ERIKA TAMURA: Irineu, um psicólogo no Japão

Durante esse período que estou no Japão, tenho ido à muitos eventos e reuniões ligados à comunida brasileira no Japão, bem como o seu futuro e os seus problemas atuais.

E, principalmente nos consulados itinerantes, eu consigo perceber o perfil das pessoas ali presentes, cada um com uma vivência, cada pessoa tem uma história de vida a ser contada, alguns já não possuem mais sonhos, outros fizeram dos seus sonhos um objetivo, e todos ali continuam a vida, meio que a deriva no Japão.

Como eu gosto de histórias de pessoas que possam acrescentar algo mais na vida da comunidade brasileira no Japão, não posso deixar passar batida a história de Irineu Carlos da Silva Jo. É uma história de luta que não difere de nenhuma outra das  que decidiram atravessar o mundo para estar aqui no Japão. Mas achei interessante pois tem a ver com tudo o que tenho falado nas palestras, e ainda tem a ligação entre os dois países, Brasil e Japão.

Irineu, chegou semana passada no Japão, não é descendente de japoneses e é a primeira vez no país do sol nascente. Até aí, nada de mais. Mas Irineu foi contratado pela NPO SABJA como psicólogo para ajudar na orientação dos brasileiros que vivem no Japão, e atenderá dentro do Consulado Geral do Brasil em Hamamatsu.

Uma grande vitória para quem começou a vida trabalhando como cortador de cana em Barbosa, cidade do interior paulista. Filho de agricultores, Irineu sempre tinha em mente que a única maneira de mudar o seu rumo, seria estudando muito. E nas conversas com os amigos cortadores de cana, durante o trabalho, Irineu sempre enfatizava que um dia iria cursar uma faculdade e sair daquela vida. Todos riram… O próprio Irineu acabou sendo motivo de chacota entre o grupo, pois era considerado o sonhador.

Agora pensem, se o Irineu tivesse escutado os amigos e seguido o conselho deles, deixando minar o sonho que carregava dentro de si, hoje ele não estaria no Japão, trabalhando como psicólogo dentro do Consulado.

Durante o nosso cotidiano, quantas e quantas frases de desincentivo não escutamos? São poucas as pessoas que nos incentivam e torcem por nós, portanto, a força de vontade não pode desaparecer de dentro de nós. Está certo que às vezes temos a impressão de estarmos correndo contra a maré, mas e se todos forem onde a maré leva, onde estará o mérito disso?

Eu mesma, quando decidi aprender japonês para poder ganhar mais e arranjar um emprego melhor, só escutava frases do tipo: Que idiota, perdendo o tempo estudando essa língua pra que? Se um dia nós vamos embora, e na fábrica não precisa pois temos tradutores; sem contar as outras frases absurdas que escutei quando decidi fazer faculdade aqui no Japão, tudo para que eu desistisse. Se eu fosse seguir todos os conselhos que me deram, com certeza, não estaria hoje aqui, escrevendo para o jornal.

O que eu percebi é que lidar com a comunidade brasileira no Japão, é como lidar com um grupo de crianças, se você ficar falando a todo momento, estudem japonês, ninguém irá ligar. O negócio é mostrar exemplos, não apenas citar, mas fazer com que os exemplos tenham voz, e falem, se expressem e contem a sua história. Acho que esse sim é o maior incentivo para quem vive aqui.

E vai chover críticas, ah se vai! Eu mesma, a cada palestra que dou, recebo muitas mensagens de pessoas interessadas em correr atrás de uma perspectiva de futuro com qualidade, mas também o que recebo de críticas…

Na minha opinião, a vida é isso. Um ir e vir, encontros e desencontros que no final faz você perceber que tudo valeu a pena.

Quando Irineu chegou no Japão, ainda deslumbrado com a cultura nipônica totalmente única e controversa, deve ter pensado: Olha onde eu cheguei! Estou no Japão!

Quando dei a minha primeira palestra no Consulado Itinerante, sentei ali na frente, vi meu nome na placa de identificação e me passou um filme na cabeça, algo indescritivelmente emocionante.

Agora imagino para o Irineu, que saiu do canavial, ouvindo de todos que pela lógica, não tinha como ele fazer faculdade, afinal, filho de trabalhador rural, trabalhador rural seria!

Por isso fiz questão de escrever o artigo, e dizer que Araçatuba e região podem se orgulhar de seus filhos, pois a esposa de Irineu, Norika Jo Silva, também psicóloga e araçatubense está atendendo a comunidade brasileira no Japão, no Consulado Geral do Brasil em Nagoia. Dois representantes da região noroeste paulista que se fazem presentes no Japão.

Foi difícil chegar aqui? Claro que foi! Alguém um dia disse que seria fácil? Mas o mais importante foi dar o primeiro passo, e depois disso não desistir nunca de lutar. Uma vez, conversando com o Ministro Marco Farani, cônsul brasileiro de Tóquio, comentávamos sobre a importância de tentar despertar a comunidade brasileira que vive no Japão, e o Ministro Farani ainda comentou, a maioria tem um olhar triste. Muitos se deixaram abater pelas conversas pessimistas à sua volta e estão se deixando levar. Pior ainda quando esse abatimento, e essa desesperança é passada aos filhos, hoje vejo jovens sem nenhum parâmetro para seguir.

Tenho certeza que se todos pararem para pensar e analisar a história do Irineu, vão perceber que é uma história comum à todos, só o desfecho pode ser diferente, e o que difere isso é apenas a força de vontade de cada um.

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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