ERIKA TAMURA: Hiroshima e 3 anos do Tsunami

 

Semana passada finalmente consegui conhecer Hiroshima, a cidade destruída pela bomba atômica na guerra.

Sinceramente, eu sabia o quanto seria triste saber a história a fundo. Uma coisa é conhecer a história através dos relatos dos professores, do meu pai e do meu avô, outra coisa é estar ali em Hiroshima, mais precisamente no museu memorial da paz. Parecia que eu estava mexendo numa ferida quase cicatrizando, mas que ainda sangra. Um sangue contido, mas consistente, real, veemente. A ferida está ali! Só não vê quem não quer ver, a história existe, e está toda relatada ali no museu, localizado bem no centro da cidade, onde tudo fora devastado.

Percorri aqueles corredores do museu, vendo foto por foto, lendo cada legenda, e não contive as lágrimas, chorei, mas um choro inconformado e apenas uma pergunta: “Como pode o ser humano fazer isso com outro ser humano?”… Não consegui ir até o final do museu, sentei no sofá que tinha ali, e não conseguia pensar em outra coisa senão no sofrimento humano dos japoneses. E levei minha filha para conhecer a história real de Hiroshima, pois apesar de ser criança, é importante que ela saiba o que aconteceu e quais as consequências de tudo isso nos dias de hoje, e me cortou o coração quando vi ela com lágrimas nos olhos e fazendo força para não chorar, se fazendo de forte ela disse; “que triste né, mamãe?!”. Desabei nesse momento.

E essa viagem à Hiroshima coincidiu com a semana em que se completa 3 anos do tsunami que assolou Tohoku. Impossível não me lembrar das cenas que vi e vivi naquele mês de março de 2011. Quando fui para Miyagi, levar as doações, me deparei com aquelas cenas que o tsunami deixou, não conseguia conversar. Fomos em caravana com um grupo de amigos, e chegando em Miyagi, foi um silêncio total, não conseguíamos falar nada, cada um foi pra um canto e em silêncio todos fizeram a sua própria reflexão.

A grande diferença é que o tsunami é um acidente natural, e a bomba atômica de Hiroshima não foi acidental, foi desenvolvida para matar, e matar da pior maneira que existe, com muito sofrimento. É inconcebível o que a ganância de uma guerra é capaz de gerar tamanha crueldade. O homem usa a inteligência para matar outro homem, pelo simples fato de querer o poder. É claro que envolvia muito mais coisas nessa guerra, mas são fatores tão pequenos se comparados à uma vida, o que dirá então no caso de várias vidas!

O Japão é um país lindo, com uma cultura riquíssima, um povo unido… Mas que não consegue ter paz, sempre acontece algo que faz com que o Japão se abale, mas isso tudo só proporciona uma maior união do seu povo, criando uma força de fênix para se reerguerem.

E de tudo isso que o Japão passou, o lado positivo é que a palavra de ordem do Japão é: Reconstrução. Essa é a lição que aprendi aqui, não importa o que aconteça, não importa com que força te derrubam, você pode até cair, mas vai aprender a levantar, quantas vezes forem necessárias, e quando se levantar, será mais forte do que antes.

Uma característica única que prevaleceu nessas duas tragédias no Japão, foi a consciência do povo em não ficar chorando e sim, erguer a cabeça e fazer o país andar sempre em frente. Priorizando sempre a educação, no museu vi fotos, de salas de aula ao ar livre pois as escolas foram destruídas, e quando fui pra Minami sanriku, em Miyagi, os alunos estavam sendo levados de ônibus para outra cidade, com o intuito de não perderem nenhum dia de aula.

São esses detalhes que me fazem admirar essa nação, e esse poder de reconstrução, sem dramatizar nada.

 

 

Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

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