ERIKA TAMURA: Ser Dekassegui

Acabei de ler uma postagem na internet, da colunista Ana Shudo, onde ela posta um vídeo sobre o trabalho de nepalenses nas minas de carvão da Índia. E ela indignada cita sobre as condições desse tipo de trabalho, fazendo referencia inclusive ao salário.

Esse fato nos remete aos anos 80, onde se deu o início do movimento dekassegui. A comparação pode não ser tão extremista assim, como no caso dos nepalenses, mas existe um fator comum: a execução do trabalho onde há os 3K, Kiken (perigoso), kitsui (pesado) e kitanai (sujo).

Quando começou a demanda de brasileiros para o Japão, era assim, para cobrir os serviços que os japoneses não queriam se submeter. Mas hoje em dia tudo esta diferente, ainda bem, existem os trabalhos pesados, perigosos e sujos sim, mas graças aos esforços dos trabalhadores brasileiros, muitos conseguiram subir no patamar profissional. Na minha opinião, os brasileiros ainda podem ir além. Podem alcançar novos cargos, pois competência para isso todos tem, o que falta as vezes e a força de vontade.

Esse vídeo que a Ana Shudo postou, serve de alerta não só pela indignação das condições trabalhistas veemente, mas também para destacar a importância em não se esquecer do inicio do movimento dekassegui no Japão, destacando a grande forca dos primeiros brasileiros que chegaram em terras japonesas, passando por dificuldades diversas, a diferença é que naquela época o salário era maior, hoje em dia, devido a sucessivas crises econômicas, alem de outros fatores, como uma maior oferta da mão de obra, o salário caiu e pelo que percebo, sem condições para um reajuste para mais.

Fico indignada quando alguns brasileiros insistem em reclamar da vida no Japão, nos dias atuais. Acho ate que a pessoa não passou por nenhuma dificuldade no Japão. Eu cheguei no Japão, 15 anos após o inicio do movimento dekassegui, muita coisa já havia evoluído, mas mesmo assim, ainda passei por alguns obstáculos devido o idioma, o clima, a diferença cultural, e ainda, com um bebe de colo. Mas consegui superar tudo isso.

Atualmente, no Japão, nas cidades com grandes concentrações de brasileiros, há a disposição de tradutores em prefeituras, escolas, hospitais, bancos, etc, e isso não é uma obrigação do governo japonês, pois o normal seria que todos aprendessem o idioma local, o que não acontece com tanta frequência assim, por isso digo que ainda da para alçar novos degraus dentro do patamar trabalhista e deixar de vez para trás a imagem de que brasileiro só serve para trabalhos que os japoneses não querem fazer. Estudando um pouco já da para competir vagas de emprego com os próprios japoneses.

O que não pode nunca, jamais é ficar reclamando das condições de um trabalho desfavorável, sem se esforçar para melhorar esse quadro.
Depende de cada um e da forca de vontade de cada pessoa para que haja uma mudança. E hoje, cada vez mais o termo “dekasseki” esta sendo deixado para trás e a palavra mais condizente atualmente seria imigrante.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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