ERIKA TAMURA: Tatomi Minami Shogakko, a escola japonesa que ensina português.

Semana passada, fui convidada para uma palestra em uma escola na província de Yamanashi.
Aceitei. Pensei que seria em uma escola brasileira, mas para minha surpresa tratava-se de uma escola japonesa que mantém em sua grade curricular, aulas de português para todos os alunos em geral.
O convite partiu da professora Aloma Morikochi, responsável pelas aulas de português. A escola chama-se Tatomi Minami Shogakko, do ensino fundamental.
Fui muito bem recebida pelo diretor Shimizu, aproveitei para conhecer a escola e assistirà uma aula de português da professora Aloma.
E o que eu presenciei, me emcionou muito! Jamais passou pela minha cabeça que uma escola pública japonesa, tivesse aulas de português em seu currículo! E o mais espetacular que vi, foi o interesse dos alunos em aprender. Todos os alunos têm um alto grau de participação durante a aula, que é totalmente interativa.
Conversando com o diretor e a professora Aloma, entendi que essa ideia das aulas de português, vai além do ensino linguístico em si. Ele serve para acabar com qualquer tipo de barreira preconceituosa dentro da escola.
As crianças não sabem o que é racismo, elas reproduzem o que aprendem em casa, não têm muita noção de qualquer tipo de maldade. Ás vezes o bullying pode começar por brincadeira, mas carrega uma consequência devastadora para quem o sofre. Portanto, a atitude da escola é louvável, fazendo com que a língua portuguesa seja valorizada, a princípio dentro da sala de aula, mas depois carregando isso para dentro do desenvolvimento humano.
O que se aprende quando se é criança, é marcante. E todos carregam isso para sempre, independente de ser uma experiência boa ou não. Fica tudo intrínseco na personalidade.
O fato da escola japonesa ter aulas de língua portuguesa curricular, pode ser considerado um detalhe banal, ou passar por algo no máximo interessante. Mas posso garantir que tem um significado muito maior. Acaba sendo um aliado para ajudar na integração dos alunos estrangeiros na sociedade japonesa. E essa é uma bandeira que carrego com afinco. Para haver integração social, tem que se lutar bilateralmente. Não adianta o brasileiro corresponder à todas as expectativas sociais, culturais e intelectuais, se os japoneses não tiverem vontade de que haja essa integração. Costumo dizer que a aceitação japonesa é muito difícil e lenta, mas quando se tem a oportunidade de se mostrar a cultura brasileira para os japoneses, tudo fica mais fácil.
O trabalho dessa escola em Yamanashi, é  a longo prazo. Os resultados super benéficos não serão vistos de imediato, mas no futuro, quando essas crinças crescerem, vão se lembrar das aulas de português e consequentemente do Brasil com um certo carinho. Mas já pude sentir alguns efeitos a curto prazo, almocei com os alunos do primeiro ano, ou seja, são alunos de 6 anos de idade. E me diverti! A minha presença já gerou uma certa curiosidade em todos, e apesar da minha cara japonesa, o fato de eu ser brasileira, fez com que as crianças me enchessem de perguntas. E ainda me pediram para conversar em português com elas, pois elas achavam uma língua muito bonita. Sem contar que as crianças queriam mostrar que sabem algumas palavras em português, e estão dispostas a aprenderem mais. Achei o máximo!
A escola conta hoje com 21 alunos estrangeiros, sendo 13 brasileiros. Já foi muito maior esse número, mas atualmente são esses os números. E de todos os alunos brasileiros que ali estão, não tem nenhum com dificuldade de integração. Até mesmo os que chegaram recentemente, não apresentam nenhum tipo de problema no acompanhamento escolar. As aulas de reforço para alunos estrangeiros são extracurriculares.
Portanto os alunos não são tirados da sala de aula para irem à uma classe especial de japonês, como acontece em outras escolas.
Sempre criei os meus filhos em duas escolas, japonesa e brasileira. Eu sei o quão difícil isso é, mas sei que a consequência é gratificante. Nunca desfiz do nosso idioma, pois acho que eles como brasileiros, devem manter a língua portuguesa como língua materna.
Acabei passando esses valores para os meus filhos também. Tanto é que a minha filha, quando começou a frequentar a escola japonesa, criou um mecanismo de auto defesa para não sofrer bullying. Um menino japonês veio tirar o sarro dela, apontou o dedo na cara dela e gritava: Gaijin, gaijin!! (estrangeiro, mas de uma forma pejorativa), e ela respondeu: Sou mesmo, e daí? Pelo menos eu sei duas línguas e você? Quem é o burro aqui? Tudo o que você falar eu vou entender, mas se eu falar português, você não vai entender. Então, prefiro ser gaijin do que burro!.
Foi assim, que aprendi com a minha filha, a ser forte. E comecei a ver que na cabeça dela, o fato dela ser brasileira é na verdade, um motivo de orgulho. Por isso, que para ela, era importante o fato dela ajudar na escola. Ela fazia traduções, e ganhou vários certificados com isso.
À partir daí, eu comecei a falar para todos os brasileiros, que eles precisam se dar valor. Ninguém é menos que japonês, somente pelo fato de ser brasileiro. Muito pelo contrário, temos uma cultura a mais para mostrar, e é essa troca cultural que acho que tem que ser valorizada, em todos os aspectos. O brasileiro tem um potencial humano super desenvolvido, em contrapartida, o japonês é mais reprimido. Mas os japoneses têm uma disciplina que pode ser ensinada aos brasileiros. O maior vencedor nisso tudo, não é o mais inteligente ou o mais capacitado, e sim, aquele que souber se adaptar melhor no meio em que vive.
Portanto, quero deixar aqui a minha palavra de admiração por essa escola que, com certeza, faz a diferença na vida dos seus alunos.
E lembrando que, a palestra ministrada na escola foi com o professor Daisuke Onuki, mas quero dedicar um artigo especialmente para esse tema da palestra proferida, na próxima coluna.

 

 

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
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    2 Comments

    1. Prezados Senhores(as),

      Solicito; com toda educação, o envio de um e-mail específico ao qual eu possa entrar em contato alguns meses a frente.

      Obrigado pela atenção dispensada à esta mensagem.

      Fernando Tavares
      ww.tavarestraducoes.com.br

      cadmet@bol.com.br

      Obs. Procurei por um e-mail de contato junto ao portal nikkei, mas não achei. Peço POR GENTILEZA QUE ME ENVIE UM E-MAIL de contato com o diretor deste portal. Muito Obrigado.

    2. da silva antonio dias says:

      gostei e amei erika, morei e trabalhei em yamanhashi na fabrica de alementos shatoreizi(não sei se esta certo a escrita) e os japoneses por não conhecerem a cultura e o idioma brasileiro, discriminam muitos brasileiros, mas apesar de tudo eu amo e sempre vou admirar o povo e a cultura japonesa, pois graças a oportunidade de trabalhar e conviver com esse pais e que eu conquistei bens que eu trabalhando no brasil jamais conseguiria ter e tambem cresci como cidadão, que Deus proteja sempre sua familia e o povo japones. obrigado a todos.

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