ERIKA TAMURA: Resposta ao Artigo Japonês Racista

Hoje quero usar esse espaço no jornal para mostrar a minha indignação com o artigo da Sra. Ayako Sono, em 22 de fevereiro no jornal Sankei, onde ela trata de segregação racial, com um discurso extremamente racista, Ayako Sono discorreu sobre a sua opinião.

Me pergunto se esse pensamento representa o pensamento da maioria dos japoneses. Será que o Japão é tão racista assim? Ou será apenas uma opinião isolada da maioria?

A verdade é que fica difícil acreditar que ainda haja pensamentos nesse patamar, depois de mais de 100 anos de laços de amizade entre o Brasil e o Japão.

Quero publicar aqui, a carta que o Embaixador do Brasil no Japão, André Corrêa do Lago, escreveu para o jornal The Japan Times, e publicado no dia 25 de fevereiro.

 

 

“Brasileiros, japoneses e as virtudes da integração”.

(Publicado no jornal The Japan Times, 25 de fevereiro de 2015)

 

A controvérsia em torno da coluna publicada pela Sra. Ayako Sono no jornal “Sankei”, em 11 de fevereiro corrente, é impossível de ignorar, sobretudo para nós que lidamos diariamente com o apoio a comunidades estrangeiras no Japão.

A carta enviada ao mesmo jornal pela Embaixadora da África do Sul, Mohau Pheko, recorda-nos que, no passado, a palavra “separação”, enganosamente simples, foi utilizada para justificar e descrever incontáveis violações de direitos humanos — uma prática inadmissível no século XXI.

Em 21 de fevereiro, o jornal “The Japan Times” registrou a tentativa da Sra. Sono de esclarecer sua declaração original, referindo-se às “colônias específicas para imigrantes japoneses ‘nikkei'” na América do Sul. Ela também afirmou que, no Japão, “há comunidades para imigrantes brasileiros”, onde estes vivem “separadamente por escolha própria”. Trata-se de uma distorção das experiências tanto dos japoneses no Brasil, quanto dos brasileiros no Japão.

Há mais de 100 anos, quando os imigrantes japoneses começaram a chegar ao Brasil, estes concentraram-se em algumas cidades ou bairros onde havia maiores oportunidades.

No entanto, os imigrantes japoneses gradualmente se espalharam pelo País, absorveram a cultura brasileira, se casaram e tiveram filhos com outros brasileiros. Em suma, foram integrados à sociedade brasileira, sem ter de abdicar da cultura de seus ancestrais. Os japoneses e outros imigrantes ajudaram a fazer do Brasil uma sociedade genuinamente multicultural, onde estrangeiros podem tornar- se 100% brasileiros, ao mesmo tempo em que preservam o legado de suas origens.

Hoje, os mais de 1,5 milhão de descendentes de japoneses no Brasil são membros bem-sucedidos da sociedade – inteiramente brasileiros e orgulhosos de suas raízes nipônicas. Os imigrantes japoneses vieram ao Brasil para trabalhar como mão-de-obra agrícola; seu esforço e integração na sociedade brasileira permitiram que seus filhos se tornassem engenheiros, artistas, médicos, funcionários públicos e empresários.

Descendentes de japoneses representam 12% dos alunos da Universidade de São Paulo, a mais conceituada universidade do Brasil. Como sociedade, sempre buscamos integrar, da melhor forma possível, todos aqueles que vivem em nosso país. Tais esforços continuam a influir na política do governo, por exemplo, por meio do importante trabalho da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

De sua parte, os mais de 175 mil brasileiros que hoje vivem no Japão, em sua maioria descendentes de japoneses, não vivem “separadamente por escolha própria”. Vieram a este país esperando as mesmas oportunidades e abertura encontradas pelos imigrantes japoneses no Brasil. A maioria veio ao Japão com vistos de trabalho, com a expectativa de permanecer alguns anos para então regressar ao Brasil. No entanto, com o passar do tempo, muitos desenvolveram profundos laços com o Japão, formando famílias e estabelecendo negócios aqui.

Apesar de vários obstáculos, esses brasileiros buscam plena integração em uma sociedade que passaram a admirar. Não querem viver separadamente da sociedade japonesa, mas a ela se juntar e contribuir. Muitos trabalham para ajudar a integrar esses brasileiros – não só nossos Consulados em Tóquio, Nagóia e Hamamatsu, mas
também parceiros japoneses nos governos nacional e locais, na sociedade civil e na comunidade empresarial.

Para todos aqueles envolvidos nesses esforços, uma coisa está clara: o Japão está diante de uma oportunidade única para desfrutar dos talentos, da cultura e dos esforços dos brasileiros que aqui vivem. Esperamos e acreditamos que o Japão irá aproveitar essa oportunidade para fortalecer seu futuro, integrando os estrangeiros e rejeitando vozes que defendem a “separação”.

André Corrêa do Lago é Embaixador do Brasil no Japão”

 

Sem mais, afinal, o Embaixador disse tudo! E realmente me deixa muito feliz, ver que o Brasil está muito bem representado no Japão, e que a Embaixada não se calou diante o artigo de Ayako Sono.

 


 

Erika-Tamura

Erika Tamura

nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

 

 

 

 

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