ERIKA TAMURA: O futuro dos jovens brasileiros no japão

 

Amo morar no Japão, admiro esse país que tão bem me acolheu, adoro viver aqui, mas tenho que fazer uma observação não muito positiva do que tenho visto por aqui, a educação dos jovens brasileiros que aqui vivem.

O que tenho notado é a falta de qualificação dos jovens, e um grande despreparo para a entrada no mercado de trabalho. Alguns pais optam pela escola japonesa, e esquecem-se das raízes brasileiras, resultado: a criança não sabe falar português, e muitas vezes por falta de orientação dos pais, acabam por trabalhar em fábricas. Outros pais optam pela escola brasileira no Japão, e a criança não aprende o idioma local, tem acesso a um estudo básico, mas sem estrutura para a criança voltar ao Brasil e prestar vestibular de uma grande universidade. Resultado: jovens trabalhando em fábricas, novamente.

Não que eu seja contra o trabalho em fábrica, eu mesma já trabalhei, mas acho importante a qualificação da mão de obra, acho essencial a chance de ingresso em uma universidade, tanto no Brasil quanto no Japão. Porque jovens sonham, têm vontades, mas os sonhos começam dentro da estrutura familiar, se os pais não incentivarem para a busca de uma formação, os jovens por si só buscarão outros caminhos condizentes com a sua realidade atual, ou seja, os pais trabalham em fábricas, então o caminho natural é de que os filhos também irão trabalhar em fábrica. Mas não, isso não pode acontecer, pois a chance de se buscar uma nova realidade está aí. E por que não usar a oportunidade de estar morando fora do Brasil para agregar um diferencial em seu currículo?

E conversando com o Cônsul brasileiro da jurisdição de Tóquio, Ministro Marco Farani, vi que essa também é uma preocupação do consulado. Farani citou a importância dos estudos dos jovens da comunidade brasileira no Japão, pois ressaltou que os pais vieram ao Japão em busca de um futuro melhor, saíram do Brasil conscientes de que teriam que trabalhar em fábrica, assinaram contratos para que esse trabalho seja cumprido, o que não é certo é esse tipo de contrato se estender aos filhos, e achar normal que o legado seja hierarquicamente assim porque não é, tem que ter a oportunidade de uma nova janela.

Vivo no Japão há 16 anos, e nunca vi um cônsul tão engajado e focado no desenvolvimento da comunidade brasileira, como vejo agora. E já disse num artigo anterior e volto a ressaltar que nunca vi um consulado tão participativo como o consulado atual. Tudo obra e responsabilidade do atual Ministro, Marco Farani.

E essa minha preocupação, com os jovens brasileiros, não é uma preocupação que diz respeito somente a mim, pois vejo ONGs engajadas em projetos abordando esse tema, e a nível mundial, esse assunto me parece bem discutido, mas pouco resolvido. Tanto é que li um artigo do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, que cita um projeto de educação pública à distância, se isso realmente for viável e acessível à todos, será um grande passo para ajudar a solucionar uma parte dos problemas a que me refiro. Engajamento político muito podem ter, mas abraçar uma causa social, de cunho irrelevante é digno!

Eu levantei essa bandeira, não por querer ser socialmente digna, mas por me preocupar com o futuro dos imigrantes no Japão, pois os brasileiros já deixaram de ser decasséguis, pois a maioria optou por viver aqui, e aqueles que pretendem retornar ao Brasil, acabam passando mais tempo que o planejado em sua jornada nipônica.

Não adianta eu, o Ministro Farani, o Fernando Henrique, o papa, estarmos preocupados com o futuro dos jovens, se a própria comunidade não tiver interesse em mudar esse quadro, é uma luta que diz respeito à todos, e consequentemente trará benefícios mútuos.

Como disse o Farani, já está mais do que na hora do Japão conhecer as qualidades do povo brasileiro, e temos condições de ter um representante de expressão no cenário do Japão, tanto político, artístico, empresarial… Pois potencial para isso os brasileiros têm, falta apenas um direcionamento para isso.

 

 

 

Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

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One Comment

  1. Achei o seu artigo muito interessante, justamente por esse ser o meu maior desespero durante os anos em que vivo aqui. Desde que vim com a minha familia a minha intencao era aproveitar a oportunidade nao so financeira, mas tambem de crescimento cultural. Meus pais sempre deram muita importancia a aducacao e isso eu procuro passar para os meus filhos.
    Lidei e lido com muitos brasileiros que me falam: Eu vivo aqui no Japao a …anos e nunca precisei aprender o idioma, meus filhos tambem nao precisam aprender, prefiro eles trabalhando do meu lado.Entao nao vou colocar meu filho na escola secundaria, mesmo que ele queira
    Ou: Eu coloco o meu filho na escola brasileira porque assim posso fazer horas extras ate tarde e eles trazem em casa.
    1-Filho nao e seguro social pra serem acionados assim que fizerem 16anos. Eles nao tem obrigacao de ajudar os pais economicamente e sim o contrario.
    2-Escola nao e creche, voce nao pode sacrificar a vida futura dos filhos so porque voce quer engordar o seu salario.
    De qualquer forma, os jovens viram marionetes nas maos de pais egoistas e sao os unicos mais prejudicados, por nao adquirirem qualificacoes profissionais nem no Japao ou no Brasil.
    Isso tudo devido a mentalidade imediatista, sem visao a longo prazo. Filho de peixinho peixinho e?!
    Acho urgente encontrarmos alguma forma de educar aos pais.

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