ERIKA TAMURA: Palestra do ex cônsul Nakamae em Tóquio

Em agosto, no dia 3, fui convidada para assistir a uma palestra do Sr. Takahiro Nakamae, ex cônsul do Japão em São Paulo.

A palestra foi organizada pela Associação Central Nipo Brasileira (ACNB), e foi realizada em Tóquio.

Sr. Nakamae, atualmente assumiu no ministério das relações exteriores do Japão, o posto de diretor geral do escritório de assuntos da América Latina e Caribe.

Conheci o cônsul Nakamae (na época ainda exercia o cargo de cônsul do Japão em São Paulo) no Brasil, e a primeira surpresa que tive: o nível do português é excelente. Fiquei feliz, pois isso demonstra interesse pelo país onde está prestando serviço. A outra surpresa: o interesse pelos problemas que a comunidade brasileira no Japão tem enfrentado ao longo desses 25 anos de movimento dekassegui.

 

 

Na verdade, nunca vi nenhum representante do governo japonês com o interesse voltado especificamente nos problemas da comunidade brasileira. E Nakamae apresentou-se consciente e preocupado, pois percebeu alguns casos de retornados com problemas. Claro que não são todos os retornados, mas Nakamae, como um bom observador, se atentou a esse detalhe, querendo saber, o motivo dos problemas como depressão, abatimento, doenças, que caracterizam uma parte dos brasileiros que moravam no Japão e retornam ao Brasil.

Os motivos, creio eu que, todos que conhecem a realidade no Japão, está cansado de saber, e mesmo quem acompanha os meus artigos, tem uma noção do porquê alguns brasileiros sofrem tanto. Primeiro de tudo, no topo da lista está o não domínio do idioma, onde a pessoa passa a levar uma vida limitada e dependente de tradutores. A outra é a solidão, que agrega vários aspectos, como: Carga horária de trabalho muito puxado, a falta dos familiares, a dificuldade em se fazer amizades, a frieza dos japoneses, e por aí vai…

Quando encontrei com o Nakamae, conversamos sobre tudo isso, mas o assunto em que foi dada uma atenção especial, foi sobre a educação dos jovens brasileiros no Japão.

Eu sempre insisto em bater nessa tecla, pode parecer um assunto chato, mas temos que ter um olhar e um cuidado especial com as crianças, e apesar da frase clichê, de que elas são o futuro da humanidade, se não houver evolução, o desenvolvimento humano pode estar comprometido. E isso me preocupa e muito.

O pensamento de Nakamae vem de encontro com o meu, e a conversa fluiu de maneira com que as ideias fossem surgindo para podermos trabalhar nessa área, juntos. Como diz a outra frase clichê: “Sozinho vamos mais rápido, mas juntos vamos além.”

E admiro muito as pessoas que vão além. O japonês tem esse dom por natureza, pois culturalmente existe o “gaman” japonês, que significa aguentar as coisas ruins, pois uma hora passa. É assim que os japoneses pensam, está ruim? Faz gaman que uma hora melhora. Aprendi muito com meus filhos, pois eles iam na escola japonesa, e passavam sede no verão, fome durante o dia, mas pensavam tem que fazer gaman, daqui a pouco passa…

Por isso a história do ir além é interessante. Nakamae, exercendo o papel de Cônsul do Japão, não se contentou em apenas atuar em sua jurisdição, quis ir a fundo e realmente se preocupa com o futuro da comunidade brasileira. Poderia passar despercebido, ou tapar os olhos, mas preferiu tentar entender o que acontece de verdade, e para mim, isso é ir além do seu papel, é louvável.

Acredito que os diplomatas brasileiros no Japão, também desempenham muito bem o seu papel. Vão além…

Quando eu vejo o embaixador André Corrêa do Lago preocupado com a educação das crianças brasileiras no Japão, e visitando a comunidade para aproximar-se e entender o que acontece, é ir além do papel de embaixador. Qual consulado no mundo que oferece orientação psicológica, médica e jurídica para a sua comunidade? Só a brasileira, que eu saiba.

São exemplos como esses que devem ser compartilhados e enaltecidos. Tem que falar sim, compartilhar sim, elogiar sim. Pois é assim que se começa uma boa integração.

E o meu reencontro com Nakamae não poderia ter sido melhor, em uma palestra ministrada por ele, em Tóquio, onde eu pude ver o quanto essa pessoa gosta do Brasil.

Confesso que quando vi o tema da palestra fiquei preocupada, a economia do Brasil nos dias de hoje. E falar isso para um grupo de japoneses é complicado, pois a atual realidade política e econômica do Brasil não é muito positivamente favorável. Mas Nakamae se saiu bem, aliás se saiu muito bem! Principalmente quando ele disse que a economia brasileira não está muito boa, em função da realidade política, mas que ele tem fé e acredita que vá melhorar! Um banho de otimismo!

O outro tema da palestra foi sobre a Japan House, foi aí que entendi o verdadeiro conceito da Japan House. Não é um centro cultural, não é um local somente para os imigrantes japoneses, e sim, é para todos, sem distinção de raça, religião, sexo, todos possam vem como é o Japão atual. O Japão moderno.

Adorei participar da palestra, e espero que outros diplomatas se espelhem no exemplo de Nakamae.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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