetros, e sem um referencial cultural forte, as crianças passam a achar que o seu próprio universo consiste em shopping nas folgas dos pais, e escola durante a semana. É triste, mas é real.

Sei que muitos me criticam pelo que eu falo, mas não estou inventando nada, somente relatando o que eu vi e vivenciei.

Por isso achei importante a educação bilingue dos meus filhos, tiveram acesso à cultura, educação, cidadania, respeito, e hoje possuem um conhecimento muito maior do que qualquer criança da mesma idade deles. Esse é o fator que vai ser o diferencial na vida deles.

Foi difícil? Foi! Mas é compensador ver o desenvolvimento dos filhos, e a cada escalada, o gostinho de vitória é algo estonteante.

Por isso acho importante essa pergunta, de onde você é? Mas o mais importante é a resposta: Depende, você tem tempo? Pois vou te responder de onde eu sou, com cada essência de cada lugar por onde passei.

Sempre que mudamos, incorporamos algo para nós. Não é possível que no meio de tantas mudanças, as pessoas não absorvam nada e não aprendam nada. Sempre tem um algo mais para saber, uma informação adquirida, um conhecimento absorvido… Isso é a essência de cada lugar por onde passamos, e que carregamos como experiência. Até mesmo as coisas ruins, servem como lição.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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