ERIKA TAMURA: O drama de Minami Minegishi do AKB

 

Já faz algum tempo que a minha filha me chamou para ver uma notícia no telejornal japonês, mas somente agora estou tendo tempo de falar sobre o assunto.

O nome da moça em questão no noticiário é Minami Minegishi, idolatrada no país, por ser integrante de um famoso grupo musical juvenil, AKB 48 (lê-se Eikibi). No noticiário japonês vi que ela estava com a cabeça raspada e chorando pedia desculpas.

No começo eu não estava entendendo muito bem o que estava acontecendo, num primeiro instante pensei que ela estivesse se despedindo da carreira artística, mas não, a minha filha estava muito triste e quase chorando ela me disse: “Coitada dela! Infringiu uma regra e agora está assim!”.

Comecei a prestar mais atenção para entender o caso, e soube que ela fora flagrada por um fotógrafo de uma revista saindo do apartamento de um rapaz, integrante de outro grupo musical, e que havia passado a noite com ele. Até aí nada demais, são jovens, estão aproveitando a vida, mas depois a informação que vi na tevê é de que, ela por ser integrante do AKB não pode ter relacionamento com ninguém, e dedicar-se apenas ao grupo. Pois o grupo representa um tipo de fantasia que está ligado ao imaginário dos homens relacionado à pureza de suas integrantes.

Não quero criticar nada nem ninguém, mas nos dias atuais isso não me parece uma regra concebível. E confesso que ainda estou tentando entender quais critérios utilizados para o sucesso.

AKB é um grupo de muito sucesso no Japão, claro que isso movimenta muito dinheiro, e financeiramente é muito rentável, pois em todos os lugares por onde passo, vejo sempre algo do grupo, desde propagandas à produtos. Realmente um sucesso que gera muitas consequências. Mas será que o sucesso a qualquer preço é humanitário? Será que uma moça de 20 anos não pode se dar o direito de ter uma vida pessoal? É necessário mesmo regras tão rígidas? São valores que ainda não consegui entender, mas que respeito. Afinal moro no Japão, me sinto em casa, mas não sou japonesa, e mesmo estando muito tempo nesse país ainda tem alguns respaldos como esse que não aceito, apenas respeito, é o mundo deles, com a regra deles.

Minami Minegishi fora rebaixada para um grupo de aprendiz, como se fosse o grupo de acesso do AKB, visto que ela era uma das integrantes de maior destaque. Mas no vídeo em que ela apresenta a sua justificativa, ela própria diz não querer sair do grupo e que deixou o destino de sua carreira na mão dos empresários do grupo. Por isso raspou a cabeça como um ato punitivo por ela ter errado.

Conversando com um grupo de japonesas que trabalham comigo, elas destacaram que o ato de Minegishi foi corajoso e num momento de desespero, mas o que me chamou a atenção é que nenhuma das minhas colegas japonesas se mostraram indignadas, apenas falaram: “Regras são regras, e quando ela entrou pro AKB estava consciente dessas regras, então…”. E essa é a opinião da maioria dos japoneses, e eu não sei mais se isso é certo ou errado.

Na minha opinião eu não concordo com nada disso, nem com as regras que rege o grupo, nem com o lado fantasioso, nem com a atitude submissa de Minegishi…mas não estou aqui para discutir sobre isso, apenas quero mostrar o lado totalmente antagônico que diferencia o Brasil do Japão.

Culturas distintas, algumas muito qualitativas e lindas, outras nem tanto, mas de todos os jeitos exclusivos de um país chamado Japão.

 

 

 

*Erika Tamura nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

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