ERIKA TAMURA: Joso, enchente no Japão aflige os brasileiros

Durante 17 anos, morei em Joso, na província de Ibaraki no Japão. E foi com muita dor no coração que acompanhei pela TV todo o drama vivenciado, devido a uma enchente na passagem do tufão pelo arquipélago japonês.

É horrível ver que os lugares por onde morei foi totalmente tomado pelas águas, e mais doloroso ainda é ver que meus amigos perderam tudo.

A enchente aconteceu porque, uma das encostas laterais que seguram o rio Kinugawa, cedeu, e com a forte chuva por causa do tufão, a cidade foi totalmente alagada.

Joso, é uma cidade que surgiu da união de outras duas cidades: Mitsukaido e Ishige. Possui atualmente 4 mil estrangeiros, sendo 2700 brasileiros. Desses 2700, a maioria foi para um dos 30 abrigos da prefeitura. A prefeitura não disponibiliza de um número exato, pois muitos brasileiros entravam e saíam do abrigo, sem marcar seus nomes na lista.

Semana passada, estive em Joso, juntamente com o Consulado Geral do Brasil de Tóquio, que em missão enviou seus funcionários e cônsules para uma averiguação das necessidades reais dos brasileiros no momento.

Nos abrigos, percebi que os brasileiros, apesar de estarem todos bem, ainda estavam muito abalados, óbvio, afinal foi um choque jamais imaginado para quem vive no Japão. A maioria sente a necessidade de conversar, contar em detalhes o que aconteceu. Por isso nós da NPO SABJA, decidimos levar dois psicólogos para conversarem com os brasileiros.

Mas o que mais chama a atenção realmente é a estrutura do Japão para lidar em casos emergenciais como esse. O Japão agiu muito rápido, o exército se deslocou imediatamente para Joso e iniciou os trabalhos de resgate. Helicópteros tomaram o céu de Joso, foram mais de 30 no total, para resgatar quem estava ilhado e em risco.

O resgate se deu por bote pelos bombeiros e pelo céu com os helicópteros do exército, mas fora isso, tem as histórias dos brasileiros que se uniram para salvar uns aos outros. Quem disse que brasileiro é desunido no Japão? Pelo menos nesse momento o que eu vi foi uma corrente em que todos estavam com o mesmo objetivo na cabeça, salvar vidas. O uso do celular foi imprescindível nesse caso, pois os pedidos de socorro viralizaram na internet, e as redes sociais serviram como informativos para todos.

Na minha cabeça só passava uma coisa: preciso ir pra lá para ajudar! Afinal, fui para Tohoku, logo após o tsunami, mesmo sem ter nenhum vínculo com as pessoas e nem com o lugar. E, agora que aconteceu uma catástrofe na cidade onde por 17 anos foi minha casa, e ainda moram os meus amigos, eu não poderia ser omissa. Queria ir, mas todos falavam pra eu não ir, não tinha como entrar na cidade, e eu poderia dar mais trabalho para o exército se algo acontecesse comigo lá. Então recebi um telefonema do Consulado, me convidando para acompanhar a missão, topei na hora. Esse sentimento de impotência é o que me matava por dentro.

Mas, chegando lá, vi toda uma estrutura que o governo japonês montou, é claro que os abrigos não são confortáveis como a nossa casa, mas pelo menos ali, comunitariamente não faltava nada. O exército servia comida quentinha e manhã, no almoço e de noite. Havia barracas da cruz vermelha com atendimento médico, de manhã tinha aula de yoga, massagem e acupuntura para todos, wi fi, comida, roupas, bebidas, remédios… Enfim, tudo o que precisar de mais emergencial, os abrigos tinham.

Os brasileiros, montaram uma barraca em frente a uma loja de produtos brasileiros, e fez dali um ponto de arrecadação e distribuição de doações. Incrível como a mobilização se deu no Japão todo, de forma uníssona e homogênea. Todos se uniram em prol das pessoas de Joso, e nessas horas não tinha religião, assim como não tinha a discriminação por nacionalidade, quem precisava de algo era só ir na barraca e levar o que precisava, tanto faz se fosse brasileiro, japonês, peruano, filipino…

Foi muito linda essa movimentação dentro da comunidade brasileira, que despertou a atenção do povo japonês, pois essa mobilização foi destaque em várias mídias japonesas. Essa união mostrou que o povo brasileiro é solidário sim, e que nas horas difíceis somos todos uns pelos outros.

Meus amigos perderam tudo, e mesmo assim trabalharam incessantemente dia e noite para ajudarem outras pessoas, esquecendo-se até deles mesmo. Perguntei para um amigo meu, e você como está? Ele respondeu que até tinha esquecido que ele mesmo precisava correr atrás das coisas pra ele, pois não tinha onde morar, nem documentos mais.

Uma família de amigos meus, perderam de uma vez só duas casas e um comércio que era o ganha pão da família, pois tudo era localizado na mesma rua. Pergunta se ele desistiu? Não! Ele continua ajudando outras famílias e disse que não consegue pensar no futuro. Mas a batalha continua.

Percebi que, passado o choque inicial, tudo vai voltando ao seu devido lugar, mas o trabalho com o apoio dos psicólogos continua, pois eu sei que assim como em Tohoku, os traumas ainda persistem em seguir junto com as famílias.

Como disse a Ministra de Assuntos Internacionais, Sanae Takaichi, que conheci durante a visita nos abrigos: Ishone gambarimasho! Ou seja, vamos lutar juntas!

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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