ERIKA TAMURA: Escola japonesa ou escola brasileira?

Moro há 20 anos no Japão, criei meus filhos no Japão, e hoje eles estudam no Brasil, e a pergunta que mais escuto é: “Qual a melhor escola? Brasileira ou japonesa?”.

E a minha resposta é, depende…

Depende dos interesses que vocês, como pais têm. Depende da adaptação da criança, depende da sua situação financeira atual, depende da prioridade da vida de cada um…

Eu optei em colocar meus filhos em escola japonesa, mas com aulas particulares de português. Já relatei essa experiência em outro artigo, mas vou fazer um comentário resumido. Foi a melhor decisão que tomei em relação a educação dos meus filhos. A escola japonesa tem uma estrutura excelente, além da disciplina e muitas atividades. Mas eu, como brasileira, fiz questão que meus filhos falassem, lessem e escrevessem em português. E fui exigente quanto a isso, quis a fluência total nos dois idiomas.

Foi difícil? Foi! Custou caro? Sim! Compensa? Muito! Hoje não me arrependo nem um pouco da minha rigorosidade quanto a educação dos meus filhos.

Acredito que todos nascem com uma missão, portanto, eu penso que nasci descendente de japoneses, não foi a toa. Eu nunca quis vir ao Japão, mas depois que cheguei aqui e conheci mais profundamente a cultura japonesa, comecei a perceber qual era a minha missão. Resgatar e fortalecer esse vínculo nipo brasileiro dentro de mim, é uma delas. Atualmente, entendo que tenho o privilégio de ser japonesa no Brasil e estrangeira no Japão. Depois de muita crise de identidade, consegui entender o diferencial que tudo isso pode trazer na minha vida e na vida dos meus filhos.

Por isso fiz questão de que a educação dos meus filhos fosse bilingue. Mas bilingue mesmo! Não o que eu vejo muitos pais falando por aí que têm filhos bilíngues, mas na verdade, eles têm o conhecimento dos idiomas japonês e português, mas não possui a fluência, nem o aprofundamento do conhecimento sócio cultural.

Chegamos no ponto onde eu queria, conhecimento. Essa é a palavra chave que leva a uma outra palavra, que acho primordial: Educação. Educação no sentido amplo mesmo, que envolve estudo, conhecimento, didática e não falo somente sobre as escolas, mas aquela que aprendemos em casa. Muitos pais, pode ser que não tenham o conhecimento ou o estudo, mas possuem um refinamento cultural, incentivando os estudos dos filhos para que alavanquem na pirâmide social.

Enquanto as pessoas “brigam” pelo direito de visto japonês para a quarta geração de descendentes japoneses, existe uma outra possibilidade que poderá transpor qualquer tipo de barreira ou dificuldade em relação ao direito do visto: a educação! Ela sim, pode derrubar qualquer tipo de muro que vier a ser colocado por quaisquer governantes que seja.

Se a ignorância cria muros, a educação os derruba.

Meus filhos são yonsei, e sei que o dia que quiserem voltar ao Japão, podem voltar a qualquer hora, quando quiserem, como? Através dos estudos.

Minha filha tem o N1 de proficiência japonesa, pode requerer bolsa de estudos em qualquer faculdade que ela queira fazer no Japão. Não precisa necessariamente de um visto especial de trabalho, mas se mesmo assim, ela quiser vir para trabalhar, que venha como mão de obra qualificada.

Precisamos pensar num estágio acima, afinal não é justo que essa geração venha para trabalhar em fábrica. Tenho certeza que os brasileiros têm muito mais para oferecer ao Japão, além da sua mão de obra braçal.

Vamos pensar no exemplo do Dr. Irineu, psicólogo da NPO SABJA. Irineu era cortador de cana no Brasil, mas quis mudar de vida. A única opção? Estudar, trabalhar, estudar, trabalhar. E foi assim que se formou psicólogo, contrariando quem um dia falou: “Filho de bóia fria, vai ser bóia fria…” . E hoje, o Dr. Irineu, trabalha como psicólogo dentro do Consulado Geral do Brasil em Hamamatsu, auxiliando, orientando, ajudando a comunidade brasileira que vive no Japão.

O Consulado Geral do Brasil em Tóquio, lançou na última Feira de Educação, um guia de ingresso no sistema de ensino superior e técnico para brasileiros residentes no Japão, chamado: “Estudar no Brasil”. Eu li o guia e achei um material muito interessante, rico em informação, quem quiser detalhes sobre o material, entre no site do Consulado e peça um exemplar.

Respondendo a pergunta título do artigo, qual a melhor escola, brasileira ou japonesa? A minha resposta é: as duas! Se tiver o acesso as duas escolas, seria perfeito. Mas eu sei o quão difícil é manter uma educação bilingue.

Mas a dica está dada, conhecimento nunca é demais!

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 20 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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