ERIKA TAMURA: Violência doméstica

Essa semana fui convidada para assistir uma palestra da Elisa Sato, na JICA de Yokohama. A Elisa é tradutora na província de Gifu, e presta assistência aos brasileiros que lá residem. A
palestra foi uma iniciativa do Kaigai Nikkeyjin Kiokai, e contou com outros palestrantes como o advogado Dr. Masato Ninomiya e a psicóloga japonesa Dra Hiroko Tsuchiya.

Vou falar sobre a palestra da Elisa, por ela ter tocado num tema muito delicado: a violência doméstica. É difícil de acreditar que em pleno ano de 2017, ainda temos casos recorrentes desse mal,
e o pior, foi constatado que esse número vem aumentando dentro da comunidade brasileira no Japão.

Conversando com a Elisa, percebemos que a violência doméstica, estatisticamente falando, é mais complicado de lidar, pois os números reais não aparecem em dados oficiais, pois geralmente a vítima procura ajuda alegando outros problemas como a depressão, mas com o desenrolar da conversa, descobre-se que o que está por trás é a violência doméstica.

Se esse tema já é difícil no Brasil, onde existem leis e delegacias especiais para o caso, imaginem no Japão, onde é um país culturalmente machista, e ainda existe o problema do idioma para a
maioria da comunidade brasileira aqui.

Muitas vezes, as mulheres aqui no Japão, e não falo somente das brasileiras, suportam um ambiente e um cotidiano de violência doméstica, por não saberem como agir. As brasileiras,
além do fator da comunicação ainda se deparam com a dependência financeira, pois aqui no Japão ainda existe a diferença salarial entre homens e mulheres.

Existem casos em que a mulher não trabalha, e depende integralmente do cônjuge, e aí acontece a submissão, um dos fatores da dificuldade em se buscar ajuda.

Eu particularmente, acho muito difícil ajudar as vítimas de violência doméstica, pois em 90% dos casos, a vítima acaba se reconciliando com o agressor, e aí cessam todas as ajudas para mudar
o quadro.

A verdade é que o Japão ainda não está preparado para a realidade atual, sei de casos onde vítimas de agressão procuram a polícia, e são tratadas com desdém, o que torna a situação humilhante.
Mas existe um setor de cada prefeitura no Japão que cuida do assunto, onde é fornecido moradia e auxílio para as vítimas.

Falando assim, vemos uma realidade assustadora, e é. Quando comecei a frequentar esses seminários, e a lidar com esses problemas, confesso que, passei uns dias fora do ar, foi um choque
de realidade, pois não imaginava esse quadro. Sabia que existiam problemas na comunidade brasileira, relacionados a adaptação, idioma, estresse, cansaço, mas não imaginei que chegasse
no ponto extremo.

E digo mais, se a violência doméstica preocupa, o que dizer então dos abusos infantis? As mulheres ainda que numa situação desfavorável, consegue buscar ajuda, mas e as crianças?

Sinceramente, conversando com a psicóloga do Consulado do Brasil em Nagoia, Norika Jo, percebemos que a comunidade está doente.

Analisando todos esses fatos, com os números, e conversando com os especialistas da linha de frente, aqueles que atuam diretamente no atendimento as vítimas, confesso que comecei
a refletir sobre a minha vida.

Me deu vontade de escrever uma carta para os meus filhos, nessa carta gostaria de constar o quão eles são importantes na minha vida, embora o cotidiano tenha sido tão corrido conosco
algumas vezes, nunca faltou amor. E tudo o que faço é pensando no bem deles. Achei redundante escrever isso, pois é óbvio que toda mãe age pensando no bem estar do filho, certo? Errado!
Depois que me deparei com alguns casos de violência doméstica e abuso infantil, vi que existem pais que não merecem serem chamados de pais.

Em casa sempre fomos unidos, e mesmo estando longe somos unidos. Existem familiares que moram juntos mas estão tão distantes que não parece família, mas também existem os que
estão distantes, mas tão próximos que a distância geográfica desaparece.

Esse é um tema real, que de fato existe, mas que infelizmente não aparece em dados estatísticos e também um tabu, onde ninguém fala, mesmo que vivam isso no dia a dia.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

Últimos posts por ERIKA TAMURA (exibir todos)

    photo1

    Related Post

    JORGE NAGAO: “ÁGUANIA”   Paulo Massato Yoshimoto, diretor da Sabesp: "Nossa engenharia está correndo contra o relógio" (Divulgação) Do site da veja.abril.com.br ...
    AKIRA SAITO: BUSHIDO 4 – MAKOTO   “A vida de um homem só tem real valor se seus atos forem dignos de uma verdade suprema”   Um Samurai tinha em sua convicção que a jus...
    JORGE NAGAO: Você é um Nikkei se: Juliana Higa, Andrea Kurihara, Karina Nakahara, Jéssica Aoki e Jacqueline Sato ("missigenação")Vanessa Maeji/NJ | Fotos: Divulgação e Arquivo Pessoal...
    JORGE NAGAO: Ruas da Liberdade e poema Ruas da Liberdade I A maioria das pessoas que circula pelo bairro oriental não tem a mínima ideia da origem do nome das ruas. Curioso, fiz esta ...

    One Comment

    1. Triste saber que existem problemas graves assim no Japão, Erika Tamura san! Desejo de coração que tenham soluções adequados!!!

    Faça seu comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *