ERIKA TAMURA: Hiroshima e Nagasaki – 70 anos

Não precisei escrever no título do artigo nada em específico. Apenas dois lugares que, ditos juntamente já da para entender do que se trata.

A única vez no mundo em que bombas atômicas foram usadas contra uma civis, devastando cidades inteiras e tendo como vítimas pessoas totalmente inocentes.

Eu nasci depois e tudo isso ter acontecido, mas sempre escutei as histórias que meu pai contava sobre os fatos acontecidos. A verdade é que crescer ouvindo isso tudo, sempre me fez ter um pé atrás com os norte-americanos. Hoje sei que as coisas não são bem assim, existem fatos e atos, que não conheço profundamente.

Nunca consegui achar uma definição para a guerra, nunca! Pensei em todos os pontos de vistas apresentados e noticiados, mas nenhum me deu um respaldo concluente e com conteúdo suficiente para justificar a guerra.

A verdade é que só fui entender as consequências do ataque da bomba atômica, depois de visitar o museu da paz em Hiroshima. E confesso que é com lágrimas nos olhos que relato tudo o que vi no museu.

Fotos e mais fotos, uma mais impactante que a outra, como pode uma foto sem nem precisar de legenda e mesmo assim contar toda a história?

Fui ao museu com a minha filha, ela apenas uma criança, mas eu faço questão que ela saiba o que aconteceu, faço questão que ela entenda o que se passou. E como a minha filha é fluente no japonês, eu não precisei falar nada, ela entendeu tudo! Na metade da visita ao museu, minha filha pediu para parar, disse que não queria continuar mais, e quando olhei pra ela, ela estava chorando, os olhos vermelhos denunciavam que ela realmente entendeu o que aconteceu. É uma história triste, mas necessária para o currículo de conhecimento dela.

Eu também confesso que não me senti bem naquele lugar, clima pesado, vontade de chorar, de sair correndo aos prantos. Hoje o lugar é lindo, mas foi exatamente naquele lugar que a bomba caiu, e foi exatamente naquele rio de Hiroshima, que o povo se jogava para tentar amenizar o efeito das queimaduras que corroíam o corpo. A foto que vi foi essa, corpos e mais corpos dentro do rio, em busca de um pouco de água como cura para as feridas expostas.

Várias outras fotos me marcaram, as de sofrimento e dor são as mais constantes e recorrentes, durante o trajeto no museu torna-se a mais comum, pois todos retratam algum momento aflitivo.

Mas tem uma foto que não me sai da cabeça. A foto de várias crianças ao ar livre, estudando. Cada qual com uma caixa improvisada como carteira escolar, um professor falando na frente de todos com um grande papel usado como lousa. E em volta, tudo destruído. Apenas escombros, pedras, terra. A foto em preto e branco, retrata apenas uma imagem, mas que conta toda uma história! Fiquei impressionada! Hiroshima, totalmente destruída e a preocupação era não parar as aulas para as crianças.

É assim que o Japão dá a sua lição para o mundo. Reconstrução!

Eu tive o privilégio de ver isso pessoalmente, quando fui levar doação para as áreas atingidas pelo tsunami em 2011. Vi que apesar de toda a tragédia, a preocupação “a priore” era o deslocamento das crianças para locais com estrutura escolar, para não perderem as aulas.

E se alguém perguntar como o Japão consegue a façanha de se reerguer sempre depois de uma tragédia, aco que uma das respostas está aí: a prioridade em educação. Alguém tem alguma dúvida de que esse é um dos segredos?

Essa semana foram feitas as celebrações de missas, lembranças e homenagens as vítimas da bomba atômica, passaram-se 70 anos, mas a minha experiência dentro daquele museu da paz em Hiroshima, me faz lembrar que algumas feridas ainda doem no povo japonês, e em seus descendentes, como eu, também.

Feridas essas que podem estar cicatrizadas, mas jamais esquecidas.

 

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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