HIDEMITSU MIYAMURA: Tempos Dourados

 

Há momentos que calam fundo na nossa alma e eles são mágicos quando relembrados e contados pelos próprios protagonistas. Desde que passei a registrar as conversas da minha mãe e das minhas tias, – todas nos seus oitenta anos de idade – tive algumas experiências emocionantes dessa natureza. Uma destas ocasiões foi quando o ânimo ficou por conta da minha tia Sumiko (80 na época). O palco era Santo André, nas cercanias de São Paulo e a época, a segunda metade dos anos trinta, – setenta e tantos anos atrás.

Era o oitavo ano no Brasil da família do imigrante Uichi Okumura (53 anos na época). Ele tinha vagado com a família, de fazenda em fazenda cuidando e colhendo café e algodão. Tinham passado nos últimos anos por várias fazendas, – em média um ano em cada lugar. Uichi tinha conseguido alugar um terreno num local chamado Oratório, em Santo André. Era para plantar batatinhas.

A composição da família de Uichi era na ocasião, – ele e a esposa Nobu (50), Tadashi (25), Takashi (22), Toshiko (20), Shizuko (18), Sumiko (16), Hiroko (14), Emiko (12) e a sobrinha Taeko (9). A segunda filha Haruko já estava casada. Toshiko, mais tarde viria a ser minha mãe. Ela trabalhava no Hotel Toyo que ficava na Rua Tabatinguera em São Paulo.

 

No jardim japonês de Santo André em 1938. Toshiko à direita e Shizuko à esquerda. Atrás Sumiko, Hiroko, Emiko e Taeko

 

Do pouco salário que ganhava, gastava nos fins de semana, antes de tomar o trem para Santo André, parte do dinheiro para comprar no açougue dois quilos de costela de boi. Da estação, seguia a pé, cruzando a plantação de batatinhas em diagonal para ganhar tempo. Lá em casa estava Uichi com largo sorriso, esperando pela costela. Ele mesmo preparava o “Shichu”, um prato típico, uma espécie de “vaca atolada” com batatas.

A maior felicidade de Uichi era receber jovens na sua casa. Jovens que vinham atrás, não só das iguarias, mas atraídos pelas filhas casadouras. Essa rotina já era famosa na redondeza.

Antes de vir para o Brasil Uichi1 possuía um restaurante tipo “Ryotei” na cidade de Kumamoto e estava acostumado a receber bem as pessoas. Mesmo depois de vir para o Brasil, adorava receber visitas e contar histórias intermináveis da guerra russo-japonesa, sempre com muita bebida. O casal Uichi podia não ter o que comer, mas nunca faltava comida para os visitantes. Se faltasse arroz, mandava tomar emprestado no vizinho para mais uma porção adicional. Naquele modesto barraco havia uma mesa grande que destoava no ambiente pobre e rústico. Os jovens sentavam ao redor da grande mesa e as gargalhadas nunca cessavam.

 

Ryotei Fujiya de Kumamoto em 1920

 

A moçada em idade de namorar aguardava ansiosa a chegada dos fins de semana, porque garantir um lugar naquela mesa de jantar era da maior importância. Os mais ousados apareciam no dia anterior, acanhados e coçando a cabeça, chegavam sorrindo “Oji-san viemos até aqui perto e aproveitamos para ajudar nas batatas…” e sem perda de tempo metiam a mão para colher, lavar, ensacar e empilhar os sacos de batatas. Uichi sempre acolhedor, só sorria…

O barraco era simples, mas sempre dava para alguns deles dormirem sobre pilhas de casca de milho.

O prato do sábado era o “Dangojiru”, um ensopado típico de Kumamoto, especialidade da Nobu. A moçada chegava e ia direto, “Oba-san ficamos com saudade do “Dangojiru”, viemos de novo…” e iam chegando, chegando,… um olho nodangojiru e outro na paquera.

Santo André daqueles tempos, imagino, deveria corresponder hoje às regiões distantes da cidade, como as de hortaliças ao redor de Campos de Golfe. Os tempos mudaram e hoje, poucos jovens se disporiam a tomar o trem, o ônibus e ainda andar quilômetros como faziam nossos pais e avós, setenta anos atrás. Mas o mais interessante de tudo isso é que apesar do ambiente tão propício, com tantos jovens que se gostavam e se sentirem atraídos por uns e outros, nenhum casamento se efetivou entre eles. O destino possui facetas estranhas, inexplicáveis.

A certa altura minha tia Sumiko indagou, como que pensasse em voz alta – “Será que aquela pessoa ainda está viva e com saúde?”. A outra tia, no mesmo tom retrucou, “Como deve estar hoje aquele lugar de plantação de batatas? Gostaria de estar lá outra vez…” A essa altura os seus olhos estavam úmidos, brilhavam cheios de uma longínqua nostalgia. Eu não tenho a menor dúvida, viviam de maneira simples, pobres, sem nenhuma riqueza, mas viveram ali os tempos dourados.

 

Nota:

1. Uichi Okumura (1883~1960), meu avô foi combatente na guerra russo-japonesa (1904-05) como soldado do 3º exército comandado pelo Marechal Comandante Nogi. Era o terceiro de cinco irmãos. Todos os cinco irmãos lutaram naquela guerra e voltaram ilesos, coisa rara. Até se tornar imigrante em 1930, vindo no navio (Manila-maru), tinha um restaurante em Kumamoto, em Karashima-cho, o “Fujiya”.  Tornou-se imigrante depois de se desfazer do restaurante e fracassar na exploração de minas de ouro em Fukuoka.

 

Veja a versão original em japonês

 

Hidemitsu Miyamura

brasileiro, nissei, engenheiro, empresário, ex-executivo da NEC. Autor de livro de crônicas em japonês e escreve artigos para jornais de língua japonesa. Estudou língua japonesa desde criança no norte do estado do Paraná e é autodidata em assuntos ligados à cultura japonesa. Escreve crônicas em japonês e em português publicados no “site” discovernikkei.org de Los Angeles, USA. É autor do livro Kagiri Naku Tookatta Deai (限りなく遠かった出会い) publicado em 2005

 

 

 

 

 

 

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