ERIKA TAMURA: O ato de escrever

 

E começou 2014! O ano chegou de repente para uns, e calmamente para outros. Para mim, que moro no Japão, o ano começou antes. E com ele vem aquela ilusão de renovação de esperanças, um revigoramento peculiar de quem espera por dias melhores.

No meu caso, era para eu ter voltado a escrever os artigos na semana passada, confesso que tentei, mas não consegui, as palavras não saíam, e quando saíam não me agradavam em nada o conjunto delas. E quando eu escrevo gosto de compartilhar tudo o que sinto na alma, quero que meus leitores sintam a mesma emoção que sinto ao descrever uma história. Uma vez li uma frase do escritor Rubem Alves, onde ele diz que: “livros são feitos com a carne e o sangue dos que os escreveram. Só leio livros escritos com sangue. Depois que os devoro, deixam de pertencer ao autor. São meus porque circulam na minha carne e no meu sangue.”

E é exatamente isso que eu sinto ao escrever um artigo, sento aqui na frente do meu computador, e deixo a minha alma viajar pelas letras do teclado, Rubem Alves pode até exagerar quando diz sobre escrever com sangue, mas eu entendo como um parâmetro para reforçar a ideia de que quando escrevo deixo aqui um pedaço da minha vida, e que depois não mais a mim pertence, pois passa a fazer parte do leitor.

Não existe gratidão maior para mim, quando um leitor me envia uma mensagem me agradecendo porque uma mudança em sua vida se fez presente por intermédio de um texto que escrevi. E é esse reconhecimento que o dinheiro não compra. Recebo muitas mensagens, e-mail, telefonemas, sempre de pessoas que de alguma forma foram tocadas pelas minhas palavras. E não se trata somente de elogios, recebo muitas críticas também! Ainda bem… Pois uma vez meu pai me disse uma frase que nunca mais esqueci: “Erika, a unanimidade é burra, se os seus artigos causam polêmicas, que maravilha, pois significa que não foi escrito por uma idiota!”. E foi assim que fui moldando todas as minhas características quando escrevo um artigo, e foi assim também que me aperfeiçoo cada vez mais o meu dom da escrita. Percebi que um artigo tem que ter vida, ser instigante, perturbador, pois um artigo que o leitor lê e não move uma sobrancelha é porque há algo de errado no texto. Realmente vejo que o que importa é o que permanece de um artigo, não é o que está escrito em si, mas sim o que ele repercute, o que ele faz pensar, o que ele faz sentir…Cada emoção que está embutida ali, e é repassado de tal forma que cada um sente ou entende da sua maneira. Subjetivamente.

O ato de escrever me fascina! Tenho o privilégio de escrever sozinha, e ao mesmo tempo ser lida por várias pessoas. É um controverso do “estar” sozinha e “se sentir” sozinha.

Sempre gostei de ler, leio muito, e querendo ou não acho que sofro um pouco de influência de um colunista que admiro muito, Gilberto Dimenstein, da Folha de São Paulo. Quer dizer, ex-colunista, pois ele não escreve mais pois está se dedicando a outros projetos. Dimenstein é para mim um dos maiores exemplos de articulista, ele consegue colocar as palavras ali, no lugar certo, no contexto certo, tudo num encaixe perfeito para que o leitor sinta, pare, pense e reflita sobre o que está lendo. E quando isso acontece comigo, quando recebo um feedback dos leitores dos meus artigos e vejo que estou fazendo com eles o que o Dimenstein faz comigo, eu penso que tudo valeu a pena! Ainda mais morando no Japão, do outro lado do mundo literalmente falando.

Me sinto realizada! Uma realização que vai além da realização profissional, financeira, pessoal…Mas uma realização de alma, de vida. E para mim é isso que importa.

E assim começa 2014!!

 

 

Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

 

 

Redação

Redação

nippak@nippak.com.br
Redação

Últimos posts por Redação (exibir todos)

Related Post

AKIRA SAITO: ASSUMA SUA RESPONSABILIDADE “Um ser do bem entende que suas ações trazem consequências, e que, em hipótese alguma, prejudicaria o próximo”   Atualmente na sociedade, cad...
ERIKA TAMURA: Japoneses que ajudam a comunidade br... Trabalhando na ONG, conheci japoneses que doam o tempo e o conhecimento que tem para ajudar os brasileiros que vivem no Japão. A ONG SABJA, conta c...
JORGE NAGAO: Germano Mathias Continua por Cima   A final feminina do vôlei bombava no Ibope mas resolvi zapear e parei na TV Cultura onde estava rolando um papo engraçadíssimo entre o canto...
TAIKO: Setsuo Kinoshita Taiko Group comemora 15 an...   O grupo de taiko Setsuo Kinoshita Taiko Group completa 15 anos de atividades em 2014. Para marcar a data, juntamente com o grupo Wadaiko Sho...

Faça seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *