ERIKA TAMURA: Problemas migratórios

Como todos sabem, eu trabalho em uma ONG que oferece suporte aos brasileiros que vivem no Japão.

E o carro-chefe da ONG, consiste nos trabalhos de orientações psicológicas. Temos psicólogos brasileiros, atendendo à comunidade dentro dos consulados (Nagoia, Hamamatsu e Tóquio).

A princípio, quando soube dos trabalhos dos psicólogos, achava que fosse um pouco supérfulo, ou até mesmo, imaginava que fosse um luxo totalmente desnecessário. Na minha ignorância, achava que a comunidade brasileira necessitasse de soluções mais práticas e reais, como tradução,  documentação, vistos, até mesmo uma orientação jurídica, mas nunca imaginei que um psicólogo seria o profissional requisitado dentro dos anseios  da comunidade. Tudo bem que estudei Direito e isso faz de mim uma pessoa muito mais racional do que emocional, mas trabalhando na ONG todos os dias, percebi o quão é preciso o trabalho terapeutico.

Uma vez escutei: A comunidade está doente, Erika. Mas nunca me dei conta disso.  Achava que fosse cansaço, estresse, e essas neuras cotidianas. Mas hoje eu percebo o bem que um psicólogo pode fazer na vida das pessoas que vivem aqui.

A comunidade passa por problemas típicos de um processo migratório, as inseguranças referentes à mudança de país, os pânicos causados pela dificuldade de adaptação, as dissoluções familiares devido à vários fatores, enfim, uma lista infindável de síndromes, medos e problemas causados pela repentina necessidade de adaptação. E falo isso me referindo à tantas outras imigrações ocorridas no mundo  afora. Para quem acompanhou aquela novela japonesa, que passou na NHK, HARU e NATSU, pode perceber que os anos eram outros, o ambiente era outro, os personagens eram outro,s mas os problemas relatados são os mesmos da comunidade brasileira no Japão. Assim como são os mesmos problemas de vários povos que passaram por isso.

Portanto, tudo isso que a comunidade brasileira passa, é aparentemente normal dentro do contexto histórico de povos migrantes, mas nós que estamos vivenciando isso, podemos fazer algo para amenizar tudo isso. E no âmbito possível e alcançável, tentamos fazer esse trabalho conscientemente dentro da ONG. Os psicólogos se desdobram entre aconselhamentos, orientações e palestras, para tentar minimizar as consequências que toda mudança traz.

Nâo é fácil mudar de país, de hábitos, de costumes. Mas é possível aprender.

Vejo meu avô, hoje com 96 anos, japonês e vivendo no Brasil. Ele sempre fala pra mim que é brasileiro! Ele nasceu no Japão, mas o Brasil foi o país que o acolheu e que ele ama. Ele mantém as tradições japonesas sim, mas dentro da tropicalidade brasileira. Isso é a adaptação ao meio em que vive. Quando cheguei no Japão, muitas vezes tinha vontade de largar tudo e ir embora pro Brasil, não conseguia me acostumar aqui, mas tomei como exemplo o meu avô. Pensei, já que tenho que estar aqui no Japão, vou fazer com que a minha vida aqui seja qualitativa, ou seja, terei que aprender mais sobre o país para poder entender e viver aqui, tentando me adaptar no que for possível.

Acho que consegui, afinal são 18 anos no Japão. É claro que tem alguns detalhes no qual não me encaixo de jeito nenhum, e não foi por falta de tentativa, como por exemplo a comida. Não consigo gostar de comida japonesa, mas não transformei isso num drama cotidiano, cozinho minha própria comida e pronto.

Sei que isso não significa nada perto dos problemas que alguns brasileiros passam por aqui, o índice de depressão é muito alto, e o número de suicídios tem aumentado não em vão. Isso pode ser um alerta para que não haja um desencadeamento de pessoas tristes.

Entendo perfeitamente o ritmo de trabalho exaustivo dos brasileiros, já passei por cada situação que não foi fácil, mas cada vez que me pegava triste, pensava no meu avô. Sempre alegre, e que conseguiu prosperar num país diferente do que ele nasceu.

As dicas dos psicólogos são óbvias para manter a qualidade mental de vida, como a prática de esportes, um hobby, convivência com amigos, etc, mas também reconheço que muitas vezes são difíceis de serem seguidas, devido ao cotidiano de carga horária puxada no trabalho. Torna-se um ciclo onde fica difícil quebrar para prosperar.

Vale dizer que o ano novo começou, e isso pode ser o start para uma reviravolta, e a renovação de energias e esperanças para que as coisas caminhem para o lado positivo.

Sempre sou muito criticada quando escrevo sobre isso, mas não dá para esconder a realidade e ficar falando de flores, quando o jardim está congelado. Escrevo com o intuito libertador, ao menos para mim, eu me liberto de fantasmas quando me sento na frente do computador e escrevo, horas… Esse é o meu hobby, ler e escrever, troco qualquer programa por um bom livro. E você, qual é o seu hobby?

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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