ERIKA TAMURA: Exemplos valem mais que palavras

 

No último fim de semana , nevou muito aqui no Japão. Um clima totalmente contrastante com o do Brasil.

Os meteorologistas japoneses falavam que não nevava assim há 16 anos. Exatamente o tempo que tenho no Japão, e realmente quando cheguei aqui estava nevando e muito! O primeiro dia achei lindo, tirei fotos, brinquei na neve, fiz tudo o que uma típica brasileira faz quando se depara com a neve. O segundo dia já estava enjoando daquela paisagem toda branca e no terceiro dia já comecei a chorar e ligar para minha mãe vir me buscar, porque com a neve fica difícil sair de casa, aquela imensidão branca, como saber onde é rua e onde é calçada? Sem contar o frio…

E durante esse fim de semana me remeti ao passado, apesar de todo esse tempo, estou adaptada ao Japão, mas os transtornos que a neve causa são inevitáveis. Tirar a neve da rua, do carro, do estacionamento, afinal dirigir na neve é um perigo. Tudo isso faz parte da rotina de todos que vivem no Japão.

E no centro de pesquisa onde trabalho, os transtornos causados pela nevasca não foi diferente, o estacionamento e a entrada estavam tomados pela neve, então fomos todos com a pá remover e limpar tudo. É aí que está a diferença entre os brasileiros e os japoneses, dificilmente em uma firma brasileira, veríamos o presidente da empresa colocando a mão na massa, ou seja, retirando a neve com a pá e fazendo todo o trabalho pesado. Certamente ele iria mandar um funcionário para que faça o trabalho braçal. Mas ali onde eu trabalho não é assim, o presidente e o diretor da empresa, calçaram botas, luvas e munidos de pá, iniciaram os trabalhos de limpeza do local, e eu vendo aquilo, senti vontade de ajudar também, não é pelo “puxa saquismo”, e sim por uma questão de dignidade, afinal, vejo o dono da empresa e o meu chefe executando arduamente esse trabalho para o bem estar dos funcionários, e eu vou ficar parada por que?

Visto a camisa da empresa mesmo, porque mais do que ordens ou pedidos, os meus superiores me ensinam com exemplos. A atitude deles, só demonstram o quão privilegiada eu sou em trabalhar em um lugar assim.

A preocupação deles era de tirar a neve dali o mais rápido possível para que nenhum funcionário derrapasse com o carro, ou escorregasse quando estivesse andando pelo estacionamento.

Fiz questão de parar o meu trabalho, e sair da minha sala quentinha para um frio congelante, somente pelo fato de querer contribuir para um bom ambiente de trabalho.

Muitos brasileiros não entendem essa minha atitude, me criticam, e falam que sou idiota por querer ajudar, pois poderia ficar quieta numa sala com temperatura agradável. Mas a questão é: e a minha consciência, como fica?

Pois é, eles estão ali no serviço braçal, e em momento algum me pediram ou ordenaram para que eu fosse ali, exatamente por isso decidi aderir, e com isso as outras japonesas também pararam os seus serviços e foram ajudar.

No inverno é a neve, e no verão é a grama, o enorme jardim do centro de pesquisa não conta com nenhum jardineiro, e é mantido por nós mesmos, pois o movimento começou pelo presidente da empresa também, que com uma máquina de podar grama foi fazendo o serviço, e todos nós fomos aderindo aos poucos, sem ninguém pedir. Como as formigas que aos poucos vão fazendo o seu trabalho e em equipe para um resultado melhor.

Por isso que digo que esse Japão me ensina muito, e na prática! Aqui nada é teórico, pelo menos para mim.

 

 

 

Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

 

 

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