EXPEDIÇÃO ORIENTE: Após volta ao mundo com parada no Japão, Família Schurmann conta histórias de navegação

Sobre Okinawa, capitão destaca a forte espiritualidade e o soba, em entrevista exclusiva ao Jornal Nippak

 

Com exclusividade, Família Schurmann conta ao Nippak como foi visita ao Japão. Foto: divulgação

 

“É muito importante ter um sonho. Mas é preciso acreditar, ter muita perseverança e ir atrás para realizá-lo.” Essa foi a mensagem deixada pelo capitão Vilfredo no desembarque da Família Schurmann na Marina de Itajaí, Santa Catarina, em 10 de dezembro. Todos foram aplaudidos e bem recebidos pela população local. O sonho da tripulação do veleiro Kat acabara de ser completado, no retorno para casa após 812 dias de jornada navegando em volta ao mundo. Uma viagem por cinco oceanos, cerca de 50 portos e 30 mil milhas percorridas (55,6 mil km).

A Expedição Oriente esteve em sua penúltima etapa visitando países da Ásia, e em março deste ano, aportou em Okinawa. Karatê, sanshin, soba e a espiritualidade dos habitantes foram as principais descobertas na ilha. O destino entrou na rota durante o estudo da carta náutica para o projeto, que, vale dizer, tornou-se possível com o apoio de diversas empresas e muito planejamento antes da partida, em setembro de 2014.

 

Expedição Oriente passou por 50 portos e percorreu cerca de 30 mil milhas em 812 dias. Foto: Luciano Cadisani

 

Já em direção ao Brasil, ainda em alto mar, após saírem da Ilha de Santa Helena tendo contornado o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, o capitão parou por um tempo para responder por e-mail as perguntas do Jornal Nippak. Confira a conversa, em que ele conta sobre a “incrível experiência” da jornada, a passagem pela Ásia, além do sentimento em conhecer os mais diversos lugares e culturas do nosso planeta.

A história de Kat (a filha que dá nome à embarcação) está contada no filme “Pequeno Segredo” (dir. David Schurmann), que esteve em cartaz recentemente nos principais cinemas do País.

 

Cíntia Yamashiro

 

 

 

Cíntia Yamashiro: O Japão fez parte da Expedição Oriente, tendo como ponto de parada Okinawa, ao sul do país. Qual o motivo dessa escolha e as impressões que tiveram do local?

 

Vilfredo Schurmann: Visitamos outros países desde nossa saída do Brasil em 21 de setembro de 2014, e chegamos ao Japão em março de 2016. Tivemos a oportunidade de revisitar lugares incríveis, como a Ilha de Páscoa e a Polinésia Francesa, e passarmos por outros lugares inéditos e surpreendentes, como a Antártica, Nova Zelândia e Austrália.

O Japão foi nosso primeiro país no Oriente e escolhemos Okinawa por ter uma cultura própria e parte de sua história ser diferenciada do resto do Japão. Também por ser uma ilha mais ao sul na nossa rota de navegação. Além disso, amigos japoneses nos disseram que era um lugar lindo e de um povo muito amigável.

E, simplesmente, adoramos. Uma ilha que recebe bem os visitantes como se fossem irmãos. É uma região histórica e, no passado, foi um dos lugares de intenso comércio entre as nações. Há muitos brasileiros vivendo lá e muitos deles vieram nos visitar a bordo do veleiro Kat. Também nos informaram que fomos o primeiro veleiro brasileiro a aportar no Japão. Okinawa estava na rota da Expedição Oriente e, depois de visitar a ilha, rumamos para Xangai.

 

O casal no mercado de Okinawa. Foto: Luciano Candisani

 

 

C.Y.: Como foi a receptividade local e o que mais chamou a atenção, a beleza do lugar ou sua cultura? Já que puderam conhecer a dança tradicional, o karatê e o soba, na culinária local.

 

V.S.: A nossa parada em Okinawa foi fascinante, tanto pela beleza do lugar quanto por sua cultura. Enquanto a nação nipônica costuma ser lembrada pelas suas metrópoles tecnológicas, foi encantador visitar toda a região de Okinawa e suas praias paradisíacas. A boa receptividade realmente foi um ponto alto por lá. O clima é muito agradável, tropical, parecido com o do Brasil e, por esta razão, há produções de cana-de-açúcar, abacaxi, carambola, banana, batata doce, mamão e outras frutas tropicais. Também nos chamou a atenção o fato de os habitantes serem conhecidos por sua longevidade. Eles vivem mais tempo do que em qualquer outro lugar do mundo, resultado de boa alimentação, estilo de vida calmo e de baixo estresse, atividades físicas regulares, socialização entre os idosos e espiritualidade de quem vive lá.

