ERIKA TAMURA: O futuro do trabalhador brasileiro no japão

 

Sábado passado participei da reunião do conselho de cidadãos jurisdição Tóquio, onde o tema debatido foi o futuro do trabalhador brasileiro no Japão.

O conselho de cidadãos é formado por pessoas influentes líderes de expressão dentro da comunidade brasileira, presidida pelo cônsul brasileiro em Tóquio, ministro Marco Farani, tendo Arthur Muranaga, presidente da IPC TV como vice-presidente.

Achei muito proveitosa a presença de Eiji Shimada, diretor executivo da Avance Corporation, empresa responsável pela colocação da mão de obra brasileira no mercado japonês, “empreiteira” como são chamadas por aqui. Afinal, se o tema era trabalho nada mais justo que se tenha um representante com informações contundentes sobre o assunto.

A verdade é que a reunião foi muito mais teórica do que prática, mas com certeza dentro de um contexto planejado, a sua importância é de grande irrelevância pois os planejamentos e discussões fazem parte de todo um trabalho estrutural.

Ficou claro que o futuro do trabalhador brasileiro é preocupante, claro! Senão não haveria a necessidade de se formar um conselho de cidadãos. E a discussão do assunto chegou no mesmo ponto onde sempre faço questão de ressaltar: a qualificação da mão de obra. Em quase todos os meus artigos faço questão de ressaltar sobre a importância desse assunto, não somente a especialização de um trabalho segmentário, mas também o aprendizado do idioma local. E na maioria das vezes sou muito criticada, brasileiros que me condenam por eu estar falando sobre um futuro evidente e que se assim continuar será cada vez mais decadente.

Muitos brasileiros dizem para mim que não vêm problema nenhum em trabalhar em fábrica, pois é um trabalho que emana dignidade. Eu também acho! Aliás já trabalhei em fábrica, e não vejo nada de errado nisso, o problema está na incerteza do futuro, pois a mão de obra asiática está aí, está disponível e acessível ao mercado japonês, com a vantagem de ser de baixo custo.

Portanto há a necessidade sim de se começar a pensar a longo prazo, e se possível abrir a mente para novos rumos, e podendo continuar trabalhando em fábrica sim, mesmo depois de uma qualificação, mas isso por escolha própria e não por falta de opção. E outra, a partir do momento em que se trabalha onde quer que seja, mas com um diferencial a mais, a chance de se reverter o ruim para o ótimo se torna muito maior.

Digo mais, a pessoa que se prepara, que estuda e que se sobressai diante outros trabalhadores, poderá enfrentar a pior crise, que dificilmente será mandada embora.

Eu me qualifiquei, estudei para chegar no nível de pesquisadora e poder desenvolver chips, como faço hoje. Foram noites e noites acordada, estudando, mas o compensatório eu senti na pele, pois durante a crise financeira no Japão em 2008, enquanto muitos brasileiros estavam sendo demitidos, eu estava recebendo aumento, pois havia sido promovida.

A tendência para o futuro no mercado japonês é um afunilamento de exigências que quem não estiver no mínimo preparado, estará fora do mercado de trabalho. E essa falta de preparo acarreta uma soma de fatores que pode afetar muitas famílias brasileiras.

Sem contar que os brasileiros que vivem no Japão, como já disse em outro artigo, já deixaram há muito tempo de ser decasséguis e passaram a ser imigrantes, mas está caracterizado estatisticamente o envelhecimento dessa geração que na maioria das vezes não disponibiliza de um plano de previdência social, outro quadro preocupante dentro da comunidade brasileira no Japão.

Por todos esses motivos achei a iniciativa do surgimento do conselho de cidadãos muito válida, ainda está se iniciando, e espero que não pare no meio do caminho, pois a iniciativa é extraordinária e merece uma continuidade, sem contar que a comunidade necessita desse direcionamento. O mais importante é ver que o primeiro passo foi dado, portanto não estamos no mesmo lugar. Mas para essa evolução é necessário a ajuda de todos, sem o olhar crítico inicial, onde a primeira reação é de falar mal, mas sim de união de forças para o sucesso e bem estar de todos. Afinal é muito fácil reclamar do governo, ainda mais vivendo no exterior, difícil é unir vozes e fazer uma luta em coro uníssono, e fazer por iniciativa própria que as mudanças ocorram.

 

 

 

Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

 

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2 Comments

  1. Concordo plenamente com você Érika, esta necessidade de aprimoramento não é só aí no Japão, eu sou brasileiro descendente de italiano, meu pai foi um trabalhador braçal e eu também executei muitos trabalhos desde a infância, fui serralheiro dos 12 anos até os 20, mas continuei estudando e entrei no Banco do Brasil através de concurso e me aposentei como gerente geral de agência. Nada aconteceu de graça, além da Faculdade de Administração de Empresas fiz diversos cursos e de uma maneira ou de outra continuo estudando, viajando para que os horizontes sempre estejam abertos.

  2. Parabéns pela sua iniciativa Érica, de estar cada vez mais atualizada nesse processo de transição em que vem passando o Japão. Realmente os imigrantes que optaram em viver ai, tem a obrigação de se adaptarem ao sistema local, visando a concorrência no próprio sistema. Quem tem a ganhar com tudo isso não é o governo japonês e sim esse grande número de pessoas que largaram a sua pátria de origem para viverem como operários ai na terra do sol nascente. Estou na torcida por você e por todos que se empenharem, como você fez e citou, deixando que dizer que acima de todo o seu esforço, você ainda exerce o papel de mãe ai no Japão, mais uma vez lhe dou os parabéns.

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