ERIKA TAMURA: Obama em Hiroshima

Semana passada, o presidente americano, Barack Obama esteve no Japão para o cumprimento de compromissos oficiais, e na ocasião aproveitou para visitar a cidade de Hiroshima.

Como todos sabem, Hiroshima foi uma das cidades atingidas pela bomba atômica durante a guerra mundial, que esse ano completou 70 anos do fatídico acontecimento.

Sob protestos e manifestações dos moradores de Hiroshima, que reivindicavam um pedido de desculpas por parte da autoridade americana, Obama chegou a cidade. Fez um discurso diplomático, enfatizando o seu posicionamento contra o uso de bombas radioativas, mas não fez um pedido formal de desculpas, frustrando muitos sobreviventes da tragédia.

Confesso que sou uma admiradora do presidente americano, pode ser até um estadista fraco, como muitos dizem, mas tem um carisma e uma humildade que me conquistaram. Mas quando visitei o museu da paz, na cidade de Hiroshima, eu não pude evitar um certo sentimento de aversão a alguns políticos americanos que estavam no poder. No museu, vi fotos dos americanos combinando as melhores estratégias de guerra, e depois li os documentos assinados pelas autoridades americanas, autorizando o uso das bombas atômicas. Triste, esse foi o que senti naquele momento. Por isso entendo o sentimento dos japoneses sobreviventes em exigir um pedido de desculpas por parte dos americanos. Mas também em contrapartida, entendo o lado do Obama em não se posicionar claramente como um estadista que estivesse disposto a fazer esse pedido formalmente. Afinal, estavam em guerra, e sempre falam que na guerra vale tudo.

Não estou defendendo a guerra, nem tampouco querendo proteger o lado americano, não é isso, acho muito errado o fato de haver guerra. Na verdade, desde criança nunca entendi muito bem porque o ser humano tem a necessidade de entrar em guerra, no meio de tantas mortes, acho que o propósito real da batalha acaba se perdendo. Mas enfim, o que quero dizer é que no meio daquela batalha armada toda, os nervos aflorados, um país teria que ganhar e evidentemente o outro teria que perder, afinal era uma guerra. E os Estados Unidos, vendo que se não agisse rapidamente e de maneira eficaz, perderiam a guerra sim, pois lutavam contra um país altamente nacionalista, e que o imperador era o Deus, e ainda mais, o Japão possuía pilotos kamikazes, não tinha como ganhar sem apelar. E eles apelaram…

E foi feio, muito feio. Foi doloroso e dói até hoje. Pois pensando historicamente, 70 anos é muito recente.

Eu estive no local das bombas. Visitei o museu. Não consegui chegar até o final do museu, parei na metade. Estava com a minha filha, pois por mais triste que seja, ela tem que conhecer a história, e como viveu no Japão, tem que sentir realmente o que aconteceu, é uma experiência a mais na vida dela. Mas quando olhei pro lado, ela estava sentada num santinho, e chorando… Me disse com lágrimas nos olhos que não queria mais continuar vendo o museu.

Realmente é um lugar com o clima pesado, o ar é denso. Apesar de ser lindo atualmente, mas quem sabe da história, sente a dor que o local carrega no ar.

Eu como descendente de japoneses, sei o estrago que a bomba atômica causou, e as consequências disso tudo. Mas mesmo assim acho que não há porque um pedido formal de desculpas. Era guerra.

O Japão também já foi um país muito abusado, no que se diz respeito a guerra. Os países vizinhos do Japão, também já sofreram muito com guerras provocadas pelos japoneses, e nem por isso o Japão fez um pedido formal de desculpas para esses países. Pois os próprios japoneses falam que era uma “guerra”.

No meu ponto de vista, que eu sei que pode estar errado, mas é o meu ponto, a visita do Obama na cidade de Hiroshima, já pode ser encarado como um pedido de desculpas. Afinal ele é o primeiro presidente americano a visitar a cidade desde a guerra. Se isso tem um lado diplomático e político? Sim, até tem! Mas tem também o lado da paz. Foi selada oficialmente a paz.

Pode não ser o que os japoneses sobreviventes da guerra queriam, mas pode ser encarado como uma atitude positiva em todos os aspectos.

E é assim que caminha a humanidade, não dá para apagar o passado, pois a mancha de sangue é enorme, mas pode se mudar o que acontece daqui para frente, se olharmos por outros prismas. São os próprios japoneses que cultuam a lenda de que as cicatrizes devem ser mostradas em sinal de superação. Existe uma lenda japonesa onde todos os objetos quebrados, deverão ser colados com ouro e prata, para ficarem bem visíveis as imperfeições. E cada um deve se orgulhar das cicatrizes que carregam pois significa que os obstáculos foram superados.

Por isso, antes de criticar, ou reivindicar algo, podemos ver por outros pontos de vista e entender que existe um lado positivo de cada situação.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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