ERIKA TAMURA: Tadokoro e os trens

Semana passada escrevi um artigo com o tema: Brasileiros de destaque no Japão. Mas cometi um erro quando citei a empresa do Sr. Tadokoro.

 

De camisa branca, Tomio Tadokoro, Bruno Murai, o mais alto E os outros dois, funcionários brasileiros (foto.divulgação)

De camisa branca, Tomio Tadokoro, Bruno Murai, o mais alto
E os outros dois, funcionários brasileiros (foto.divulgação)

 

No texto referi-me a Tadokoro Kogyo, como uma empresa que constrói os trilhos do trem bala no Japão, e não é isso, a empresa do Tadokoro constrói os trens balas, os famosos shinkansen japoneses são feitos por uma empresa no qual o seu presidente é um brasileiro.

Esse erro que cometi no artigo passado, me abriu uma excelente oportunidade, pois colocaram-me em contato com o próprio Tadokoro, e assim, surgiu a oportunidade em conhecer as instalações da sua empresa, bem como se ter uma idéia do processo de fabricação.

De todas as empresas que participam do processo de construção dos trens, a empresa do Tadokoro é a quarta maior, e a única que fabrica as peças e as instalam.

O quadro de funcionários conta com mais ou menos 60 pessoas, onde metade é brasileiro.

Tomio Tadokoro é brasileiro, e começou trabalhando no Japão nessa mesma área, montando os vagões dos trens, pondo a mão na massa mesmo, como os seus funcionários trabalham. E hoje, é um dos brasileiros que tem se destacado na área empresarial, cresceu muito nos últimos dois anos, e com planos para crescer ainda mais.

Olhem só como um erro meu, me proporcionou conhecer um lugar que jamais poderia imaginar, a fábrica dos shinkansens. Fiquei impressionada, não só pelo lugar em si, mas pela história do Tadokoro.

Começou a empresa, praticamente do zero, e em sua bagagem constava seus amplos conhecimentos que ele foi absorvendo trabalhando duro ali. Ele transformou seus conhecimentos em empresa, e hoje isso é o seu ganha-pão. Enquanto Tadokoro narrava sua trajetória, eu percebi ali um diferencial, ele tem visão, é arrojado, audacioso e inteligente claro. As vezes, ele próprio não se dê conta disso, mas é um brasileiro que está fazendo história no Japão.

Durante a minha visita nos galpões, eu vi os detalhes minuciosos, e ele sabe onde vai cada parafuso. E um grande líder só consegue respeito dos seus subordinados se provar que sabe exatamente o que está sendo cobrado. O mundo é assim… E Tadokoro sabe, por isso tem total supremacia em cobrar trabalho duro dos seus funcionários.

Outra surpresa boa, e que vale a pena falar no artigo, o engenheiro que projeta as peças da empresa do Tadokoro é brasileiro. Bruno Murai, que estudou no Japão e fez faculdade de engenharia em Kanagawa. Hoje, Bruno é o responsável pelos projetos em 3D da empresa, um trabalho super específico e tecnológico.

Aliás, impossível falar de Japão, trem bala e não associar o pensamento a alta tecnologia.

E muitas vezes temos a ideia de que por trás de tanta tecnologia estão japoneses bitolados, no caso da empresa do Tadokoro não é bem assim, tem o Bruno.

Todo esse bate-papo com o Tadokoro me fez ver que as oportunidades não podem ser desperdiçadas. Elas estão em todos os cantos e dando a maior brecha, mas só quem tiver preparado irá agarra-la. A perspicácia faz parte do desenvolvimento social. Não podemos contar isso como sorte, eu odeio quando alguém quer me elogiar e diz que tenho sorte. Como assim, sorte? As madrugadas acordada, estudando, ninguém vê! As diversões com os amigos foram deixadas de lado para eu trabalhar mais, e ainda as pessoas acham que tenho sorte?! Com o Tadokoro eu vi que é a mesma coisa, são horas e horas de trabalho, o foco no trabalho, e agora que a empresa vem em uma crescente ascendência alguém falar que isso é sorte, soa como ofensa.

Tadokoro deu uma dica para o sucesso: “Todo mundo procura um serviço que dá dinheiro, mas eu não, vou pro lado que não dá dinheiro, e consequentemente ninguém quer, então eu trabalho em cima disso, para fazer ela dar dinheiro. E assim estou indo…”.

Ele ainda ressalta que não existe crise, a demanda só aumenta. E aí caímos num ponto onde eu sempre falo, e chego a ser chata nesse assunto, mas não tem como fugir disso, quem quer fugir de qualquer crise, precisa estudar, se qualificar, se preparar. Eu, assim como Tadokoro, também não senti a crise de 2008, pelo contrário, fui promovida e recebi aumento salarial, enquanto muitos brasileiros estavam desempregados.

Portanto, quando eu digo que aprender o japonês não é luxo, é necessidade, não falo em vão. Se quisermos resultados diferentes, temos que agir diferente, por que não começar pelo básico e óbvio, que é aprender japonês.

Gostaria muito que, na comunidade brasileira que vive no Japão, aparecesse muitos Tadokoros, muitos Brunos, para servirmos de parâmetros para o próprio povo japonês. Mas enquanto isso não acontece, Tomio Tadokoro fica como exemplo para todos nós.

 

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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    2 Comments

    1. Ma is um palhaco Aquino no japao

    2. Ainda não tiraram essa reportagem, esse Tadokoro deu calote em um monte de gente.meu pai perdeu tudo.Aff Mo furada

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