ERIKA TAMURA: Visto para yonsei

Recebo muitas mensagens de pessoas pedindo a minha opinião sobre o visto para yonsei (quarta geração de descendentes de  japoneses).

Toda a polêmica que envolve o assunto é porque o Japão não libera o visto de trabalho para yonsei.

Muitos desses descendentes me escrevem indignados com essa regra japonesa, querem fazer um estardalhaço no Brasil para tentar mudar essa realidade.

E  olhando a grosso modo, o Japão necessita sim de mão de obras, aliás, necessita muito. Então por que não aceitar essa mão de obra vinda de descendentes de japoneses da quarta geração? Sinceramente não sei a resposta, mas o que sei e por experiência própria é que aqui no Japão regras são regras, e cabe a nós segui-las e não questiona-las. Dificilmente os japoneses aceitam sentar para conversar, pensar e mudar a realidade.

O que eu acho, sinceramente é que independente de ser yonsei, sansei, nisei, o Japão deveria pensar em mão de obra qualificada. Ou seja, tem muitos yonseis que estudaram no Japão, são fluentes em japonês mas tiveram que ir embora pois completando a maioridade, não têm mais o visto japonês. Assim como tem muitos niseis (da segunda geração) que não falam e nem entendem nada do idioma japonês, mas pelo simples fato de serem niseis, possuem privilégios que não são dado igualmente à todos. Portanto está na hora de acabar com essa ideia de que gerações, misturas sanguineas e sobrenomes encabecem as regras ditadas pelos japoneses que parecem viver na era feudal.

Falo isso porque vivo isso dentro de casa, meus filhos são yonsei, mas estudaram no Japão, são fluentes nos dois idiomas, têm gostos japoneses e possuem características japonesas, mas não têm direito ao visto japonês. Na verdade, eu sinto um certo alívio, pois eles voltaram ao Brasil para dar continuidade aos estudos, e eu como mãe não gostaria de vê-los trabalhando numa fábrica. Não por preconceito, nem por indignidade, muito pelo contrário, como já passei por isso, não quero que eles passem também. Quero um futuro melhor para os meus filhos, e acho que não estou errada nisso, todos os pais sonham com um futuro promissor para seus filhos.

Meu filho já manifestou a vontade de vir ao Japão para trabalhar, e eu respondi que não, uma que não tem visto e outra que ele tem que estudar. Mediante a situação não tem como ele reclamar, nem ao menos tentar vir sorrateiramente, não dá, o Japão não permite. Se ele quiser, terá que prestar uma prova esecial e tentar vir como bolsista, pois para estudantes , independe o fato da descendência japonesa.

Falo sempre que os filhos têm que ser mais que os pais, então tem que se andar para frente, não dá para dar um passo para frente e dois para trás. Por isso acho injusto que o contrato de trabalho em fábrica dos pais extendam-se aos filhos. Tudo bem, não há nada de errado querer trabalhar na fábrica, o que não pode-se admitir é que a fábrica seja a responsável pela perda total dos sonhos dos jovens.

O visto para os yonseis seria bem vindo? Claro que sim! Ajudaria muita gente, mas ajudaria principalmente o Japão, que encontra-se numa realidade de falta de mão de obra. Mas será que não dá para pleitear visto para yonsei com melhores condições de trabalho? Com maior perspectiva de ascenção humana? Acho que dá.

Sou a favor da liberação do visto para yonsei, desde que haja critérios de ambos os lados, e requisitos a serem cumpridos primordialmente, principalmente nessa fase de transição.

As pessoas que vivem no Japão, sempre me criticam quando escrevo esse tipo de texto, mas acho que eles não enendem que o que eu estou escrevendo  pode ter como consequência, uma melhoria na sua qualidade de vida no Japão. Não falo da boca para fora, nem tão pouco tenho opiniões vazias, tudo o que escrevo é porque já pensei mil vezes sobre o tema, busquei embasamento para emitir uma opinião, pois não seria hipócrita a ponto de lançar um artigo no jornal de grande circulação, numa coluna que carrega o meu nome, se não fosse para o bem da comunidade que vive no Japão.

Vamos em busca do visto para yonsei? Vamos! Desde que me garantam que essa geração não será perdida, nem assolada com a falta de sonhos. Quero o direito de visto para todos, desde que haja um respaldo para que todos tenham qualidade de vida e chances para se desenvolverem.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
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