ERIKA TAMURA: O meu retorno ao Brasil

 

Faz um mês que cheguei no Brasil, apesar dos pesares, estou amando viver por aqui. Amo o Japão, respeito muito o país que me acolheu, me deu condições profissionais e foi onde aprendi tudo, exatamente tudo o que sei hoje sobre: respeito ao próximo, educação, cultura e muito mais. Mas não tem como negar o lado bom do aconchego da família.

Sou muito criticada em fazer comparativos entre Brasil e Japão, mas é inevitável, como sou nipo-brasileira, fica difícil fugir do comparativo. Sinto uma dualidade de sentimentos, totalmente dividida…

Amo a culinária brasileira, acho que em nenhum lugar do mundo exista comida melhor. Em contrapartida, tenho dificuldade em apreciar a comida japonesa, quando estou no Japão, até como alguma coisa, mas não consigo ficar muito tempo sem um arroz com feijão.

O Japão é o país onde tudo funciona, saúde, educação, transporte público, atendimento ao cliente exemplar. Já o Brasil…

No Brasil, a teoria é ótima, mas quando a administração possui falhas no caráter, não dá para se esperar muito. O Brasil poderia ser um país com uma das melhores qualidades e vida do mundo, por exemplo a ideia do SUS é ótimo, só não funciona devido a má administração pública.

No Japão, tudo é tão rigorosamente correto que falta emoção, como disse um amigo meu.

Mas tem uma coisa que tem no Brasil e que sinto muita falta, e para mim isso faz toda a diferença, o calor humano. Já começa na forma dos brasileiros se cumprimentarem, o beijo no rosto. No Japão isso é um pouco assustador, pois os cumprimentos japoneses se restringem em baixar a cabeça.

Quando trabalhei no centro de pesquisa, as japonesas que trabalhavam comigo me perguntaram se todos os brasileiros são como eu, extrovertidos e fazem amizade com facilidade, e eu respondi que sim, é uma das nossas características principais. Até exagerei no comentário e falei que as filas do caixa do supermercado no Brasil demoram tanto que dá tempo dos clientes ficarem amigos e acabam até chamando pra um café em casa. Elas ficaram surpresas. E com essa “piadinha” que fiz, resumi bem os brasileiros nos pontos que diferenciam dos japoneses.

Os japoneses dificilmente convidam alguém para ir em casa, pode ser amigos, mas esse hábito brasileiro de convidar para tomar um café, ou posar na casa da amiga no fim de semana, isso é muito raro entre os japoneses. Não me imagino puxando conversa com um japonês na fila do supermercado, tenho certeza que se eu fizesse isso, os japoneses iam me olhar como se eu fosse uma alienígena.

Exageros a parte, as diferenças entre Brasil e Japão, não se restringem apenas nisso, se eu fosse escrever tudo, daria um livro.

A verdade é que me sinto bem no Brasil e no Japão, hoje essa divisão geográfica não existe mais para mim, pois percebi que o poder de me adaptar bem onde eu estiver é que vai determinar a minha felicidade.

Posso ser feliz em qualquer lugar do mundo, isso dependerá apenas de mim. O que contará será sempre o meu ponto de vista. Afinal pós e contras todos os lugares tem, cabe a mim decidir em que me apegar. E como eu tenho sempre muita vontade de ser feliz, eu procuro ver sempre o lado bom de tudo, reclamar não vai me levar a nenhum lugar.

E é nessa diversidade cultural que aprendo todos os dias a viver!

 

 

 

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Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

 

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