Aprendemos, também, que o lado espiritual de Okinawa é o culto e reverência aos antepassados e ancestrais. Eles acreditam na espiritualidade da alma, criando um forte vínculo social e familiar. As casas que visitamos têm também um altar no centro da sala e a família toda “conversa” com os ancestrais, pedindo ajuda em momentos difíceis.

Visitamos o dojo do Mestre Masaaki Ikemiyagi para aprender sobre essa arte marcial japonesa que nasceu na ilha, o karatê. Conversamos várias vezes com o mestre e ficamos impressionados com a disciplina e os ensinamentos dessa arte milenar. O mestre Ikemiyagi também veio visitar o veleiro Kat.

Tivemos oportunidade de assistir a uma dança tradicional ao som do sanshin. A melodia produzida pelas três cordas, combinada com os movimentos das dançarinas, produzem um efeito cativante e poético.

Heloisa foi vestida com um kimono Ryuso e vestiu o chapéu hanagasa, que lembram a natureza, as ondas e o hibiscus, flor típica de Okinawa.

Ah, a culinária foi um ponto alto do lugar. Nosso guia local Marcelo, um brasileiro residente em Okinawa, nos levou aos restaurantes casas de soba, que os habitantes locais frequentam, e experimentamos todos os tipos de alimentos e, lógico, o tradicional soba. Uma delícia! E foi esse o nosso prato favorito enquanto estávamos em Okinawa.

 

C.Y.: Depois do Japão, o roteiro da viagem seguiu pela China, Malásia, Indonésia, Vietnã, entre outros países, até o início do retorno ao Brasil, passando pela África do Sul. Quais lugares dessa expedição mais os atraíram, e poderiam nos descrever por quê?

 

V.S.: Tem sido uma aventura fascinante, cheia de surpresas e muitas emoções. Além do Japão, um dos destaques foi a Antártica, o continente gelado, por onde passamos pela primeira vez em uma viagem ao redor do mundo. O frio foi intenso, mas tudo foi compensado pela emoção de estar lá. Foi fantástico desbravar diversas ilhas inesquecíveis do Pacífico, como a isolada Ilha Ducie. A parada no atol de Amanu, na Polinésia Francesa, também foi inédita para a nossa tripulação. Pudemos conhecer lugares lindos e cheios de surpresas como a Grande Barreira de Corais da Austrália, onde mergulhamos com a imensa diversidade da fauna marinha local; em Papua Nova Guiné, foi emocionante conhecer pessoalmente Boitau Jonathan, que 22 anos atrás encontrou a garrafa com uma mensagem que lançamos no mar em 1993. Na época, ele tinha apenas 17 anos e, hoje, é um respeitável conselheiro da ilha.

E, como não poderia ser diferente, a Expedição Oriente teve como rota as viagens realizadas pelos chineses no ano de 1421 e foi baseada no livro de Gavin Menzies. Em Xangai, obtivemos diversas informações sobre as navegações da Antiguidade. Na China também fomos o primeiro veleiro brasileiro a atracar. Outro momento incrível foi o mergulho com uma baleia e seu filhote a uma distância de menos de 1 metro na Ilha de Moorea, na Polinésia Francesa; sem dúvida foi inesquecível. Além, claro, da descoberta de novos lugares, povos, culturas, etc. Cada dia é um dia completamente novo e propício para momentos surpreendentes e inesquecíveis.

Uma das questões que nos preocupou foi a poluição nos oceanos. Como o mar é o nosso quintal, ficamos tristes em ver lixo plástico em grande quantidade nas águas e praias de ilhas longínquas e desabitadas. Em vários desses lugares, fizemos coletas de plásticos e os depositamos nas cidades onde há reciclagem.

 

Em Okinawa, família ficou fascinada pelo karatê. Foto: Luciano Candisani

 

 

C.Y.: Qual a sensação de ter contato com culturas das mais diversas (talvez com algumas semelhanças por serem orientais, mas ao mesmo tempo exóticas e com suas individualidades) no decorrer dessa longa jornada?

 

V.S.: A oportunidade de conhecer pessoas de outras culturas pelo mundo é um dos motivos que nos mantêm nas expedições. É simplesmente fascinante experimentar outras formas de vida, outras convivências, por mais simples ou diferentes, é sensacional poder compartilhar os costumes mundo afora, como o do povo de Okinawa de “conversar” com os ancestrais, como mencionado acima.

 

C.Y.: Para se comunicarem nesses países, contaram com ajuda de tradutores? E como trabalha toda a equipe da tripulação?

 

V.S.: Sim, na Ásia e em alguns países que não falavam inglês ou francês, contávamos com a ajuda de tradutores e guias locais. Sobre a tripulação, vamos retornar com oito integrantes, mas no início chegamos a ter 12 tripulantes a bordo. Todos, dentro do barco, compartilham as funções rotineiras de marinheiro, além de cumprirem as suas próprias, que são:

Vilfredo Schurmann – Capitão, navegador e diretor geral da Expedição Oriente, responsável pelo planejamento.

Heloisa Schurmann – Pesquisadora, escritora e responsável pelo conteúdo das mídias sociais.

Wilhelm Schurmann – Primeiro imediato, participou ativamente e coordenou a construção do veleiro Kat. Navegador, meteorologista, gerente de manutenção de todo o sistema da sala de máquinas e equipamentos, inclusive das velas.

Emmanuel Schurmann – Presente desde a construção da embarcação, durante a Expedição Oriente atuou como operador de som, vlogeiro e blogueiro.

Erika Cembe Ternex – Chef de cozinha, responsável pelo abastecimento e armazenamento de alimentos a bordo.

Francesc Roig – Diretor de fotografia e diretor de cena.

Heitor Cavalheiro – Participou da construção do veleiro Kat e, durante a Expedição Oriente, atuou como assistente de câmera, operador de drone e piloto de parapente para a captação de imagens aéreas.

Klaus Schlikmann – Fotógrafo e assistente de conteúdo para as mídias sociais.

 

Casal com trajes típicos de Okinawa. Foto: Luciano Candisani

 

 

C.Y.: Essa longa viagem pode ser acompanhada pela Internet, nas redes sociais, onde vocês postam fotos e vídeos, interagindo com os seguidores. O projeto pode ter mais frutos para ser documentado de outra maneira, como um programa de TV?

 

V.S.: A Expedição Oriente conta com alguns diferenciais em relação às aventuras anteriores. Foi a primeira viagem do veleiro Kat, construído especialmente para esse projeto e batizado com o mesmo nome da nossa filha Kat, mantendo-a assim presente em todos os momentos da expedição. Outra novidade que nos orgulha muito é que, pela primeira vez, contamos com um representante da terceira geração Schurmann a bordo. Nosso neto Emmanuel participou dos preparativos e é parte importante da tripulação.

Direto do veleiro, produzimos conteúdos que vêm sendo compartilhados nos nossos canais digitais, em sites parceiros, como o Viagem e Turismo, o HuffPost Brasil e o Viagem Livre, e na atração mensal do Fantástico. Paralelamente, estamos produzindo uma série de dez episódios que serão exibidos para toda a América Latina pelo canal National Geographic, no ano que vem.

 

C.Y.: O livro que está sendo escrito a bordo, sobre a Expedição Oriente, é apenas um relato da viagem ou haverá algo mais nestas páginas?

 

V.S.: Sim. Desde o início da aventura, Heloisa vem registrando tudo e já começou a organizar esse conteúdo que vai compor o livro sobre a Expedição Oriente. Nele, compartilharemos nossas experiências pessoais, emoções e o contato com diferentes povos e culturas, além de fotos lindíssimas.

 

C.Y.: Conhecer o mundo é o sonho de muitas pessoas e vocês têm esse privilégio, mesmo com trabalho. Vocês acreditam que ter contato com diferentes povos e costumes pode abrir a mente das pessoas? Qual mensagem pode passar em relação a essa grande experiência?

 

V.S.: Sem dúvida alguma, ter contato com povos e costumes diferentes abre a mente para novas possibilidades de vida, de opiniões, de respostas, de novas perguntas, além de nos ensinar que o respeito pelo próximo e por suas opiniões diversas é a única e mais sábia forma de conviver bem. A mensagem que gostamos de passar é que sonhos viram realidade, sim. Desde que a pessoa queira, acredite e seja persistente para fazer o seu sonho acontecer.

 

Heloísa e o capitão Vilfredo aprovaram o sobá: prato favorito na ilha. Foto: Luciano Candisani

 

 

“Cada dia é um dia completamente novo e propício para momentos surpreendentes e inesquecíveis”

“É simplesmente fascinante experimentar outras formas de vida, outras convivências, por mais simples ou diferentes, é sensacional poder compartilhar os costumes mundo afora, como o do povo de Okinawa de ‘conversar’ com os ancestrais”

 

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