FUTEBOL: ‘O futebol do Japão é aquele mesmo da Copa’, diz Echigo

 

Sérgio Echigo, ex-ponta direita que atuou no Corinthians na década de 60 (foto: arquivo pessoal)

Sérgio Echigo, ex-ponta direita que atuou no Corinthians na década de 60 (foto: arquivo pessoal)

Da série do túnel do tempo. Sujeito bom de conversa e muito simpatico, daquele que “prende” o interlocutor com suas histórias. Assim é o atual Sérgio Echigo, ex-ponta direita que atuou no Corinthians na década de 60. Em visita ao Brasil – veio acompanhar a final da Copa do Mundo a serviço de uma multinacional – Echigo atendeu a reportagem do Jornal Nippak para uma longa entrevista, onde falou sobre as seleções japonesa e brasileira e, é claro, a época em que jogou no Timão, de 1964 a 1965.

Antes de retornar ao Japão, no dia 2 de agosto, ele participará de uma cerimônia de recepção ao primeiro-ministro japonês Shinzo Abe a convite do próprio embaixador, Kunio Umeda, um apaixonado confesso por futebol.

Inventor do drible do elástico, eternizado por Rivelino, o “Reizinho do Parque”, Echigo guarda boas lembranças da época de jogador. Com passagens por Jundiaí, Bragantino, Barretos e pelo futebol mineiro, o nikkei “quase” foi convocado para defender a seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de 1964, no Japão. “Quase” porque o então presidente do Corinthians Paulista, Wadih Helu, estava com problemas políticos com a extinta CBD – Confederação Brasileira de Desportos. “Na época, só os jogadores amadores podiam ir para as Olimpíadas e o Wadih Helu decidiu me profissionalizar naquele ano, impedindo que eu fosse convocado”, lembra Echigo, explicando que não guarda mágoas do episódio.

 

 “As Olimpíadas não tinham o mesmo valor que tem atualmente”, conta Echigo (foto: arquivo pessoal)

“As Olimpíadas não tinham o mesmo valor que tem atualmente”, conta Echigo (foto: arquivo pessoal)

 

Fominha – “As Olimpíadas não tinham o mesmo valor que tem atualmente”, conta Echigo, confessando que era um jogador “fominha”. Não ficava no banco nem nos jogos de várzea com as equipes formadas por jogadores da comunidade nipo-brasileira, como o CT (Clube da Turma), o Mocidade e o Brooklin. “E olha que tinha um pessoal bom de bola como o Tigrinho, o Mandrake, o Nelson Yoshimura… No CT, inclusive, preferia jogar no segundo quadro porque o primeiro só queria saber de briga”, diverte-se Echigo, que se mudou para o Japão no início da década de 70 para não mais retornar.

Lá, acompanhou de perto toda a evolução do futebol japonês. Ou melhor… “Vai fazer 42 anos que estou no Japão e o futebol lá não mudou nada”, afirma, para surpresa de muitos torcedores que ficaram frustrados com o desempenho do time de Zaccheroni. Sobre as quatro participações dos “Samurais Azuis” em Copas do Mundo, outra triste constatação de Echigo.

“A seleção japonesa só disputou as quatro últimas Copas porque a Fifa, uma entidade que só visa dinheiro, abriu quatro vagas e meia para o continente asiático. Não fosse assim o Japão não participaria”, critica Echigo. E para quem ficou frustrado com a atuação de Honda e companhia, outra “ducha de água fria”.

“O futebol do Japão é aquele mesmo, todos os times asiáticos são fraquíssimos. Não é porque os jogadores atuam no Exterior que tem que ser bons de bola.Os japoneses são contratados por clubes europeus porque dá ibope, mas a maioria não é titular em suas equipes”, dispara Echigo, afirmando que os japoneses só endureceram contra a Itália na Copa das Confederações – perderam por 4 a 3 – porque os times italianos “estão um bagaço”.

Aliás, sobre a Copa do Mundo realizada no Brasil, Echigo acha que nenhuma seleção novidade significativa a ponto de provocar uma revolução mundial. “Estão falando da organização da Alemanha, mas ela teve que esperar 24 anos para ganhar um título. E agora estão falando [mal] do Brasil só porque apanhou de goleada. O futebol não tem segredo, é conseqüência dos clubes. Faz o tempo que o Brasil não vem bem, apesar de ter conseguido um resultado mais expressivo que na Copa do Mundo na África. Por exemplo, o Brasil não enfrentou as dificuldades de uma eliminatória e venceu a Copa das Confederações sem a Argentina e sem a Holanda de Robben “, diz Echigo, afirmando que o Brasil não teria tomado tantos gols contra a Alemanha se tivesse jogado defensivamente.

 

Humildade – “Tinha que ter mais humildade. Praticamente todos os gols foram falhas do Brasil, que tem dois laterais muito ruins – que não atacam nem defendem”, analisa Echigo, que afirmou, antes de Dunga ser definido como novo técnico da seleção brasileira, que um treinador estrangeiro não é a solução dos problemas.

“Se mudar o presidente da República não vai mudar muita coisa no país. Oproblema é que hoje o Brasil não tem jogadores que decidem. Estão acabando com os jogadores fora de série. É como uma criação de peixes, onde todos são iguais”, diz Echigo, cujas opiniões são muito respeitadas no Japão, onde trabalha como comentarista e “propagou” – como gosta de falar – futebol para mais de 600 mil crianças.

“Desde a Copa de 98, na França, que o ambiente do futebol não é mais o mesmo. O ‘zé povinho’ não estrá tendo acesso aos jogos porque o preço dos ingressos é um absurdo”, desabafa Echigo, explicando que é da quantidade que se extrai a qualidade. “É diferente de escolinhas, que ensinam as crianças. Primeiro, é preciso fazer com que as crianças tomem gosto pela coisa”, destaca Echigo, que é tem duas casas no Japão e é proprietário também de um time de hóquei sobre o gelo que disputa o Campeonato Asiático.

(Aldo Shiguti)

 

 

 

 

 

 

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