ERIKA TAMURA: Educação das crianças brasileiras no Japão

 

O movimento dekassegui começou há mais de vinte anos atrás, e até hoje ainda conta com um problema deficitário, no quesito educação.

As crianças que aqui chegam, acabam ficando um pouco perdidas, pois os pais ainda têm uma certa insegurança em relação a escola, ou a melhor educação para seus filhos. A dúvida é: qual a melhor escola? A escola japonesa ou a escola brasileira?

A verdade é que as escolas brasileiras não são estruturalmente desenvolvidas para propiciar uma educação de qualidade como as escolas particulares do Brasil, além de serem caras. Mas é a oportunidade para que as crianças sejam alfabetizadas em português e não se esqueçam de sua língua original.

As escolas japonesas, têm um método disciplinar bem rígido, é metódica, com pouca flexibilidade, mas é a porta aberta para uma perspectiva de futuro para as crianças, visto que frequentando a escola japonesa, toda a família terá acesso a uma boa parte da cultura nipônica e a chance de integração na sociedade japonesa é bem maior.

Qual o intuito de se matricular um filho numa escola brasileira no Japão? É a de que um dia a volta para o Brasil é uma certeza. Mas e se esse dia nunca chegar? E é realmente isso o que vem acontecendo, muitos pais ingressam seus filhos em escolas brasileiras, para que um dia, quando regressarem ao Brasil, a criança esteja adaptada a educação brasileira, sem problemas no acompanhamento escolar. Mas a realidade está bem longe disso, pois para a maioria, esse dia de regresso ao Brasil não chega nunca, ou está cada vez mais distante, e o tempo vai passando, as crianças crescem, chega a hora de ingressar numa faculdade e não dá, pois faculdade no Japão custa caro, além disso, eles não sabem japonês, afinal, estudaram em escola brasileira! O que acontece é que acabam indo para as fábricas, virando mão de obra não qualificada e barata. E se isso não acontecer, e retornarem ao Brasil, o ritmo escolar do Brasil é diferente daqui, as escolas no Brasil, pelo menos as particulares são mais difíceis do que as escolas brasileiras daqui.

A culpa disso tudo não é propriamente das escolas brasileiras no Japão, tenho conhecimento que as escolas aqui lutam para um ensino de qualidade, mas é tudo mais difícil, uma equipe pedagógica de qualidade já é difícil de se manter no Brasil, imagina aqui, do outro lado do mundo. Além de ser oneroso, pois as apostilas, livros e todo o material pedagógico tem que ser importado do Brasil.

Só para citar um exemplo de que a conciliação das duas escolas é possível: a minha filha frequenta as duas escolas, tanto a brasileira como a japonesa. Sei que é puxado, mas é para o bem dela. Hoje em dia tem que se ter diferencial, e ter o domínio dos dois idiomas já significa estar dois passos a frente de muita gente. E assim como ela, tenho amigos que frequentaram as duas escolas, e foram alfabetizadas em português e japonês, e hoje podem escolher qual o melhor emprego, escolhem quanto querem ganhar e isso só contribui para uma melhor qualidade de vida.

E outro dia, ouvi um comentário do tipo: “Nossa que dó desses jovens que vão entrar na fábrica, eles estão há mais de 10 anos no Japão e não sabem falar nada de japonês!”. Realmente um desperdício total, mas o inverso também considero como desperdício, ir para a escola japonesa, a criança passa a se comunicar somente em japonês e acaba esquecendo o português, sendo ela uma pessoa brasileira que não sabe falar português…

Para tentar amenizar e sanar todo esse dilema educacional, o cônsul brasileiro de Tóquio, Marco Farani, tem desprendido uma atenção especial, usando de recursos como palestras e orientações para que a família brasileira tem acesso as informações. Não necessariamente influenciando para a escolha de uma escola ou outra, e sim na conscientização da importância da educação para o jovem brasileiro que vive no Japão. É importante que os pais vejam que para os jovens estudar é mais importante que trabalhar. Muitos pais acabam preterindo os estudos dos filhos, e incentivam para que eles trabalhem, afinal, o custo de vida no Japão é caro, e uma pessoa a mais trabalhando já faz toda a diferença.

Cada família sabe o que é melhor para si, mas quero ressaltar que os estudos abrem muitas portas, e a longo prazo esse é o caminho para o sucesso.

 

 

 

Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

Redação

Redação

nippak@nippak.com.br
Redação

Últimos posts por Redação (exibir todos)

Related Post

ERIKA TAMURA: Exposição Terra do Sol – pintores ni... (Foto: Erika Tamura)     No sábado dia 26 de abril, estive presente na Exposição de Arte, Terra do Sol – Pintores nipo-brasileiros...
ERIKA TAMURA: Conselho de Cidadãos   No último sábado, dia 25, participei pela segunda vez em Tóquio da reunião do Conselho de Cidadãos, com o tema: trabalho. O encontro visa...
SILVIO SANO > NIPÔNICA: NO “BALANÇO” DA COPA…...     Ao final de qualquer evento de interesse público, independentemente do porte, de modo geral sempre é feito um balanço pelos or...
CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Enquanto molhav...   Enquanto molhava os pés   Foi pelas areias molhadas Que caminhei enquanto do lado Esquerdo a água rolava em ondas A rebe...

5 Comments

  1. ¨ Muitos pais acabam preterindo os estudos dos filhos, e incentivam para que eles trabalhem, afinal, o custo de vida no Japão é caro, e uma pessoa a mais trabalhando já faz toda a diferença.¨
    Incrivel como, esse trecho da sua coluna, me lembra a atitude de pais de paises extremamente miseráveis e pobres.

  2. Erika, saberia informar qual a idade mínima para ingressar numa faculdade japonesa, poderia ser com 17?
    Meu email é silvialeticiaenore@gmail.com
    Obrigada!

  3. Erika, pode com 17 anos ingressa a faculdade japonesa
    silvialeticiaenore@gmail.com
    Obrigada!

  4. Boa Tarde!
    Erika,para dar aula nas escolas brasileira no japão ,com faculdade de pedagogia que tenho eu posso lecionar??

    Obrigada

    • Erika,

      Boa noite!

      Sou graduada em Pedagogia e Pós graduanda em Psicopedagogia, pretendo ir morar morar no Japão no próximo ano. Você acha que tenho chance de atuar na área da educação no Japão?

      Grata

Faça seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *