ERIKA TAMURA: Frequência escolar no Japão não é obrigatória para os brasileiros

Durante uma reunião na Embaixada do Brasil em Tóquio, foi levantada a questão do caso das crianças estrangeiras no Japão não se encaixar na obrigatoriedade em frequentar uma escola. Um assunto polêmico, e com consequências prejudiciais a longo prazo, dentro da comunidade brasileira no Japão.

Eu já tinha lido algo a respeito, onde o professor japonês Daisuke Onuki, levanta essa bandeira, e diz ser contra esse posicionamento do governo japonês. Por lei, as crianças estrangeiras que vivem no Japão não são obrigadas a estarem frequentando uma escola.

Eu não sabia dessa brecha, e me preocupo pois descobri que existem muitos pais que deixam as crianças em casa, por motivos que ainda não consegui entender. E os números estatísticos de quantas crianças ao certo, estão sem frequentar escolas, o governo brasileiro não sabe, pois o governo japonês, alegando sigilo, não informa.

É uma situação preocupante, e ao mesmo tempo emergencial. Por isso a ONG em que eu trabalho, juntamente com a Embaixada do Brasil está pensando em formas para conscientizar os pais a darem uma mairo importância aos estudos dos filhos.

Sempre bato nessa tecla em que eu falo muito sobre educação, porque não tem jeito, essa é a porta que irá abrir muitas outras na vida das pessoas.

A Embaixada do Brasil em Tóquio, tem conversado diretamente com o ministério da educação do Japão, e pleiteado uma mudança para que a lei de obrigatoriedade na frequência escolar, seja abrangente e os brasileiros, assim como outros estrangeiros, se encaixem no âmbito vigente legal do país. Mas a conversa não tem avançado muito, e os resultados não são animadores. O próprio ministro da educação no Japão, disse claramente que as escolas japonesas existem e estão abertas para receberem os alunos estrangeiros, agora se os pais não os procuram, então não é mais problema do governo japonês.

Na minha opinião, diante de todo esse quadro, a única solução que vejo é a conscientização dos pais. Não acho justo que os filhos paguem negativamente com o seu futuro, por uma decisão errada e equivocada dos pais. A educação dos filhos deveria ser prioridade dentro de uma família, e pensei que assim fosse, mas quando me deparei com essa realidade, confesso que fiquei um pouco chocada.

Acho que o governo japonês não está 100% errado, afinal formação escolar dos deveria ser uma condição sine qua non para os pais. E mesmo sem uma lei que obrigue a matrícula numa escola, os pais deveriam saber que criança tem o direito aos estudos. Mas também vejo que por outro lado, o brasileiro muitas vezes é condicionado à imposição de regras, então quando há um relaxamento nas regras, há também um relaxamento na conduta pessoal.

Enfim, mais uma vez a educaçã entra em pauta. E mais uma vez vou citar os meus filhos, que por falta de uma, frequentaram duas escolas, a escola japonesa e a escola brasileira, simultâneamente.

E não vi problema nenhum nisso. O bilinguismo é uma tendência mundial e quem não conseguir acompanhar isso, será visivelmente passado para trás.

Para a criança o bilinguismo não faz mal nenhum, pelo contrário, pode ter o seu desenvolvimento muito mais aflorado. Preciso citar um caso espetacular que vi, a filha da minha amiga brasileira, fala 4 línguas e tem 3 anos. Ela vive na Suiça, portanto fala alemão e inglês, como a mãe é brasileira, a menina sabe português, e agora que passou uma temporada no Japão, aprendeu japonês. Isso afetou negativamente o desenvolvimento da criança? De forma alguma! Acho que isso a faz uma criança diferente, com vários diferenciais.

Se existe a oportunidade de se aprender uma ou mais línguas, por que então manter as crianças trancadas dentro de casa, sem acesso a nenhum tipo de educação?

O movimento de conscientização já começou, e acho que se houver uma união e um maior número de informações poderemos zerar os números de evasão escolar, sem precisar mexer na lei japonesa, que já ficou claro, não há nenhuma intenção em ser mexida.

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

Últimos posts por ERIKA TAMURA (exibir todos)

    Related Post

    BEM ESTAR: Viver Alguma vez , tem pensado,  o que a  sua presença representa no seio do convívio? Como você vibra em relação a cada pessoa que você depara, sem ao m...
    JORGE NAGAO: Blocos paulistanos | Casimiro de Abre... Blocos paulistanos     O Jornal Nacional mostrou, como sempre, alguns blocos do carnaval carioca (cito alguns, no texto do Casimi...
    ERIKA TAMURA: Hiroshima e 3 anos do Tsunami   Semana passada finalmente consegui conhecer Hiroshima, a cidade destruída pela bomba atômica na guerra. Sinceramente, eu sabia o quanto s...
    MEIRY KAMIA: Superando o medo do desemprego É comum, e até esperado, que empresas que passem por processos de fusões, aquisições ou mesmo estruturações profundas, sofram mudanças no quadro de fu...

    3 Comments

    1. No primeiro momento em que cheguei ao país, procurei colocar a minha filha na escola, ela sempre frequentou desde os 5 meses de vida e teve um ótimo desenvolvimento, sei que ela tem apenas 3 anos e para o governo japonês não é obrigatório ter vagas nas creches, mas pra mim sim prezo muito a educação. Fiz de tudo o possível e o impossível e consegui, devido à cidade onde moro não possuir escolas brasileiras ela está em uma creche japonesa e não vejo problema em estar aprendendo outro idioma, pelo contrário. E vou sempre fazer questão de que frequente a escola.

    2. Não creio que colocar a obrigatoriedade escolar no Japão para nós brasileiros seja uma solução.
      Temos escolas brasileiras no Japão, e isso afetaria muito a nossa economia no país.
      Creio que nós (povo) brasileiros criamos muitas regras em forma de leis, pois só aprendemos por penalidades. Respeitar a liberdade das pessoas é típico no Japão, e poderíamos continuar seguindo o exemplo. Meus filhos frequentaram a escola japonesa por que considerávamos a melhor para eles. Mas muitos brasileiros preferem pagar a escola brasileira, opcional. O Estado Brasileiro não devia querer interferir tanto na maneira que criamos nossos filhos.

    3. entendo a posicao do governo japones. pois nunca se sabe se o brasileiro é dekassegui ou não.
      como criança não tem direito a escolha, fica a critério dos pais.
      se os pais tem a visão e intenção de voltar para o brasil, que coloque a criança numa escola brasileira. quando voltar, fica mais tranquilo para fazer o enem, e ingressar num curso superior e se dar bem aqui.

      fui com 11 anos para o Japão, me formei e estou no brasil. e sinto uma dificuldade imensa de ter algum trabalho aqui. diploma tem que validar, as empresas brasileiras tem receio de contratar gente com escolaridade superior e ainda mais estrangeira.

    Faça seu comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *