ESPECIAL/PRÊMIO PAULISTA DE ESPORTES: Por amor ao esporte, atletas superam descaso e falta de verbas

A cerimônia de entrega do Prêmio Paulista de Esportes, que este ano chegou a sua 60ª edição no último dia 16, na Câmara Municipal de São Paulo, proporciona momentos que os homenageados certamente carregarão para o resto da vida. Para alguns, é o coroamento de uma trajetória. Afinal, praticar esporte amador no Brasil não é para qualquer um. Entre os obstáculos, os atletas precisam superar o descaso dos governos – seja ele municipal, estadual ou federal – e, consequentemente, a falta de patrocínio. A maioria pratica por amor ao esporte. Em muitas modalidades, as dificuldades são ainda maiores já que os holofotes passam ainda mais distantes.

 

Os homenageados na noite de gala do esporte nikkei: momento de consagração e de gratidão. Foto: Aldo Shiguti

Os homenageados na noite de gala do esporte nikkei: momento de consagração e de gratidão. Foto: Aldo Shiguti

 

É o caso do sumô, que hoje sobrevive graças ao trabalho de dirigentes abnegados e de atletas que acreditam em dias melhores mas são obrigados a “matar um leão por dia”. A começar pelo preconceito com que a própria mídia trata o assunto. Mas se depender de atletas como Rui Aparecido de Sá Júnior, o sacrifício vale a pena. E como ele mesmo postou nas redes sociais: “Se depender de mim o sumô vai longe”.

Indicado para receber o prêmio pela Confederação Brasileira de Sumô, Rui é um típico representante da modalidade hoje no país, que conta com cerca de 80% dos cerca de mil praticantes de não descendentes de japoneses. Para o vice-presidente da CBS e da Federação Sul-Americana, Oscar Morio Tsuchiya, o reconhecimento veio na hora certa. “A Federação Internacioanl de Sumô está lutando para incluir o sumô entre as modalidades olímpicas e premiar um atleta de origem não nikkei às vésperas dos Jogos Olímpicos, certamente repercutirá positivamente para a internacionalização e divulgação do sumô”, disse Morio.

 

Rui, do sumô, com Kagohara, Fernanda Rojas e Okamoto. Foto: Aldo Shiguti

Rui, do sumô, com Kagohara, Fernanda Rojas e Okamoto. Foto: Aldo Shiguti

 

 

Surpresa – Para Rui, que veio de Londrina (PR), especialmente para a ocasião, a homenagem “me pegou de surpresa”. “Não esperava, mas devo admitir que 2015 foi um ano muito bom para mim”, conta Rui, que no ano passado conquistou os títulos de campeão Brasileiro das categorias Pesado e Absoluto, além de obter a medalha de bronze no 20º Campeonato Mundial realizado na cidade de Osaka, no Japão. “Fico feliz por poder representar o sumô e só tenho a agradecer a todos que me apoiaram”, disse Rui, que sonha em se profissionalizar no esporte.

 

 

O homenageado na categoria kendô, Oscar Hayashi. Foto: Jiro Mochizuki

O homenageado na categoria kendô, Oscar Hayashi. Foto: Jiro Mochizuki

 

Homenageada na modalidade softbol, a arremessadora Camila Mayumi Oguira Silva, de 27 anos, também estava feliz pelo “reconhecimento” e fez questão de dividir o prêmio com sua família, “que sempre me acompanhou”. Atleta do Cooper, ela teve pouco tempo para comemorar. No dia seguinte, embarcou para a Colômbia com a seleção brasileira para disputar o Campeonato Sul-Americano. O retorno está previsto para o dia 27 deste mês. Em julho, ela faz as malas novamente. Desta vez para o Canadá, onde será realizado o Campeonato Mundial.

 

Camila e Diogo (irmão de Paulo Orlando), com familiares e dirigentes. Foto: Jiro Mochizuki

Camila e Diogo (irmão de Paulo Orlando), com familiares e dirigentes. Foto: Jiro Mochizuki

 

Despedida – Formada em Engenharia de Produção, Camila iniciou sua trajetória no softbol no São Paulo e coleciona títulos como o de bicampeã Sul-Americana e uma quarta colocação nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, além de tricampeã Brasileira com o Cooper.

Camila lembra que chegou a praticar outros esportes, como a natação, mas acabou ficando no softbol pela família – o pai, Fernando Silva, é árbitro na mesma modalidade. Para a atleta, no entanto, 2016 pode ser o seu ano de despedida do softbol. “Por enquanto está dando para conciliar a profissão com o esporte, mas em 2017 pretendo retomar os estudos e acho que vai ser difícil me dedicar ao softbol”, diz, para em seguida ponderar: “Mas em 2017 teremos o pré-pan…”, conta, deixando escapar o quanto será difícil sua decisão.

Mais tranquilo está o médico Alberto Luis Fukuda. “Me sinto muito honrado em receber o prêmio, especialmente por se tratar de uma data tão significativa”, disse Fukuda, que durante seis anos, entre 2003 e 2009 – época em que cursava Medicina na Santa Casa de São Paulo – competia com afinco pela região Noroeste.

Especialista no arremesso de peso – participava também do lançamento de disco – até hoje é recordista do Campeonato Intercolonial com a marca de 14m11. “Hoje ainda participo, mas só por brincadeiras”, avisa.

 

O sensei Mario Nakati com a filha e diretores do Okinawa. Foto: Aldo Shiguti

O sensei Mario Nakati com a filha e diretores do Okinawa. Foto: Aldo Shiguti

 

Paciência – Aos 76 anos de idade, o sensei Mário Nakati, homenegado com o Prêmio Especial na modalidade Karatê, não pensa em parar tão cedo. Energia e disposição não faltam. Presidente do Okinawa Kenjin Santa Clara Shibu Kaikan e proprietário do Okinawa Shorin-Ryu Karatê-Do e Kobudô Sobukan do Brasil, Nakati lamenta que hoje em dia “a maioria dos praticantes desistem na faixa azul”. “Aprendi com meu pai que, em primeiro lugar, devemos ter humildade e depois ter persistência, força de vontade e saber respeitar os outros”, ensina Nakati, que se orgulha o fato de nunca ter tido um aluno que brigasse. “Falo para eles que a filosofia do karatê tem que ser aplicada no dia a dia e não apenas na academia”, diz Nakati, que aprendeu a lutar com o pai, com apenas dez anos, em Itanhaém (SP), onde nasceu. “Meu pai sempre dizia que era preciso resistir às provocações”, lembra ele, que para incentivar os praticantes, não cobra mensalidade dos 5 aos 7 anos e dos praticantes acima dos 52 anos de idade.

 

O argentino Basilio Parachin com Kishikawa e equipe do Niten. Foto: Aldo Shiguti

O argentino Basilio Parachin com Kishikawa e equipe do Niten. Foto: Aldo Shiguti

 

04Internacional – Parceiro do Prêmio Paulista de Esportes, o presidente da Confederação Brasileira de Kobudo e fundador do Instituto Niten, Jorge Kishikawa, “internacionalizou” a cerimônia deste ano com a indicação do argentino Basilio Parachin, primeiro aluno da unidade do Niten naquele país. “Estamos comemorando 10 anos de presença na Argentina e é uma ocasião propícia para consolidarmos o espírito do Bushidô. A imigração japonesa na Argentina não foi tão grande como a que tivemos no Brasil mas a aceitação da cultura japonesa tem sido bastante positiva”, argumentou Kishikawa.

ALDO SHIGUTI

ALDO SHIGUTI

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ashiguti@uol.com.br
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    One Comment

    1. Para quem se esforça e conquista prêmio, o reconhecimento de seu valor toca profundamente seu coração!!
      Aplausos para o Jornal Nippak e todos os Organizadores que incentivam os que se superam!!!

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