ERIKA TAMURA: Doações para Kumamoto

Depois de duas semanas de folga, retorno aos artigos no jornal.

Foram dias intensos que passei, por isso a necessidade de se tirar um tempo para espairecer.

Como todos sabem, o estado de Kumamoto no Japão, sofreu com o forte terremoto, e até hoje continua com suas réplicas, tremendo o chão por lá.

Pois bem, na ONG onde trabalho, juntamente com outra ONG de Kanagawa, iniciamos uma campanha de arrecadação de donativos, tudo muito rápido e intenso, pois tínhamos somente 3 dias para conseguirmos arrecadar as doações. Lançada a campanha na internet, mais o boca a boca, alguns telefonemas e e-mail, pronto! Conseguimos arrecadar 3 toneladas de donativos!

 

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In-crí-vel! Nem os próprios voluntários acreditavam que conseguiríamos encher um caminhão par ir para Kumamoto, e pasmen… Além de encher um caminhão, ainda tivemos que deixar algumas doações para a próxima leva, pois não cabia mais.

O próprio caminhão que usamos para transportar as doações até Kumamoto, foi gentileza de um empresário brasileiro, que alugou o caminhão por conta própria e deixou à disposição da ONG.

Saímos de Tóquio, rumo à ABC Japan, em Tsurumi, Kanagawa, para pegar a outra parte dos donativos, paramos em mais uma loja de produtos brasileiros em Kanagawa, enchemos o caminhão e pegamos a estrada, no caminho, paramos em Shizuoka para encontrar um grupo de brasileiros que trouxe mais uma van lotada de donativos. Entenderam o que aconteceu? Solidariedade em pouquíssimo tempo.

Podem falar o que for do povo brasileiro, mas na hora da tragédia, é um povo solidário. E dá muito gosto conversar e conviver com essas pessoas do bem.

Foram atitudes de diversos grupos que se mobilizaram para que tudo desse certo. Eu, particularmente não fiz nada sozinha, foi uma ação em grupo que destaca a verdadeira intenção em ajudar, sem medir esforços, como já disse uma vez, praticando o verbo doar, na sua conjugação mais que perfeita, o sinônimo de se entregar.

Sofremos críticas sim, ouvi absurdos, até mesmo acusações de querer fazer tudo isso para aparecer, respeito a opinião de cada um, mas só para deixar bem claro, é que somos uma ONG, e se divulgamos todas as nossas ações, foi por respeito à quem fez a doação, é uma forma de dar uma satisfação e prestar contas da confiança no qual nos fora depositada. É uma forma de falar: Confia em mim, eu vou levar a sua doação para quem precisa. Por isso fizemos uma ampla divulgação, não para ter méritos e sim para que todos que doaram de coração, tivessem a certeza de que nada foi desviado e tudo foi entregue.

Depois de 20 horas de viagem, chegamos no Hospital da Cruz Vermelha de Kumamoto, onde a psicóloga e diretora da ONG SABJA, Neusa Miyata, nos aguardava. O marido de Neusa é médico da Cruz Vermelha e o casal vive em Kumamoto. E enquanto descarregávamos os donativos, já haviam pessoas esperando as doações para levarem aos lugares mais distantes e que com o camihão não teríamos acesso. Chegando no galpão do hospital, me deparei com muitos produtos que foram doados por outra ONG brasileira, a ABT de Toyohashi, Aichi. Isso me emocionou muito, pois ali eu senti bater o coração brasileiro.

No estado de Kumamoto, vivem aproximadamente 47 brasileiros, e não houve registro de nenhuma vítima brasileira.  Mas isso não contou em nada para que a ajuda partisse da comunidade brasileira. E olha que foi tudo muito rápido. Engraçado que ouvi de brasileiros também que não iria ajudar, porque não teria tempo hábil para isso, reclamando que decidimos tudo isso muito em cima da hora, ainda bem que isso foi uma atitude minoritária. A maior parte se entregou mesmo.

Quando fui para Tohoku, há 5 anos, eu aprendi muito ali, muito mesmo. E quando decidi ir para Kumamoto, eu sabia que iria aprender mais ainda. Fui de coração aberto, consciente de que não sou nada nessa vida, e não sei nada. Quando cheguei lá e me deparei com aquela quantia enorme doada, em sua maior parte, por brasileiros, senti que a lição dessa vez veio pelos brasileiros. Entendi que todos podem estar passando por problemas monstruosos, mas ainda assim, existem os brasileiros que extendem a mão e oferecem o seu melhor. E esse melhor, ás vezes nem é material, mas uma atitude, um calor humano, um abraço, fazem toda a diferença.

Àqueles que criticaram, será que fizeram algo para ajudar? Doaram pelo menos uma escova de dente? Fica a dúvida no ar.

Independente de qualquer crítica, sempre vou continuar ajudando esse país, no que eu puder ajudar. O Japão me recebeu muito bem, meus filhos foram criados no Japão, e os ensinamentos de vida, só aprendi aqui, na luta, no dia a dia… Portanto, nada mais justo que eu retribua, tudo o que recebi.

Mas confesso que não fiz nada sozinha, o grupo envolvido em tudo isso é muito bom. A comunidade mostrou que apesar de todos os problemas, a essência de brasileiro não foi perdida.

E isso, eu tenho orgulho de ser: Brasileira! Por pior que tudo o que está acontecendo, tenho orgulho de falar que sou brasileira e carregar no meu coração o verde e amarelo.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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