ERIKA TAMURA: Vou-me embora pra Pasárgada

Hoje estava aqui pensando com os meus botões, lembrei do poema de Manuel Bandeira que diz:” Vou-me embora pra Pasárgada…”, e de repente senti uma inveja…

Eu também gostaria de ter uma Pasárgada pra ir embora, um lugar onde sou amiga do rei, onde eu possa tomar banho de mar e sentir a mesma calmaria de um lar de refúgio a que o texto nos remete.

Ao contrário disso, meu coração se divide em duas nações, como todos sabem: Brasil e Japão. E agora, neste exato momento, os dois países passam por momentos turbulentos, nada que possa haver comparação entre si, mas que são momentos incomuns, ninguém pode negar.

O Brasil, passa por uma crise política e a cada dia os momentos decisivos entram para a história, não existe lado positivo ou negativo, existem decisões a serem tomadas para que a situação mude. E, o Japão, mais uma vez passa por um terremoto, dessa vez ao sul, em Kumamoto. O país todo se solidariza, a mídia local só fala sobre o assunto, as vítimas crescem a cada dia… Enfim, momentos de profundas tristezas.

Por isso digo querer uma Pasárgada para ir embora. Onde vou buscar conforto agora? Sendo que meu coração sangra, e minha cabeça gira a mil por hora.

Lembro que na sexta feira, quando ocorreu o terremoto, eu mal dormi, fiquei acompanhando as notícias, me preocupa o fato da terra não parar de tremer até hoje. Eu já presenciei os estragos do grande terremoto há 5 anos, e as imagens das vítimas nos abrigos que fui, não saem da minha cabeça. 

Depois disso, foi a vez do Brasil passar pela votação do impeachment da presidente Dilma. Mais uma noite que passei acordada, acompanhando tudo.

Eu já convivo com uma dificuldade enorme de dormir, agora então, com tudo isso que está acontecendo, o sono passa longe de mim.

Semanas atrás, comentei aqui no Japão, sobre a minha vontade de ir ao Brasil, mais especificamente em Brasília para poder viver todas essas mudanças plenamente. Mas não posso simplesmente largar tudo aqui e ir para Brasília pleitear por integridade moral dos políticos, confesso que me sinto inútil e muito desanimada com a situação atual do Brasil. Mas isso não faz de mim menos brasileira, meu coração sangra, e dói, dói muito ver o rumo que toda essa história está tomando.

E aí, o que acontece no Japão? Terremoto! E penso, meu Deus…esse país nunca está em paz? Faz pouco tempo que encerrei meus trabalhos de levar donativos para Joso em Ibaraki, onde houve a enchente no ano passado, e já aconteceu outro desastre! Lá vou eu para Kumamoto, quero ajudar, trabalhar, fazer um pouco por esse país que me acolheu e até hoje me dá tudo, tudo o que tenho hoje, devo ao Japão.

Quando fui para Tohoku, 5 anos atrás, eu aprendi o verdadeiro significado da palavra doação. Eu achava simplesmente que doação seria eu levar algum produto e distribuir entre as pessoas que precisam. Mas aprendi na prática que não é assim, doação, significa doar o que você tem de melhor, dentro de você. Não importa o produto que levou, a comida que entregou, o que importa é o ato de doar, olhar nos olhos, dar um abraço, independente de qualquer valor monetário. E o que é melhor ainda, receber em troca gratidão, ensinamentos, lição de vida, exemplos de superação… Essas coisas que o dinheiro não compra, jamais!

Ah como gostaria que os políticos brasileiros pudessem entender e sentir 1% do que eu aprendi aqui no Japão.

Fim de semana vou para Kumamoto, não é Pasargada, não sou amiga do rei, não vou escutar histórias da mãe dagua, mas vou em busca da felicidade, no meio do caos, e do sofrimento, vou de coração aberto, sabendo que no último terremoto aprendi muita coisa, e mesmo assim, vou com a sensação de que não sei nada e vou aprender mais ainda. E se tem um sentimento que me move no Japão, se chama gratidão. Sou muito grata ao Japão, pois devo todo o meu conhecimento de vida à esse país. 

O momento atual, tanto no Brasil como no Japão, me deixa dividida e confusamente triste. Parece que tenho duas casas, com duas famílias, uma biológica e outra adotiva, e as duas casas estão bagunçadas, por motivos diferentes, mas estão. E eu fico sem saber a quem ajudar, com a cabeça aqui e ali, querendo socorrer os dois lados, e ainda assim me sentindo perdida por não ter um refúgio para me tranquilizar.

No final, entendi que, não tenho Pasárgada, não sou amiga de rei nenhum, e se eu quiser uma Pasárgada para ir embora, vou ter que eu mesma construir, ou ajudar a reconstruir, com uma ajuda ínfime da minha parte, podendo ser até insignificante, mas é a minha parte. E se todos juntos colaborarem, poderemos chegar juntos à Pasárgada e nunca mais sair de lá.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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