ERIKA TAMURA: UFC no Japão

 

Domingo passado, o Japão sediou o UFC em Saitama. E a grande luta da noite foi com Wanderlei Silva x Brian Stann.

O público japonês adora assistir lutas, uma prova disso é o extinto Pride, onde todas as lutas eram recordes de público e audiência. Com UFC não é diferente, estavam todos ansiosos por esse acontecimento. Ainda mais com a presença de Wanderlei Silva no octógono. É visível a reciprocidade de sentimentos que une o povo japonês e Wanderlei Silva, este inclusive comentou, que se sente feliz vindo ao Japão, pois aqui se sente jovem. E o público japonês o adora.

Na segunda feira, o comentário foi geral, onde trabalho todos falando do Wanderlei Silva e sua vitória por nocaute. Uns falavam que era a técnica, outros diziam que o talento de Silva fez a diferença. A verdade é que independente do que for, é um brasileiro que está ali no topo. Um brasileiro que mais uma vez demonstrou toda sua raça para se sobressair e vencer bravamente o adversário.

Na verdade, o gosto dos japoneses pelas lutas, envolve muito mais que os socos e pancadas, os japoneses sabem que por trás de cada luta, existe uma filosofia, por trás de cada golpe, existe o respeito ao adversário.
E conversando com meu amigo Kurahara, ou simplesmente Kura, que é como eu o chamo, cheguei a conclusão que realmente as lutas marciais envolvem sentimentos. Logo que começou a lutar, Kura se apaixonou pelo esporte e começou a treinar sem uma obrigatoriedade para isso, e sim porque realmente gosta.

 

 

E acredito que o segredo de todo vencedor, não só no esporte, mas em todas as áreas é fazer aquilo que realmente lhes dá prazer.

Kura tem 32 anos, e há 6 anos dá aula de Jiu Jitsu para brasileiros e japoneses na cidade de Joso em Ibaraki. E à 3 anos atrás, após muitas lutas, tropeços e vitórias, Kura conseguiu montar a sua própria academia em terras nipônicas, o que comprova a determinação de um grande lutador. A Vastus Academia, é muito bem estruturada, e conta não somente com aulas de jiu jitsu, mas também musculação, muay thai e o trabalho de acompanhamento de personal trainers. O que isso significa? Para Kura, ser proprietário de uma academia é uma grande vitória! E para os amigos como eu, motivo de orgulho. Afinal, Kura veio para o Japão, trabalhou em fábrica e hoje é lutador e empresário bem sucedido.

Acho a filosofia das lutas marciais de muita sapiência, e quem realmente as pratica, sabe que a filosofia se emprega não somente nas lutas, mas cabe perfeitamente no dia a dia.

O corpo dos lutadores impressionam pelo tamanho, pela musculatura, mas o que mais aprecio em um lutador é a sua cabeça. Os melhores lutadores são pessoas zen, incapazes de profanar o mal, mas sim com uma força monstruosa para praticar o bem. Logo que terminou a luta, Wanderlei Silva cumprimentou seu adversário e disse que não o odeia, pois ele não tem ódio, eles são tão somente adversários, isso não significa que ele deva trata-lo mal e sim respeitá-lo! Acho que não preciso explicar nada, pois Silva disse tudo e com poucas palavras deu uma lição de vida.

Para quem acha que lutas, UFC, Jiu Jitsu é violento demais, é porque não conhece o verdadeiro valor profanado dentro da filosofia do esporte. Eu convivi a minha vida toda com essas frases, pois meu pai é sensei de judô, confesso que quando criança não entendia muito bem a importância de tudo isso, mas depois e até hoje percebo como cada ideia e frase encaixa certinho no cotidiano e nas adversidades da vida.

E na minha opinião, acho muito mais violento uma criança pedindo esmola na rua para se drogar do que uma luta do Wanderlei Silva.

 

 

 

*Erika Tamura nasceu em Araçatuba e há 15 anos mora no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

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One Comment

  1. Ótima matéria Erika !!

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