ERIKA TAMURA: Hábitos japoneses

 

Paro para pensar e fico refletindo sobre todos esses anos no Japão. Quantos hábitos eu mudei, e quantos eu não consigo mudar. Por exemplo, quando cheguei no Brasil, sentia-me mal ao entrar nas casas de sapatos. Aqui no Japão, nunca entra-se nas casas calçados.

Um outro hábito que é automático: quando vou ao banheiro, jogar papel higiênico no vaso! No Brasil sempre faço isso, e depois, quando me lembro fico preocupada, e se o papel não se dissolver?

Mas tem as peculiaridades brasileiras que não consigo abandonar, mesmo depois de 15 anos no Japão. O feijão, por exemplo, preciso de feijão todos os dias. Aliás, a culinária brasileira em si, é a melhor do mundo! Falo com conhecimento de causa, a comida japonesa pode ser mais saudável, mas não consegui me adaptar totalmente, como muito pouco e mesmo assim ainda sofro quando vou em jantares de negócios, onde não posso escolher a comida. Chega a me dar até uma palpitação no peito, só de imaginar o que será que vai ter no jantar. É até um pecado, eu falar sobre isso, mas estou relatando a verdade, o que realmente acontece nos meus dias.

Tem um detalhe, que sempre que eu falo, as pessoas ficam inconformadas, mas eu não consigo comer de hashi (pauzinho), isso sim torna a minha refeição uma tortura. Por isso sempre carrego um garfo na bolsa, pois sempre tem restaurantes tipicamente japoneses, que não têm garfos. E essa minha falta de habilidade em utilizar o hashi, as vezes me constrange, como na vez que fui almoçar com os humoristas Luiz França e Felipe Hamachi, os dois comendo sushi de hashi, na maior intimidade no manuseio e eu pedindo um garfo para a atendente.

O trânsito aqui no Japão, é um tema subjetivo. Muitos acham caóticos, mas confesso que eu prefiro dirigir aqui no Japão, do que no Brasil. Pelo menos no Japão, todas as regras são cumpridas. Está certo que tem algumas ruas que são estreitas, e mal passam dois veículos, quando isso acontece, um carro para e espera o outro passar, dando passagem para isso. Quando assessorei a cantora Negra Li aqui no Japão, ela se impressionou com essa prática e me perguntou, como consigo dirigir assim.

Dirigir no Japão é um hábito que incorporei e me adaptei totalmente, mesmo a direção sendo do lado contrário do Brasil.

Mas falando de um modo geral, o Japão me deixou mal acostumada no quesito excelência no atendimento ao público. O tratamento no comércio, bancos, hospitais e órgãos públicos é excelente! Não vejo outra palavra para expressar a qualidade dos serviços. Eficiência aqui é requisito fundamental.

Já no Brasil, bom, não preciso nem dizer que meu estresse já começa no aeroporto. Fico imaginando qual será a qualidade do tratamento que o Brasil irá oferecer na Copa do Mundo.

Em contrapartida, acho os japoneses extremamente frios. Os japoneses têm respeito, são atenciosos, tratam bem a todos, mas são frios no sentido de tocar, abraçar, beijar. Os brasileiros se cumprimentam com beijinhos, isso para os japoneses é apavorante. Eu tenho a mania de conversar tocando na pessoa, pegar no braço, nas mãos, e quando entrei no centro de pesquisa, onde trabalho, e agia dessa forma, eu notava que as minhas colegas japonesas, ficavam tensas, elas mal se mexiam. Abraço então, nem pensar…

E é o calor humano que admiro nos brasileiros. A facilidade em se fazer amizades, o ato de se cumprimentar com um beijo, o abraço entre amigos, adoro tudo isso e sinto falta disso no Japão.

Quando fui ao Brasil, fiquei chocada quando vi um motorista, abrir a janela do carro e jogar o lixo. Um hábito corriqueiro no Brasil, mas que no Japão quase não se vê. E engraçado que só fui me indignar com isso depois de morar no Japão, pois enquanto estava no Brasil, essas atitudes passavam despercebidos para mim.

São todos esses hábitos, que me caracterizam no momento, e não posso ser rotulada como japonesa ou brasileira, e sim como a Erika, brasileira que mora no Japão! Tenho particularidades únicas, por ter contato com as duas culturas e sou muito feliz por isso, pois isso me enriquece humanamente.

Sou muita rica, não em bens materiais e sim em poder dizer que absorvo o melhor de cada cultura do qual tenho contato e vivo todos os dias. E isso faz com que a minha evolução seja desenvolvida de uma forma ímpar, e tenho o maior prazer em dividir tudo isso aqui, no jornal, para todos os leitores.

 

 

*Erika Tamura nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

 

 

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3 Comments

  1. Diferenças entre as culturas sempre existiram e hão de existir, no entanto, ser capaz de “absorver o melhor de cada cultura”, como você disse ali, penso também ser o belo dessa convivência. Não que eu tenha bagagem para suportar tal comentário, afinal, sou apenas um admirador da cultura nipônica que não ponhou os pés além da fronteira brasileira, ainda… Continue nos iluminando com sua coluna e muito obrigado!

  2. nossa eu tambem nasci em Araçatuba que legal .

  3. Belo texto! Estou com documentação e data pronta para me mudar para o Japão e fiquei muito nervosa, em relação a adaptação, principalmente à alimentação; eu já mal como arroz no Brasil, imagina lá haha Mas estou otimista, e esse texto me encorajou mais ainda, Japão é um bom país mas claro que sentirei falta daqui, principalmente como dito, desse “calor” humano do Brasil, meus amigos japonêses são exatamente como foi descrito, tímidos, “frios”

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