ERIKA TAMURA: Shinzo Abe, primeiro ministro japonês em declínio

Não é só o Brasil que tem o seu presidente nas manchetes de notícias, por conta de escândalos políticos.

No Japão, o primeiro ministro Abe, está sofrendo uma sabatinada interrogatória, numa sessão extra do parlamento japonês.

Há indícios de que o premiê japonês favoreceu o seu amigo de infância, que é diretor de uma organização educacional, utilizando-se da sua posição política para autorizar os planos do amigo, que entre outras coisas, envolve a abertura de uma escola veterinária.

O partido de oposição, demonstrou grande interesse no assunto, e fez questão de pegar pesado, afinal, Abe era considerado inatingível, e agora vê o seu mandato frágil por conta dessas denúncias.

Na segunda e terça feira dessa semana, as emissoras de tevê japonesas só falaram sobre Shinzo Abe, a sessão extra do congresso japonês foi transmitida ao vivo para todo o país.

Sei que não deveria, mas vou fazer um comparativo com a realidade política do Brasil. Perto do que os políticos brasileiros fazem, a denúncia cabível ao Abe, é bobagem… Mas não para os japoneses.

Moro num país onde qualquer tipo de atitude suspeita, cabe uma investigação. E a comprovada ilicitude, tem punição. E paradoxalmente, venho de um país onde a impunidade impera no meio corrupto, e pior ainda, o povo brasileiro está perdendo a capacidade da indignação. Roubar, levar vantagem, pagar e receber propinas, já está tão enraizado no cotidiano dos brasileiros que tudo é tratado de forma natural, e isso não pode acontecer.

Aqui no Japão, o que é errado, é errado e ponto, não importa a proporção do ato, e sim o ato em si. Ninguém menos que o primeiro ministro está sendo interrogado, por ter privilegiado um amigo, o que muitos podem dizer, mas é só por isso? Algo tão irrisório! Pode ser irrisório, mas é um ato ilícito, e os japoneses vêem assim.

Eu sempre digo aos meus amigos no Brasil, aqui no Japão existe uma rigorosidade diária, e uma pressão cotidiana, onde nós temos que provar que somos bons todos os dias, o que fizemos ontem de excelente, ficou para ontem, hoje é um outro dia. Por esse motivo eu subscrevi uma frase de Aristoteles, que define o cotidiano no Japão, não somente na política, mas também em empresas e escolas:  “Excelência não é um ato, é um hábito!”. Esse pensamento serve como uma luva para descrever o momento do primeiro ministro japonês. Do que adiantou fazer um governo excelente, com dois mandatos nas costas, e querendo buscar um terceiro, se com um ato coloca-se tudo a perder…

Sempre fui uma admiradora do Abe, e nunca escondi isso de ninguém, continuo sendo, o deslize pelo qual está sendo acusado, não compromete o que ele fez de bom no governo japonês. Não vou defende-lo, mesmo porque se fez algo errado, tem que pagar e ainda, arcar com todas as consequências.

Abe nega todas as acusações, alegando que apenas procurou realizar reformas no setor educacional, negando qualquer atitude que favorecesse o amigo, e em hipótese nenhuma usou de sua posição privilegiada. E a oposição então, disse sobre o fato do Abe ter saído para jantar e jogar golfe com o amigo, onde tiveram a seguinte resposta: “Sim, fui jantar e jogar golfe com ele, somos amigos. Mas não forcei nada, nem ninguém em favorecimento dele.”

Com esse escândalo todo, o resultado é a baixa nas pesquisas de opinião pública. Na próxima semana, Abe deverá reorganizar o seu governo.

Se ele vai sair dessa? Não sei, e nem imagino como isso vai acabar, a única coisa que sei, é que eu não gostaria de estar na pele dele…

A verdade é que, mesmo com toda essa instabilidade política que ronda o Japão, a economia não é afetada diretamente e nem significativamente, pode ser que tenha algumas alterações económicas em torno de especulações financeiras, mas nada que interfira no andamento econômico e social do país, pelo menos por enquanto. Diferente do Brasil, pude comprovar com meus próprios olhos, que existe uma crise econômica grave, o desemprego vem assolando diversas famílias, e o governo está degringolando o país.

Estou atenta aos acontecimentos aqui e lá, e com uma antena nos Estados Unidos também, que tem um presidente que não possui uma aceitação unânime. No fim, num apanhado geral, todos os países tem algum tipo de problema com o seu governante, e cada povo lida com isso a sua maneira. Afinal, a unanimidade é burra.

Mas pelo que vi, o presidente brasileiro está quase conseguindo uma unanimidade. Negativa! As últimas pesquisas apontaram 94% de rejeição com o atual governo, é isso mesmo?

Juro que sempre tive uma esperança no Brasil, mas está cada vez mais difícil de manter essa chama da esperança acesa. Espero realmente que o Brasil saia da crise, pois esse movimento pela liberação do visto para yonseis virem trabalhar no japão, é só reflexo da atual situação do Brasil, afinal, ninguém em sã consciência sairia do seu próprio país se tudo estivesse bem. Se existe esse movimento tão aflorado, é porque algo não vai bem…

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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